CaféCafé e Mercado

[Marcelo Fraga Moreira] – Mercado de Café – “Produtor, aproveite estas altas e proteja-se”

MARCELO FRAGA MOREIRA
mmoreira66@yahoo.com
[Comentário Semanal – 06 a 10/07/2026]
É um profissional há mais de 30 anos atuando no mercado de commodities agrícolas,

escreve este relatório sobre café semanalmente como colaborador da Archer Consulting –
Assessoria em Mercados de Futuros, Opções e Derivativos Ltda.
www.archerconsulting.com.br

Mais uma semana histórica no mercado do café para ser, um dia, compartilhada com seus filhos/netos durante um cafezinho!

Uma alta diária histórica não vista desde 1.973! O setembro-26 chegou a subir +5.600 pontos e a negociar na máxima da semana @ 357 centavos de dólar por libra-peso e próximo da máxima do contrato negociado em 09 de setembro de 2.025 @ 361,55 centavos de dólar por libra-peso!

O set-26 encerrou @ 334,24 centavos de dólar por libra-peso com fechamento anterior, mínima/máxima/nova máxima/nova mínima/nova máxima / nova mínima / nova mínima / nova máxima  respectivamente @ 301,20 / 300,20 / 357,00 / 350 / 315 / 325 / 307,30 / 348,55 / 313,50 centavos de dólar por libra-peso!

Após a alta histórica da segunda-feira as margens iniciais subiram novamente, passando dos 5.500 US$/contrato para 8.300 US$/contrato. Com aproximadamente 175.000 lotes em aberto (sem considerar as posições em aberto nas opções) esse movimento combinado entre aumento na chamada de margem inicial + a variação ao redor dos 74 US$/saca, então, o “vendido” em NY ou foi obrigado a liquidar a sua posição tomando um grande prejuízo ou teve que depositar “apenas” 4,65 BILHÕES DE DOLARES da segunda-feira para a terça-feira (lembrando que essa chamada de margem inicial é cobrada tanto do “comprado” quanto do “vendido”)!

Nesses movimentos de altas e baixas “fora da curva” o efeito “pânico” domina o mercado e ordens de “stop” aparecem a cada 500-1.000 pontos, forçando tanto o vendido quanto o comprado (tanto em contratos futuros quanto em opções) a entrar no mercado e a zerar a posição no preço naquele momento onde o mercado estiver!

O mercado assistiu a movimentos incríveis diários entre as máximas e mínimas negociadas: segunda-feira alta de +5.580 pontos; terça-feira queda de -4.970 pontos; quarta-feira queda de -1.770 pontos; quinta-feira alta de +3.505 pontos; e sexta-feira alta de +2.270 pontos!

Na semana o mercado chegou a variar entre as máximas e mínimas +/- 16.625 pontos ou 219 US$/saca!

Nesse mercado – onde os fundos + especuladores + algoritimos negociam – a “briga é para cachorro grande”. Pois como vimos, uma posição contraria ao mercado em apenas 10 lotes obrigou o vendido a depositar +238.000 US$. Extrapolando para uma posição em 100 lotes = +2,38 milhões de dólares; para uma posição de 500 lotes = 11,90 milhões de dólares! E o mercado, como demonstrado acima, exigiu em apenas 1 dia +4,65 bilhões de dólares! Desde o dia 9 de junho de 2.026 o mercado subiu aproximadamente 154 US$/saca gerando uma chamada de margem no período estimada em +7,67 BILHÕES DE DOLARES!

Da mesma forma que o mercado “estopou” os vendidos na manhã da segunda-feira, nos dias seguintes os “comprados” nos níveis mais altos do mercado devem ter sido “estopados” – dessa vez pelos fundos virando a mão e vendendo pesado para “estopar” os comprados. E nos dias seguintes, com essas oscilações diárias acima entre 1.500-3.500 pontos as operações de “day trade” trouxeram toda essa volatilidade ao mercado.

E o produtor? Nesse momento de alta infelizmente muitos produtores “sempre querem mais”… E não aproveitaram ainda essa oportunidade para realizar vendas acima dos 2.000/1.800 R$/saca no mercado spot e a não realizar vendas/travas para set-27 e/ou set-28 novamente acima dos 1.800 R$/saca (acima dos 330 US$/saca para o café arábica tipo 6 peneira 17/18 e acima dos 210 US$/saca para o café conilon)!

Os vencimentos dez-26, set-27 e dez-27 negociaram nas máximas da semana respectivamente @ 341, 331, e 330 centavos de dólar por libra-peso! Considerando um “diferencial de compra-venda” justo, em -50 pontos, essas liquidações deram possibilidade para o produtor realizar vendas acima dos 384 US$/saca contra o dez-26 e acima dos 370 US$/saca contra os vencimentos set-27 e dez-27.

