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[Matias Coffee Trading] – Inteligência de Mercado – “A Qualidade da Safra 26/27 no Brasil”

GUSTAVO MATIAS
MCT | Matias Coffee Trading

Semana: 20 a 24/07/2026
https://cafezalsuldeminas.com.br/
Instagram: @matiascoffeetrading

Contato: (16) 9.9291-2005

Na semana anterior, o Arábica fechou a 320,30 c/lb e, nesta sexta-feira encerrou a 313,80 c/lb, queda de aproximadamente 2%. O Robusta seguiu na mesma direção, saiu de 3.877 para 3.757 USD/ton, caiu próximo de 3%.

A semana não apresentou a volatilidade absurda de recentemente, apesar de ainda alta. Os ânimos parecem ter esfriado com volume diário negociado abaixo da média do ano. A publicação do relatório do USDA talvez tenha ajudado a amenizar a tensão ao trazer uma projeção de superávit. O mercado caiu pouco e continua bastante travado pelo fluxo, safra grande traz grandes movimentos.

O preço médio da saca no Arábica, fechou por volta de R$ 1.680,00 a saca e o Conilon permaneceu por volta de R$ 1.040,00 a saca.

O dólar também ficou morno, fechou em R$ 5,08 e pouca volatilidade durante a semana.

Novamente o COT do Arábica mostrou os Fundos não comerciais reduzindo suas posições vendidas, com a recompra de 186 contratos. Entretanto o movimento mais interessante ocorreu no lado comprado. Depois de liquidarem 1.591 contratos na semana anterior, os especuladores reduziram outros 2.057 contratos comprados nesta semana. Apesar da pequena cobertura de posições vendidas, o saldo da movimentação continuou sendo de redução da exposição comprada/altista.

É impressionante o volume de spreading que os Fundos estão fazendo, com essa incerteza do mercado os spreadings estão dando várias oportunidades, atualmente fundos não comerciais em 90.569 contratos posicionados em spreading.

Há semanas eu venho observando em visitas aqui na Alta Mogiana os cafés que estão chegando. Muitos lotes apresentam coloração irregular, grãos manchados e aquele aspecto que normalmente associamos a um café que tomou chuva no terreiro. O problema é que vários desses cafés não receberam uma única gota de chuva depois da colheita.

A primeira reação é simples: a qualidade da safra brasileira está ruim.

Mas quanto mais eu conversei com pessoas de outras regiões, mais percebi que a resposta não era tão simples.

A discussão ganhou ainda mais relevância com a publicação do Coffee: World Markets and Trade, do USDA, que apresentou uma perspectiva confortável para a oferta mundial em 2026/27, com produção recorde e recuperação dos estoques. O relatório ajuda a dimensionar a quantidade de café que poderá existir no mercado, mas não responde a uma pergunta essencial para o físico:

Qual será a qualidade dessa oferta recorde?

Uma safra grande em volume pode conviver com menor disponibilidade de determinados padrões, principalmente quando aspecto, peneira, porcentagem de catação e rendimento de preparação reduzem a parcela efetivamente capaz de atender aos compradores mais exigentes.

Para tentar entender o que está acontecendo falei com mais de 30 profissionais espalhados pelas principais regiões produtoras do Brasil. Produtores, agrônomos, corretores, compradores, negociantes, cooperativas, exportadores, especialistas em qualidade e executivos responsáveis por milhões de sacas. Os relatos não são idênticos, e nem poderiam ser em um país com a diversidade do Brasil, mas alguns padrões se repetiram com muita consistência.

O primeiro deles é que a safra brasileira de Arábica não parece apresentar, pelo menos até agora, uma deterioração generalizada da bebida, o problema mais recorrente está no aspecto.

Há muito café bebendo duro, duro para melhor e até especial, mas chegando visualmente irregular. Cafés que na xícara entregam mais do que a aparência sugere. Isso apareceu em relatos da Alta Mogiana, do Sul de Minas, da Zona da Mata e, em menor intensidade, do Cerrado.

