fbpx
Revista Attalea Agronegócios
ARTIGOS Café Café e Mercado

[João Marcelo Oliveira de Aguiar] – Resumo do Mês de Maio (Síntese do Mercado de Café – 1º de junho de 2021)

JOÃO MARCELO OLIVEIRA DE AGUIAR
Superintendente Executivo da Fundação PROCAFÉ

Graduado em Administração com Ênfase em Comércio Exterior,
é também Q. Grader, Analista de Mercado e professor acadêmico
no curso de Pós Graduação em Cafeicultura.

Fatores de sustentação ao mercado:

⦁ Do lado fundamental, as preocupações com a escassez de café para o ciclo 21/22 evoluem à medida em que os estoques da safra brasileira anterior se aproximam de seu fim. Neste mesmo sentido, à medida em que os trabalhos de colheita, de uma safra naturalmente menor frente a bienalidade da cultura, vão se iniciando no Brasil, as consequências do clima seco, com temperaturas elevadas e alguns veranicos nos primeiros meses do ano, em importantes regiões cafeeiras do Brasil, vão ficando mais evidentes: má granação dos frutos com rendimento abaixo do esperado, o que potencializa a possibilidade de uma quebra ainda maior do que aquela, até então, prevista. Além disso, incertezas climáticas em outras origens com provável queda na produção complementam o tom altista para as cotações do café. Novas adversidades podem ocasionar um novo surto na oferta, o que consequentemente levaria as cotações a novos patamares.

⦁ A propósito dos fundamentos, mais alguns dados relacionados à produção surgiram no decorrer do mês de maio:

⦁ A OIC (Organização Internacional do Café) revisou sua estimativa inicial de produção para o ciclo 20/21, incialmente estimado em 171,89 milhões de sacas para 169,63 milhões de sacas. Com isso, o superávit que anteriormente superava a casa de 5,5 milhões de sacas caiu para 3,29 milhões de sacas;

⦁ O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), estimou a safra brasileira 21/22 em 56,3, uma redução de 19% quando comparada à safra anterior, estimada pela entidade norte americana em 69,9 milhões de sacas. Segundo o USDA, a safra de arábica 21/22 está estimada em 35 milhões de sacas, o que representa uma redução aproximada de 30% ante a temporada anterior. Já a safra de Conilon, está estimada em 21,3 milhões de sacas, um acréscimo de aproximadamente 5,5% em relação ao ciclo anterior;

⦁ A Conab, em seu relatório de acompanhamento da safra emitido em 25/05/2021, apontou uma quebra para o ciclo 21/22 de 22,6% em relação ao resultado apresentado no ciclo anterior. Deste modo, de acordo com a entidade, a expectativa é que a safra 21/22 alcance um volume total de 48,81 milhões de sacas de café beneficiado, com destaque para a quebra de 31,5% para a espécie Arábica cuja produção 21/22 deve girar em torno de 33,36 milhões de sacas. Já o Conilon deve apresentar um incremento de 7,9% em relação à safra de 2020, alcançando algo em torno de 15,44 milhões de sacas. Logo, enquanto a safra do Conilon deve apresentar um acréscimo próximo de 1 milhão de sacas, o Arábica deve apresentar um decréscimo superior a 15 milhões de sacas;

⦁ Apesar da previsão de chuva no final de maio, para algumas regiões cafeeiras no Brasil, os olhares seguem atentos, não somente para o curto prazo, ou seja, não somente para a safra do ano de 2021, mas também para a safra de 2022. A uma altura dessas, as chuvas já não aliviam a situação crítica das lavouras brasileiras para a colheita deste ano e, apesar do pouco volume registrado no mês passado em dados momentos ter exercido certa pressão às cotações, não elimina as preocupações com a produção de 2022. E, frente a este cenário, logicamente, as cotações devem seguir firmes;

⦁ E por se falar em clima, no Brasil inicia-se um período de muita especulação em cima de possíveis frentes frias que devem rondar o cinturão cafeeiro nos próximos meses, um risco para as lavouras e um convite para o aumento do consumo doméstico.

⦁ Problemas políticos e logísticos da Colômbia, segundo maior produtor mundial da espécie Arábica, seguem comprometendo os embarques de café desta importante origem. No início do mês de maio, protestos contra um plano de Reforma tributária acabou tomando maiores proporções, expondo o país em um cenário de caos. Agora, frente a uma onda de violência e protestos, com bloqueio nas estradas do país e com cargas sendo saqueadas em portos, os cafeicultores colombianos se deparam com uma situação de alerta humanitário frente a um possível colapso na segurança alimentar do país. Segundo a Federação Nacional dos Cafeicultores da Colômbia, as companhias marítimas vêm suspendendo os agendamentos para transporte de café em função dos protestos com consequente bloqueio de estradas. De acordo com a entidade, desde o final do mês de abril, cerca de 600 mil sacas de café tiveram sua exportação adiada. Ao final do mês de maio, tratativas entre sindicatos e estudantes com o governo colombiano seguiram progredindo em vistas do fim das greves e dos bloqueios.

⦁ À medida em que a vacinação contra o Covid-19 avança em importantes regiões consumidoras, sobretudo, no Hemisfério Norte, as expectativas quanto à retomada do crescimento da demanda geram boas perspectivas para o mercado de café.