Durante essas altas o “diferencial de compra-venda” voltou a explodir, saindo dos -45 pontos para até -90 pontos. +/-45 pontos representam 59 US$/saca x 5.10 R$/US$ = 303 R$/saca! É MUITO DINHEIRO PARA O PRODUTOR ABRIR MÃO!

Nesses momentos creio que as cooperativas precisam começar a ajustar as formas de comercialização com seus cooperados dando a oportunidade para o produtor realizar suas vendas em “diferenciais” e em US$/saca, deixando o mercado acalmar e os “diferenciais de compra-venda” ajustarem para maximizar a remuneração dos produtores/associados!

Lembrando: quando assistimos movimentos assim extraordinários na bolsa os compradores interno e externo se retraem e compram apenas o mínimo necessário para honrar seus compromissos. Nesses momentos ninguém vai pagar o “preço cheio” da bolsa pois sabem, ou aguardam, uma correção, um ajuste nos dias seguintes. E nesses momentos o diferencial abre, e abre muito!!

Creio ser primordial o produtor e a cooperativa sentarem para conversar e começar a ter a possibilidade em realizar vendas futuras com base no “diferencial de compra-venda” e deixar o mercado trabalhar –  para que em momentos como o dessa semana o produtor “pequeno” possa aproveitar essas distorções / oportunidades! 300 R$/saca para qualquer produtor é muito dinheiro deixado na mesa!

Vale a reflexão do Arnaldo Corrêa publicado no seu último comentário semanal do açúcar (e que eu também recomendo a leitura) (https://archerconsulting.com.br/pt/o-pior-ja-ficou-para-tras/) para que o mesmo não venha a acontecer agora no mercado do café:

“… Infelizmente, essa necessidade de venda hoje é, em parte, consequência de decisões que deixaram de ser tomadas no passado. Ao longo dos últimos meses o mercado ofereceu diversas oportunidades de fixação em níveis significativamente superiores aos atuais. Comentamos isso repetidas vezes em nossos relatórios. Cada empresa teve suas razões para não aproveitar aquelas janelas — seja por expectativas mais otimistas, por restrições financeiras, por questões internas de governança ou simplesmente por excesso de confiança. O fato é que essas oportunidades ficaram para trás e hoje muitas usinas acabam sendo obrigadas a fixar preços em níveis menos atrativos.

Esse é justamente um dos princípios fundamentais da gestão de risco. Ela não existe para acertar o topo do mercado. Existe para proteger margens quando elas são economicamente satisfatórias. Esperar pelo preço perfeito normalmente significa correr o risco de acabar vendendo em condições muito piores.”

O “mercado” vem tentando justificar essa alta aos problemas climáticos já enfrentados na safra atual (chuvas no final de junho/início de julho) e ao risco de geadas durante as próximas semanas e a especulação referente ao efeito El-Ninõ já para a próxima safra 27/28.

Tivemos problemas sim com as chuvas: muito grão caiu no chão; muitos produtores tiverem perdas localizadas. Porém, muito desse café que caiu no chão está entrando nas operações de varrição e grande parte desse café será aproveitado em blends/ligas. Então, considerando uma perda real entre 2-3 milhões de sacas, o Brasil mesmo assim irá produzir entre 68-72 milhões de sacas! Creio que vamos ter prêmios excelentes para café com peneira acima 17/18 e “cereja descascado”. E esse café de alta qualidade poderá ser utilizado para o produtor realizar “ligas” procurando maximizar o preço de venda do seu café “inferior” – afetado pelas chuvas recentes.

O parque cafeeiro hoje instalado no Brasil já permite uma produção superior a 70 milhões de sacas daqui para a frente – e essa produção só não será maior se houver realmente algum problema climático severo.

Por enquanto nenhum modelo climático indica riscos de geadas até o final do mês de julho. Existe alguma previsão de chuvas para os próximos dias 12-14 de julho mas com baixa intensidade. E as chuvas, se vierem, poderão gerar novos atrasos pontuais – e, dependendo do clima, já beneficiar e/ou reduzir potencial riscos para a próxima safra 27/28 em função da formação/confirmação do El-Ninô.

O grande risco dessas chuvas fora de hora poderá ser a indução da floração antecipada em algumas regiões – prejudicando a safra 27/28. Porém, se tudo caminhar dentro da normalidade, as próximas safras 27/28 e 28/29 serão >= 70 milhões de sacas!

Essas produções brasileiras serão monitoradas muito de porte pelo mercado mundial pois caso esses números se concretizarem então o estoque mundial a partir da safra 28/29 será superior a 40 milhões de sacas!

