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Revista Attalea Agronegócios
ARTIGOS Café Café e Mercado

[Marcelo Fraga Moreira] – Mercado do Café – Tempestade Perfeita (comentário semanal 24-28 de Maio de 2021)

MARCELO FRAGA MOREIRA
É um profissional há mais de 30 anos atuando no mercado de commodities agrícolas, escreve este relatório sobre café semanalmente como colaborador da Archer Consulting –
Assessoria em Mercados de Futuros, Opções e Derivativos Ltda.
www.archerconsulting.com.br

Semana com uma das maiores amplitudes atingidas no ano: 1.565 pontos! O Set-21 trabalhou entre mínima/máxima/fechamento respectivamente @ 149,45 / 165,10 / 164,30 centavos de dólar por libra-peso! Maior nível desde novembro de 2016! No mês de Maio o café teve uma valorização de +16,11% e no ano +26%!

Na semana o Real voltou a valorizar +3,15%, saindo de 5,35 R$/US$ para 5,2150 R$/US$. No mês de Maio o Real teve uma valorização de +4,31% e no ano ainda segue desvalorizado  em -1,07% (o Real iniciou o ano @ 5,16 R$/US$ e atingiu o pico @ 5,8740 R$/US$ em 9 de Março).

A semana começou calma com o Set-21 testando o suporte nos 149,00 centavos de dólar por libra peso. Na segunda-feira fechou com -110 pontos e na terça-feira fechou com +110 pontos (@ 152,10 centavos de dólar por libra-peso). E com pouco volume negociado: +23,282 lotes na segunda-feira e +28,274 lotes na terça-feira!

O mercado estava aguardando por novas notícias, e elas chegaram! Voltou a “andar” a partir da quarta-feira, com altas expressivas, volumes expressivos, stops sendo atingidos, acumuladores sendo acionados e “players” cobrindo posição!

Na quarta-feira a Conab publicou novo relatório de safra, projetando uma safra em 49 milhões de sacas. Apesar de ter sido um pouco acima da penúltima estimativa os produtores se “revoltaram”. A expectativa dos produtores era para um número abaixo dos 45 milhões de sacas. Os dados do campo continuam divergindo dos dados da Conab, do USDA, dos bancos e das corretoras independentes! Aparentemente dessa vez os produtores estão com a razão!

Na sequência o governo federal mostrou-se preocupado com a crise hídrica e está decretando “alerta de emergência hídrica” entre junho-setembro nos estados do Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais, São Paulo e Paraná! A maior seca dos últimos 110 anos!

Na quarta-feira tivemos alta de +550 pontos, +41.386 lotes negociados, e máxima do ano @ 158,75 centavos de dólar por libra-peso;

Na quinta feira nova alta de +55 pontos, +49.064 lotes negociados, e nova máxima do ano @ 159,20 centavos de dólar por libra-peso; e

Na sexta-feira nova alta de +700 pontos, +66.073 lotes negociados, e nova máxima do ano @ 165,10 centavos de dólar por libra-peso.

Aparentemente os stops estavam nos 160 centavos de dólar por libra-peso! E foram acionados!

Estamos alertando nossos leitores há 5 meses (praticamente desde o inicio do ano 2021) para se protegerem! Para os produtores comprarem “Call-Spreads” contra o Set-21! Alertando para o risco da quebra da produção, da valorização do Real frente ao US$, dos problemas logísticos, do risco do inverno ser rigoroso e riscos para geadas, da posição comprada dos fundos, da reabertura dos mercados consumidores e aumento da demanda reprimida no hemisfério norte, dentre outros!

Com o início da colheita as informações dos produtores com problemas de produção e qualidade não param de chegar, a valorização do Real trabalhando entre 5,10-5,40 R$/US$, a revisão dos números da safra para baixo (com exceção da Conab todas as casas falam da produção ainda acima dos 50 milhões de sacas), e o “alerta de emergência hídrica” do governo federal foi a “cereja do bolo” que os altistas estavam aguardando! E o inverno ainda não começou!