⦁ Frente a diversos fatores fundamentais que seguem dando sustentação às cotações e embalando os preços, tanto no mercado futuro quanto no mercado físico, é importante ressaltar que, outros fatores também atuaram positivamente para as cotações:

⦁ O câmbio, com o dólar sendo negociado a níveis mais baixos, também teve seu peso para a valorização das cotações do café nas Bolsas. Além do dólar frente ao real, nesta mesma lógica, o US Dollar Index (índice do dólar), chegando a ser negociado abaixo de 90 pontos, também colaborou para a alta das cotações do café;

⦁ Dados positivos relacionados à economia brasileira, ao final do mês de maio, pressionaram o dólar mais ainda, dando mais força ao movimento altista das cotações do café. O resultado do Produto Interno Bruto (PIB) para o primeiro trimestre do ano de 2021 superou a expectativa de economistas, com um crescimento de 1,2% no primeiro trimestre de 2021 quando comparado com trimestre anterior. Com destaque para investimentos, de empresas em novos projetos e infraestrutura, que evoluíram 17% no primeiro trimestre, em relação ao mesmo período do ano passado, os indicadores econômicos melhores do que o esperado, sinalizam a retomada da economia brasileira, que volta ao seu mesmo nível do período pré-pandemia (último trimestre de 2019).

⦁ Em determinadas ocasiões do mês de maio, o desempenho dos preços do petróleo e do índice CRB (índice formado por 19 commodities) se juntou à uma diversificada gama de fatores que estimularam as altas das cotações do café;

⦁ Certos movimentos de alta das cotações nas Bolsas chegaram a ser intensificados por fatores técnicos, isto é, stops de compra (ordens automáticas) ativados na medida em que determinadas resistências, na parte superior do gráfico, foram superadas. Atualmente, para o vencimento mais próximo e de maior liquidez (julho/2021) na Bolsa de Nova Iorque, a linha psicológica de 160 cents/lb, antes tida como resistência, encontra-se como um importante suporte, portanto, na parte inferior do gráfico. Todavia, é importante acompanhar os próximos movimentos para concluir se o ajuste técnico, que normalmente ocorre após altas ou baixas de maior intensidade, impulsionados por realizações de lucro de fundos de investimentos e especuladores, terá força para romper o suporte de 160 cents/lb ou se, de fato, haverá a consolidação de um novo nível de cotações na ICE Futures US.

Fatores de pressão ao mercado:

⦁ Em determinados dias do mês de maio, apesar de um mês evidentemente altista para as cotações do café, principalmente para o Arábica como expresso no gráfico ao início da Síntese, alguns fatores pressionaram as cotações, mas nada fora do normal:

⦁ Correções e ajustes técnicos impulsionados pela realização de lucros de fundos de investimento e especuladores após expressivas altas que levaram o café a alcançar níveis de cotações dos quais não atingia desde 2017;

⦁ Ainda que, o dólar tenha encerrado maio com cotação próxima daquela que iniciou o mês, portanto, negociado a níveis mais baixos do que os primeiros meses do ano com consequente pressão negativa para os preços do café no mercado físico, em determinados dias de alta, a moeda norte americana pressionou as cotações de café também nas Bolsas, um movimento oposto comum conforme já explanado em Sínteses do Mercado de meses anteriores. Com destaque para a segunda semana do mês, quando o dólar saiu da casa de R$ 5,22 e chegou a superar R$ 5,30, estimulado, em especial, por dados da inflação norte americana em abril, apontada em 4,2%, isto é, 0,6% acima da expectativa do mercado que esperava 3,6% para o acumulado em 12 meses, o que certamente conduziu investidores do mundo inteiro a um sentimento de aversão ao risco. Neste tópico, cabe lembrar que, na última semana do mês de maio, a promessa do Federal Reserve (Banco Central dos EUA) de não elevar os juros até que a economia volte ao pleno emprego e a inflação retorne à sua normalidade, favoreceram o apetite ao risco por parte dos players do mercado que seguem atentos e sensíveis aos indicadores econômicos do EUA;

⦁ No cenário doméstico, enquanto o anúncio de indicadores econômicos extremamente favoráveis, tal como o avanço do PIB no primeiro trimestre, tende a favorecer o fortalecimento do Real, desavenças políticas com consequente lentidão no avanço das reformas podem seguir sendo fator de enfraquecimento da moeda brasileira.

Mensagem aos leitores: 

“A preocupação em relação ao setor cafeeiro é geral, para todos que dele participam, desde quem produz até os que industrializam. E, de fato, o cenário não deve ser encarado como um problema particular da classe produtora, todos devem participar, de modo a promover a superação conjunta. Com a aproximação da safra, bem como dos compromissos de entrega do produto, é possível perceber a apreensão de inúmeros participantes do mercado de café. Alguns exportadores, até mesmo, já expõem sua aflição com o “risco de default”, ou seja, o risco do não cumprimento da entrega dos cafés vendidos anteriormente a preços bem inferiores aos atuais. Entretanto, há de se ponderar que os calotes no setor cafeeiro não são comuns e podem ser evitados. E qual seria o melhor caminho para se evitar o default?? A lucidez, a compreensão e a complacência. A lucidez para assimilar a realidade, a compreensão para entender que as adversidades (algo de força maior, fora do controle e inesperado) são o que trouxeram à tona este alarmante cenário e complacência para participar de alguma solução que, embora não a almejada, seja um caminho sustentável para ambas as partes. E qual seria esta solução? Neste momento de enorme dificuldade, é essencial que todos estejam abertos a sentar, conversar, entender, auxiliar, negociar e, ainda, renegociar se necessário. ”

Related posts

[Paulo Padilha] – Agricultura de Precisão ajuda no preparo do solo?

[Marco Antônio Jacob] – As reais perspectivas brasileiras de produção de arábica para a safra 2015/2016

Revista Attalea Agronegócios

[Silas Brasileiro] – Balanço Semanal do CNC — 19 a 23/02/2018

Revista Attalea Agronegócios

Deixe um comentário