Creio que preços para set-27 em diante para café arábica tipo 6, peneira 17/18 acima dos 300 centavos de dólar por libra-peso liquidando para o produtor acima dos 330 US$/saca (considerando um diferencial de compra-venda em -50 pontos) é uma oportunidade a ser considerada. Idem para o café robusta acima dos 210 US$/saca (acima dos 3.500 US$/tonelada).

Como mencionado no comentário semanal anterior, as projeções indicam reposição do estoque mundial já a partir da safra atual aumentando consideravelmente a partir da safra 27/28.

Novamente reforçando o comentário do Arnaldo Corrêa: Esse é justamente um dos princípios fundamentais da gestão de risco. Ela não existe para acertar o topo do mercado. Existe para proteger margens quando elas são economicamente satisfatórias. Esperar pelo preço perfeito normalmente significa correr o risco de acabar vendendo em condições muito piores.”

Produtor: como sempre Proteja-se!

Aproveite esses preços / essa semana ainda para considerar operações para as próximas 2-3 safras – procurando conversar com seu comprador para “travar” o seu “basis / diferencial de compra” entre -35/-50 pontos (entre 46-66 US$/saca) e você produtor poder executar a sua fixação com base no vencimento Nova Iorque correspondente e, à sua opção.

Ficar apenas “olhando” e não fazer nada é uma aposta. E creio uma aposta muito arriscada no cenário atual!

* Cuidado com as operações alavancadas / as estruturas com os acumuladores / as operações “que aparecem / desaparecem” que estão sendo oferecidas no mercado por alguns bancos/corretoras – pois se algum “evento de cauda” vier a ocorrer estas estruturas “seguras” poderão te quebrar!

Boa semana a todos!

-x-x-x-x-x-

Call* = opção de compra
Put* = opção de venda
Compra Call-Spread* = compra e venda simultânea de 2 Opções de Compra comprando a Opção com preço de exercício mais baixo vendendo a Opção com preço de exercício mais alto
Venda Call-Spread* = venda e compra simultânea 2 Opções de Compra vendendo a Opção com preço de exercício mais baixo e comprando a Opção com preço de exercício mais alto
Compra Put-Spread* = compra e venda simultânea 2 Opções de Venda comprando a Opção com preço de exercício mais alto e vendendo a Opção com preço de exercício mais baixo
Venda Put-Spread* = venda e compra simultânea 2 Opções de Venda vendendo a Opção com preço de exercício mais alto e comprando a Opção com preço de exercício mais baixo
CFTC* = Commodity Futures Trading Commission – agência independente do governo dos Estados Unidos que regula os mercados de futuros e opções das commodities
IBGE* = Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
Cecafé* = Conselho dos Exportadores de Café do Brasil
SECEX* = Secretaria comércio exterior
CNC* = Conselho Nacional do Café
USDA* = Departamento da Agricultura dos Estados Unidos
FNC* = Federação Nacional dos Cafeicultores da Colômbia
FAS* = Serviço Agrícola Estrangeiro do USDA
OIC* = Organização Internacional do Café
GCA* = Green Coffee Association
ABIC* = Associação Brasileira da Indústria de Café
Sincal* = Associação dos Produtores do Brasil
NDF* = (Non-Deliverable Forward), um contrato a termo de moeda com liquidação financeira, com vencimento para aquele mês
PIB* = Produto Interno Bruto
FED* = Banco Central Americano
NOAA* = Departamento Nacional da Atmosfera e Oceanos dos Estados Unidos
EUROSTAT* = Serviço de Estatística da União Europeia responsável pela publicação de estatísticas e indicadores de elevada qualidade a nível europeu que permite a comparação entre países e regiões
OPEP* = A Organização dos Países Exportadores de Petróleo
FOMO* = é caracterizada pela necessidade constante que uma pessoa tem de saber o que outras estão fazendo. FOMO, sigla que vem da expressão em inglês “fear of missing out”, que traduzida para o português significa “medo de ficar de fora”. O investidor fica com receio em perder uma oportunidade no mercado e sai “comprando ou vendendo” para não ficar de fora da “oportunidade” divulgada na mídia
COOXUPÉ* = Cooperativa Regional de Cafeicultores em Guaxupé
Coccamig* = Cooperativa Central de Cafeicultores e Agropecuaristas de Minas Gerais
COPOM* = Comitê de Política Monetária, órgão do Banco Central responsável pelo estabelecimento das diretrizes da taxa de juros
BASIS* = disparidade de preço causada pela diferença geográfica entre os pontos de entrega da commodity, calculada pela diferença entre o preço físico e o preço futuro
Bandas de Bollinger* = indicador de volatilidade utilizado para identificar níveis de sobrecompra ou sobrevenda no mercado
PMI* = Purchasing Manager’s Index – indicador que mede a atividade econômica de um país a partir de pesquisas mensais com gerentes de compras
Vicofa* = Associação do Café e Cacau do Vietnam

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