Previsões climáticas seguem amenas para os próximos 10 dias, sem ondas de frio a caminho e sem previsão de chuvas significativas nas áreas produtoras! A segunda quinzena de Junho promete!

Produtores continuam com receio para vender o saldo da safra 20/21 e abrir novos compromissos com a safra 21/22 e 22/23! Como existem muitos contratos já fixados entre 550-650 R$/saca para a safra 21/22 e entre 550-700/750 r$/saca para a safra 22/23, os produtores agora estão reticentes, aguardando os resultados finais e reais da colheita, e já se sentindo lesados pelas cooperativas e pelas tradings por “terem vendido barato”!

Já tem produtores procurando brechas na lei para não honrar seus compromissos assumidos. Vender para algum cerealista, para outra cooperativa/trading aos preços atuais e jogar o problema pra frente! Infelizmente o sistema judiciário brasileiro é lento, e esses problemas vão se arrastar por 3-5 anos!

Nessa semana voltou a circular entre os produtores a história da recuperação judicial da Terra Forte, onde muitos produtores foram lesados. E agora é a vez do produtor dar o troco!

Já vimos esse movimento em outros anos e em outras culturas!

E isso não vai acabar bem!   

Produtores estão questionando as vendas futuras! Se sentem prejudicados, enganados, “induzidos” pelas cooperativas/analistas para “vender”. E agora estão com receio para realizar vendas para 22/23 e 23/24.

Cooperativas seguem abrindo preços para realizar negócios para entrega Agosto-22 e Agosto 23, porém pouquíssimos negócios sendo reportados.

Na semana já tivemos alguns lotes sendo negociados acima dos 1.000 R$/saca, para café tipo “cereja descascado” e mais 50 R$/saca de prêmio para café com certificado.

Mesmo assim negócios travados; spread entre compradores e vendedores ao redor dos 100 R$/saca; e agora os produtores seguem aguardando para vender acima dos 1.300/1.500 R$/saca! O “mosquito da alta” picou os produtores brasileiros!

De quem é a culpa?

De toda a cadeia!

• dos produtores: precisam aprender e entender como as operações de hedge funcionam. Como fazer uma “trava futura” e comprar um seguro contra eventual alta; O melhor investimento é o conhecimento, a informação.

• das cooperativas/tradings: “espremem” o produtor na hora da compra, nas margens das “trocas”, nas operações de barter.

• das corretoras/bancos de investimento: procuram vender estruturas alavancadas para os produtores/cooperativas/indústria/tradings, com o discurso “risco pequeno da operação ocorrer/de dobrar/de dar knock in”. E quando o problema ocorre os bônus já estão garantidos e “cada um com seu problema”!

• e finalmente do governo federal: o Brasil não pode ser o celeiro do mundo e desabastecer o seu próprio país! Políticas de estoque regulador precisam voltar a existir com urgência. Não faz o menor sentido o maior produtor de commodities agrícolas exportar e depois ter que importar a preços mais caros para abastecer seu mercado interno! Nos últimos 12 meses o índice medido pelo IGPM já atingiu 37%!

As formas de comercialização precisam mudar e se aperfeiçoar com urgência.

• cooperativas/tradings e produtores precisam se unir, e ensinar aos produtores novos formas de comercialização: quando realizarem uma compra/venda com “preço fixo” já precificar para o produtor um seguro contra a alta, através da compra da “Call” ou “Call-spread”; se for uma venda “a fixar”, garantir o piso mínimo do momento (comprando uma “Put” ou “Put-Spread”, e ensinar ao produtor como essas ferramentas funcionam, os riscos, os prós e contras!

Os custos para estes “seguros” existem, são públicos, são cotados diariamente na bolsa de Nova Iorque! Atualmente a liquidez para o vencimento Set-22 e/ou Set-23 é muito restrita (por falta de conhecimento e por falta de demanda por parte dos produtores globais). Os spreads/riscos/margem/corretagem existem mas são claros! Como já demonstramos aqui, as ordens precisam ser trabalhadas, claras entre o comprador/vendedor, e evitar os enormes spreads, as “bocas de jacaré” entre o “bid x ask”…

Quanto maior for o nível de disseminação das informações / instruções para a cadeia do café (produtor/cooperativa/trading/indústria) melhor serão os negócios e a transparência para o mercado.

