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[Celso Vegro] – O Abismo Agroindustrial

CELSO LUÍS RODRIGUES VEGRO
Diretor e Pesquisador do IEA – Instituto de Economia Agrícola
(celvegro@sp.gov.br)

Há décadas, o conceito de agronegócio se implantou na academia brasileira como melhor maneira de compreender e analisar as complexas relações que vinculam agentes econômicos, englobando desde a pesquisa agropecuária; produção de insumo; produção vegetal e animal; transformação agroindustrial; logística e comercialização. Ainda assim, muitas análises permanecem restritas à componente produção, desconsiderando os efeitos a montante e a jusante desse componente do agronegócio.

Nos últimos dois anos assiste-se escalada nas cotações as principais commodities agrícolas nas bolsas internacionais, intensificadas, no mercado interno, pela forte desvalorização do real frente ao dólar. Aspectos relacionados aos distúrbios climáticos, prevalência das exportações sobre o abastecimento interno (Lei Kandir), redução dramática da renda das famílias e seu comprometimento crescente com a alimentação a cada dia mais restrita aos produtos básicos, foram cenário em que o desempenho econômico da agroindústria de transformação será questionado.

Particularmente no caso do agronegócio café, as torrefadoras que tem entre 40% a 60% de seus custos centrados na aquisição da matéria prima estão vivenciando momento bastante sombrio. Considerando uma média torrefadora que processe 1.000 sacas de café por mês blendando 50% com arábica tipo 6 duro e 50% conilon tipo 6/7 até 10% umidade e 5% de grãos brocados, o custo mensal com aquisição de suprimentos era em janeiro de 2020 da ordem de R$470,00/sc para ambos produtos o desembolso alcançava mensalmente a cifra de R$470 mil apenas para aquisição da matéria prima1.

Quase dois anos depois, com a escalada das cotações essa mesma aquisição demanda R$600 mil para as compras de arábica acrescidas de outros R$375 mil para o conilon, ou seja, um desembolso global de quase R$1,0 milhão mensais! A essa escalada dos custos deve se acrescentar similares elevações no custo da energia elétrica, combustíveis, embalagens e mão-de-obra. A minoria das torrefadoras terão fôlego financeiro para fazer frente a esses custos quando, ademais, os repasses ao segmento atacadista e varejista sofre resistências e acontece em ritmo bem menos acentuado do que os itens formadores de seus custos.

Diante da inacessibilidade à matéria prima para processamento (pelo custo ou pela escassez), o mercado de palha estará aquecido. O rebaixamento da qualidade será uma consequência imediata acrescida do problema de saúde pública que provoca. No ´próximo ano os órgãos fiscalizadores e a vigilância sanitária terão trabalho redobrado.

Adicionalmente, a elevação da taxa SELIC que mantem viés de alta encarece as possibilidades de financiamento do fluxo de caixa, encarecendo as alternativas de obtenção de crédito por parte das torrefadoras. Com tábua de salvação há a possibilidade de contratação de recursos do FUNCAFÉ destinado a indústria. Todavia, dada a reduzida margem que os bancos comerciais obtêm nessas operações, percebe-se desinteresse e morosidade na liberação de empréstimos para essa função produtiva.

 As incertezas rondam o segmento. Tal ambiente favorece o aprofundamento do movimento de consolidação do capital (fusões e aquisições), que já sinaliza com significativa concentração do market share entre os cinco maiores torrefadores nacionais. Ainda que um menor número de agroindústrias possa ter vantagens do ponto de vista da padronização e qualidade, em café a perda de diversidade é um fator que retirar um dos principais motores do crescimento do consumo que é o experimentar, o descobrir e o se deixar surpreender.

A agroindústria de torrefação e moagem, em geral, não foi capaz de modernizar suas estratégias de aquisição de matéria prima, valendo-se dos títulos financeiros para esse fim (CPR, futuro e opções, mercado a termo). Atuando quase que exclusivamente no mercado físico (spot) a atual escalada de preços tende a empurrá-las para o abismo em que o fundo é algo próximo das férias coletivas interrompendo a produção por um período, o repasse da marca para outro fabricante com maior tenacidade financeira ou, ainda, numa situação mais dramática o encerramento das atividades mediante falência.

A agroindústria de torrefação consiste no principal cliente da cafeicultura brasileira. Zelar por esse segmento do agronegócio café é crucial para que a liquidez do produto seja preservada. Impedir o cenário de abismo agroindustrial é missão coletiva dos agentes econômicos atuantes nesse agronegócio.

* o autor agradece a sugestão de assunto ao exportador Nelson Carvalhaes.

1 Preços apurados nos respectivos portais de informações estatística:

http://www.cccv.org.br/cotacao/

http://ciagri.iea.sp.gov.br/nia1/precos_medios.aspx?cod_sis=2 

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