DAVI MOSCARDINI
Eng. Agrônomo, M.Sc
Libérica Pesquisa Agrícola
Cerrado nem dado nem herdado. Este era um ditado popular quando o cultivo de café no Brasil ficou por séculos confinado às manchas de terra roxa em São Paulo e Minas Gerais. A história conta que o café adentrava o país atrás do “pio do macuco”, ave que só habitava a Mata Atlântica, floresta que ocorre no interior paulista e mineiro majoritariamente sobre solos argilosos de material de origem vulcânico. A disponibilidade destes locais, hoje classificados como Nitossolos, nunca foi farta e não seria suficiente para matar a atual sede de café pelo mundo. A alta matéria-orgânica, traços de micronutrientes, melhor disponibilidade natural de nitrogênio e a soma de bases elevada pela cinza da queimada das matas propiciava que atividade fosse rentável à época, ainda que se colhesse em média tristes 10 sacos por hectare, produtividade inadmissível para a cafeicultura moderna.
O milagre da agricultura tropical começou com o calcário. Seu uso desbloqueou o cultivo de regiões cafeeiras inteiras como o Cerrado Mineiro e boa parte da Alta Mogiana, basicamente por neutralizar o alumínio, elevar a saturação por bases e reduzir a acidez dos pobres e envelhecidos latossolos que cobrem boa parte do território nacional. Chegou a ser distribuído gratuitamente a produtores e extensamente subsidiado para que a agricultura pudesse prosperar sobre as áreas marginais. Por real investido foi sem dúvidas o insumo que mais trouxe retorno ao cafeicultor e ao povo brasileiro que hoje se alimenta de comida produzida em terras antes consideradas inúteis. Setenta anos depois do início dessa revolução, ainda que em um Neossolo com 10% de argila, colher 100 sacas de café por hectare não é delírio, tampouco conduzir talhões irrigados com 50 sacas/ha de média, algo impensável naquela época.
Durante toda esta jornada o calcário foi o corretivo protagonista, fornecendo o cálcio e magnésio e freando a acidificação dos cafezais. Nesta década, no entanto, é clara a insatisfação com a performance deste insumo, especialmente no que tange o fornecimento do magnésio. O parque cafeeiro brasileiro tem se mostrado de maneira geral dominado pela falta deste nutriente, que tinha como sua principal fonte de fornecimento o calcário. Neste texto busco explicar alguns motivos pelos quais isso pode estar acontecendo e alternativas para correção de solos na cafeicultura moderna.
As causas da deficiência de magnésio
A deficiência de magnésio (Mg) se tornou uma epidemia na cafeicultura por vários motivos. A primeira e mais importante razão é o grande aumento de produtividade ocorrido em solos pobres, resultado da sinergia negativa da maior demanda sobre solos com disponibilidade mais baixa. Aliado a isso houve também intensificação na aplicação de fórmulas de fertilizantes com muito potássio (K), elemento que dificulta a absorção do magnésio pela planta. Isso ocorre principalmente pelo maior raio iônico hidratado do Mg e competição com potássio (K) pelos mesmos sítios de absorção na raiz. Enquanto relação Mg/K for inferior a 2/1 e potássio for aplicado sem critério dificilmente observaremos melhora nos sintomas de deficiência de magnésio.
Por fim o calcário, que suspostamente fornece quantidade mais que suficiente de magnésio não tem mais cumprido o seu papel. A título de teoria, a aplicação de 1 tonelada por hectare de calcário dolomítico (10% Mg) forneceria mais de 4 mmolc/dm³ de Mg no solo, suficientes para mais de 80 sacas por hectare mais a vegetação, utilizando a demanda proposta pela Fundação Procafé (1,9 kg MgO/saco). Na prática tem se aplicado doses superiores a esta ano após ano e não se verifica o completo desaparecimento dos sintomas nas lavouras.
Por que o calcário não consegue mais suprir o magnésio no cafezal?
O nome calcário dolomítico vem da rocha dolomita que é basicamente carbonato de cálcio (CaCO₃) e magnésio (MgCO₃), moído para aumento da superfície de contato e aplicado nas culturas agrícolas. O PRNT (Poder Relativo de Neutralização Total) é a variável que atesta quanto um corretivo é eficiente para neutralizar a acidez do solo, considerando quanto ele neutraliza e quão rápido ele reage, que é química (Poder de neutralização) e reatividade, função de granulometria, quanto mais fino mais reativo.
O ponto principal é: Só existe solubilização de carbonatos de cálcio e magnésio na presenta de acidez (H+):
CaCO3+2H+→Ca2++CO2+H2O
MgCO3+2H+→Mg2++CO2+H2O

Em ambiente alcalino ou neutro ocorre forte diminuição de liberação de nutrientes, ainda que o calcário esteja finamente moído. Dois fatos ocorrem e explicam a ineficiência crescente deste corretivo no cafezal. Os consecutivos anos de calagem elevaram muito o pH em camadas superficiais do solo, especialmente na cultura do café que não tem o corretivo incorporado no solo por se tratar de cultura perene. Para atestar essa situação basta retirar uma amostra de 0-5 cm e observar que diversas áreas estão com pH > 6 em CaCl, ambiente que diminui drasticamente a solubilização dos corretivos a base de carbonato.
Para piorar a situação a taxa de dissolução superficial do carbonato de cálcio (CaCO₃) é muito maior que o carbonato de magnésio (MgCO₃) (Fig. 1). O calcário ainda tem o dobro da quantidade de CaCO₃ em relação a MgCO₃. De forma resumida, o CaCO₃ reage primeiro e em maior quantidade, elevando o pH e travando a dissolução do MgCO₃. A situação é ainda mais drástica em solos arenosos, onde a demanda por Mg é mais crítica. O menor poder tampão não freia a subida do pH travando rapidamente a liberação do Mg presente na dolomita (Fig. 2).

