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Revista Attalea Agronegócios
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ARTIGOS Café

[Davi Moscardini] – Fisiologicamente, o que esperar da safra de café de 2019?

Davi Moscardini

Eng. Agrônomo, Mestrando em Fitotecnia pela ESALQ/USP

Para compreender a flutuação das safras nacionais de café é necessário primeiro conhecer as condições do local de origem desta planta. O café arábica, (Coffea arabica), é originário dos sub-bosques da Etiópia, onde evoluiu em condições de pouca luz. Em ambiente sombreado o cafeeiro é uma planta pouco produtiva. Devido ao estiolamento os internódios ficam mais longos e a planta mais alta, a falta de luz diminui a diferenciação floral e limita sua capacidade fotossintética. Assim, com menos nós por ramo e menos flores, menos frutos serão produzidos em cafeeiros sombreados do que cafeeiros a pleno sol. Por muito tempo o cafeeiro foi cultivado na sombra de árvores no Brasil até que se percebeu que o sol diminuía o porte das plantas e aumentava a produção, pois os ramos continham mais nós e também mais flores, pela maior diferenciação floral. Assim, começou a cafeicultura a pleno sol.

Nesta modalidade de cultivo os florescimentos são profusos e se traduzem em alta carga de frutos por planta. Como o cafeeiro é pouco produtivo em seu centro de origem, não houve necessidade evolutiva para o desenvolvimento de mecanismos de regulação de carga (dreno) em função da capacidade de sustentá-los (fonte), como ocorre em outras frutíferas.

Os frutos sendo drenos preferenciais limitam a quantidade de carboidratos direcionados para vegetação responsável pela produção do ano seguinte. Em determinadas situações o comprometimento das plantas com a formação dos frutos é tão extremo que pode levar a seca de ramos (die-back) e até mesmo morte da planta.

A bienalidade de produção do cafeeiro é, portanto, natural e foi acentuada pelo cultivo a pleno sol. Existem medidas para atenuá-la, mas infelizmente não é possível eliminá-la com produtos milagrosos ou com uso de altas doses de fósforo como proposto por alguns profissionais.

  Safra brasileira de 2018/2019

O ano de 2018 é de bienalidade positiva. Segundo o último levantamento de safra realizado pela CONAB o Brasil produzirá 58 milhões de sacas de café este ano, portanto em 2019 as lavouras brasileiras entrarão em um ciclo de baixa produção como todos esperavam.

Existe, porém, um agravante sério para a safra de 2019 que não ocorreu com grande intensidade nos últimos anos. Segundo informações da estação meteorológica da Fundação Procafé, as chuvas de março e abril ficaram muito abaixo da média histórica em Franca. Em maio de 2017 a disponibilidade de água era de mais de 100 mm, situação muito diferente da atual, em que os solos já estão em déficit hídrico (Figura 1). Em outras, palavras isso significa que em 2018 os cafezais da região terão menos água disponível para suportar o seco inverno da Alta Mogiana.

Figura 1: Balanço hídrico de Franca – SP. Fonte: Procafé.

 

Algumas lavouras da região já mostram sinais de estresse hídrico (Figura 2). Esta seca impactará menos a safra de 2018, pois está acontecendo após a granação dos frutos. A preocupação maior é com a safra de 2019, que pouco se beneficiará das reservas de amido do cafeeiro, pois estas serão esgotadas pela alta carga de frutos de 2018. Como a principal fonte de carboidratos para o desenvolvimento das flores e frutos do cafeeiro são as folhas adjacentes a estes órgãos, a desfolha natural da colheita de 2018 e a perda de folhas por estresse hídrico é preocupante e pode comprometer a safra de 2019.

Figura 2: Lavoura de primeira safra perdendo folhas devido à seca.

Ainda existe a possibilidade de ocorrência de chuvas no inverno que atenuariam os impactos da seca, caso ocorram antes do estágio E4 das flores, momento em que a água estimula a antese. Mais uma vez o risco maior de perdas fica para as lavouras novas e para lavouras mal implantadas, com baixo estande de plantas, entrelinhas sem plantas de cobertura e sistema radicular superficial.

Com a ocorrência de intempéries climáticas cada vez mais frequentes a adoção de medidas que diminuam o estresse hídrico é fundamental para mitigar os riscos intrínsecos da cafeicultura de sequeiro. No atual momento a estratégia é comercializar a safra de 2018 com parcimônia. Com os rumores de geada e caso a seca realmente se confirme, o mercado deve reagir e o cafeicultor pode se beneficiar de possíveis altas nos preços.

Referências

CONAB – Companhia Nacional de Abastecimento. Boletim Café 2018. Disponível em:< https:///www.conab.gov.br/info-agro/safras>.

DaMatta FM (2004a) Ecophysiological constraints on the production of shaded and unshaded coffee: a review. Field Crops Res. 86:99-114.

Matiello J. B. et al. Estresse hídrico já afeta safra de café. Folha técnica 415. Fundação Procafé, 2018.

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