Para as corretoras, não tem cabimento cobrar uma corretagem de 10-15 US$/contrato de futuro e “enfiar” no produtor/cooperativa/indústria uma corretagem de 100/200/300 US$/contrato nas operações de “acumuladores”, nas operações de risco extremo, induzindo o tomador da posição a colocar “riscos com pequena probabilidade de ocorrer” nos seus livros!

(e isso posso falar de cátedra, pois já vi a mesma operação custar 2.000 usd em uma corretora e 18-25.000 usd em outras)!

Enfim, não estamos falando em “ser freira”. O mercado vive em busca de lucros, resultados. Mas do que adianta “matar a galinha dos ovos de ouro”?

Para o Set-21 seguimos altistas no curto prazo, com o Set-21 apresentando suporte nos 162,00 / 152,70 / 149,70 / 141,50 e 137, 10 centavos de dólar por libra-peso.

Com o estocástico trabalhando entre 90-95% acreditamos numa correção rápida (podendo testar o segundo suporte nos 152,70 centavos de dólar por libra-peso) e em seguida voltar a subir para novas máximas e buscando os 165,10 / 170,00 / 180,00 centavos de dólar por libra-peso. Se vier o risco de geadas, poderemos ver o Set-21 negociar acima dos 200 centavos de dólar por libra-peso.

Para o Set-22, para vendas para entrega em agosto-setembro 2022, nossa sugestão continua sendo a venda através da “garantia do preço mínimo” junto as cooperativas e tradings aproveitando essa tendência de alta! Vendas em US$/saca, ou, se for feita em R$/saca atenção com o risco cambial!

Na sexta-feira, o Set-22 fechou a 170,95 centavos de dólar por libra-peso. Considerando um desconto de compra para o produtor ao redor de -25 pontos e um Real futuro @ 5,30 R$/US$, isso representa para o produtor um preço de liquidação ao redor dos 191,80 US$/saca ou 1.016 R$/saca (e tem compradores oferecendo pagar 950/930 R$/saca…).

Na sexta-feira era possível a compra de um seguro contra a baixa (comprando uma “Put-Spread”) no Set-22 com strike +170/-140 vendendo uma “Call-Spread” strike -200/+240 com um custo aproximado de 69 R$/saca. Desta forma o produtor garante um preço mínimo ao redor dos 947 R$/saca e um preço máximo ao redor dos 1,226 R$/saca (desde que o mercado feche acima dos 140 centavos de dólar por libra-peso e acima dos 200 centavos de dólar por libra-peso). Se o mercado continuar subindo acima dos 200 centavos de dólar por libra-peso, e acima dos 240 centavos de dólar por libra-peso, o produtor voltará a participar do mercado caso o mercado negociar acima dos 240 centavos de dólar por libra-peso, aproximadamente 1.500 R$/saca.

(Para demonstrar como o R$ impacta diretamente no resultado, vendendo uma saca de café no exemplo acima @ 191,80 US$/saca com o R$/US$ @ 5,30 o produtor receberá 1.016 R$/saca. Se o Real desvalorizar para 6,00 R$/US$, esse mesmo produtor irá receber 1.150 R$/saca).

Como sempre, sejam prudentes! Protejam-se! Evitem ao máximo as operações alavancadas, os famosos acumuladores, as operações com “Knock-in / Knock-out”! Deixem essas operações para os profissionais!

Aproveitem as oportunidades! MUITO CUIDADO: o inverno e os riscos das geadas estão começando!

PS: vale a pena a leitura do artigo publicado pelo Ryan Delany (analista chefe do Coffee Trading Academy), no link

https://www.coffeetradingacademy.com/post/is-the-rally-here

Ótima semana a todos!

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