É possível afirmar com tranquilidade que boa parte dos cafezais hoje é conduzido com excesso de calcário. A dose calculada para ser distribuída em 10000 m² (um hectare), muitas vezes é aplicada de forma localizada sob a saia do cafeeiro que representa em média 50 % da área, ou seja, muitas vezes a dose aplicada é dobrada, situação que diminui ainda mais a disponibilidade Mg presente no corretivo, especialmente em solo de textura média/arenosa (Fig. 3).

Este excesso de corretivo ainda não é incorporado ao solo o que inviabiliza ainda mais sua reação devido ao ambiente alcalino superficial. Nestas condições a disponibilidade de Mg diminui e a de cálcio (Ca) aumenta, até que o pH atinja patamares que inviabilizem também a dissolução da calcita. Este são os principais mecanismo que explicam áreas com doses pesadas de calcário consecutivas ainda apresentarem deficiência de magnésio. O elemento está lá, em grande quantidade, mas não consegue ser solubilizado da rocha e disponibilizado para a cultura.
O óxido de cálcio e magnésio (cal virgem dolomítica) pode resolver a situação?
Atualmente a cal virgem dolomítica (CaO + MgO) é a fonte mais interessante para a calagem no cafezal por alguns motivos, embora também não resolva o problema do magnésio sozinha como será esclarecido mais à frente. A cal dolomítica é produto da calcinação do carbonato de cálcio e magnésio que dá origem ao óxido de cálcio e magnésio com elevada porosidade estrutural (Fig. 5). Este processo confere maior área superficial e reatividade química em comparação ao carbonato original. O ponto chave desta questão é que sua reatividade depende menos de acidez para reação inicial, a tornando um corretivo muito superior para aplicação em superfície (Fig. 4) em culturas perenes como o café.


O óxido depende inicialmente apenas de água para reagir. Após o processo de hidratação são geradas as hidroxilas que neutralizam a acidez e aumentam o pH do solo. Ainda que a dissolução dos hidróxidos seja menor em ambiente alcalino ela é muito superior aos carbonatos. De maneira resumida os óxidos apresentam menor dependência do pH do solo em relação aos carbonatos, pois sua reação inicial ocorre via hidratação com água, enquanto carbonatos requerem H⁺ para dissolução.
Hidratação: CaO + H₂O → Ca(OH)₂
Dissolução: Ca(OH)₂ ⇌ Ca²⁺ + 2OH⁻
Neutralização da acidez: 2OH⁻ + 2H⁺ → 2H₂O
A substituição do calcário pela cal dolomítica é uma estratégia interessante para correção de acidez, fornecimento de cálcio, mas infelizmente também não resolve 100% o problema de Mg em áreas de alto potencial produtivo onde há desbalanços pronunciados na relação Mg/K.
Isso ocorre porque neste corretivo também há competição entre o CaO e o MgO. O óxido de magnésio (MgO) apresenta hidratação mais lenta que o óxido de cálcio (CaO) e o hidróxido de magnésio Mg(OH)₂ possui solubilidade muito menor que o Ca(OH)₂.
A rápida reação das fontes cálcicas (tanto carbonato, quanto o óxido) elevam precocemente o pH na superfície do solo, reduzindo a dissolução das fontes magnesianas (menos reativas) e limitando a liberação de Mg ao longo do tempo, ainda que de maneira menos acentuada na cal dolomítica.

Magnesita: A chave para correção de Mg no cafezal
Uma solução que está resolvendo este problema no campo é o aporte adicional de óxido de magnésio puro (magnesita). Esse corretivo associado à cal virgem corrige a deficiência de Mg porque aumenta a oferta total do nutriente e é uma fonte cuja reação depende menos da acidez do solo. Conforme comentado anteriormente a rápida reação do CaO da cal virgem eleva pH superficial e diminui a velocidade de dissolução individual de cada partícula, mas isso parece ser compensado com a enorme quantidade de partículas de MgO aportadas pela magnesita, o que garante fluxo maior de Mg²⁺ para a solução do solo.
Em outras palavras a reserva de Mg reativo é tanta que a limitação cinética de dissolução deixa de ser importante do ponto de vista agronômico. Observações de campo indicam que, após a hidratação do produto, os teores foliares de magnésio aumentam consideravelmente em aproximadamente três meses, eliminando sintomas visuais de deficiência e mitigando a pressão de competição causada pelas sucessivas adubações potássicas realizadas durante as fases de expansão e granação dos frutos.
Conclusão
O calcário dolomítico ainda é um corretivo importante para a agricultura tropical e seu uso na cafeicultura é muito positivo nas seguintes situações: 1) aberturas de novas áreas de plantio, onde é possível aplicar doses pesadas e realizar a incorporação com uso de grade e arado, 2) No sulco de plantio, onde o corretivo será misturado e incorporado pelo subsolador/batedeira de covas e 3) talhões com análise de solo 0-20 apontando ph < 5, situação cada vez mais rara na cafeicultura empresarial.
Para a atual situação do parque cafeeiro brasileiro, majoritariamente corrigido, neutro ou alcalino em superfície e incapaz de receber incorporação de corretivo dada a perenidade da cultura, a associação da cal virgem dolomítica com magnesita tem se mostrado um manejo promissor para correção e fornecimento de cálcio e magnésio no cafezal.