Em algumas regiões os cafés estão perdendo pontos em relação aos últimos anos. Em outras a bebida continua boa, mas os lotes excepcionais estão mais raros. Também aparecem com frequência relatos de peneiras menores, desuniformes, pior rendimento no benefício e aumento da proporção de café de chão.

Na Zona da Mata a avaliação é que a região vinha de alguns anos especialmente bons e que em 2026 está retornando um pouco ao seu padrão histórico. Há cafés finos mas o volume parece menor. No Sul de Minas os relatos são mais contundentes: aspecto bastante irregular, embora grande parte dos cafés continue bebendo duro. Na Alta Mogiana onde acompanho o mercado diariamente o problema visual está muito evidente, inclusive em cafés colhidos diretamente da árvore. Já no Cerrado as avaliações são mais favoráveis embora também existam relatos de irregularidade.

No Cerrado, um dos relatos mais relevantes veio de um grande produtor. Até agora os cafés naturais estão chegando com aspecto normal e os grãos começaram a aparecer mais graúdos. A exceção são os lotes de cereja descascado, segundo ele o CD desta safra veio visualmente muito feio, possivelmente pela combinação da chuva no início da colheita com o calor que veio depois. Até o momento ele ainda não encontrou um lote de CD realmente excepcional. Ao mesmo tempo faz uma ressalva importante: o café mais tardio, aquele que pode chegar com o chamado “chuvado de árvore” praticamente ainda não apareceu.

Existem exceções importantes, na Chapada Diamantina por exemplo, ouvi uma avaliação completamente diferente: uma das melhores safras dos últimos dez anos, com frutos saudáveis, boa retenção dos frutos na árvore, pouquíssimo café no chão, peneiras altas e até agora excelente qualidade.

Isso mostra por que seria um erro tentar definir a qualidade brasileira somente por onde você anda.

Não existe uma safra brasileira e sim muitas safras dentro da mesma safra.

Mesmo assim quando profissionais de regiões, empresas e posições diferentes começam a descrever o mesmo fenômeno, é preciso prestar atenção. E o fenômeno mais repetido foi este:

O café está mais feio do que ruim.

Mas por quê?

Uma das explicações mais completas veio de um agrônomo extremamente experiente, o renomado Régis Rico, que acompanha dezenas de milhares de hectares de café e observa esses processos há muitos anos. Segundo ele, é fundamental distinguir o estágio em que o fruto se encontrava quando recebeu a chuva.

O fruto do café é higroscópico em todos os estágios, inclusive quando está cereja. Isso significa que ele troca umidade com o ambiente durante todo o processo de maturação e secagem. O que muda entre o cereja, o passa e o seco não é a existência dessa característica, mas a condição inicial de umidade do fruto, a integridade de seus tecidos e a intensidade do reumedecimento provocado pela chuva.

No estágio cereja, o fruto ainda possui elevado teor de água e seus tecidos externos tendem a estar mais íntegros. Ele também pode absorver umidade, mas parte de uma condição muito mais úmida e por isso a chuva não costuma provocar o mesmo reumedecimento proporcional em um fruto que já perdeu grande parte de sua água. Frutos cereja rachados ou lesionados evidentemente ficam mais expostos à entrada de água e à colonização por fungos deletérios, entre eles espécies dos gêneros Aspergillus, Fusarium e Penicillium.

Além disso segundo a Régis e sua experiência de campo, a chuva durante a colheita pode interferir no processo fisiológico da planta, acelerar a maturação e fazer com que o cereja avance mais rapidamente para passa e seco. O problema pode não aparecer imediatamente enquanto o fruto ainda está cereja, mas se tornar relevante depois que ele seca na planta e volta a receber chuva.

À medida que o café passa de cereja para passa e depois para seco seu teor de água diminui. Quando esse fruto seco recebe chuva ocorre um reumedecimento proporcionalmente muito mais intenso. Ele absorve novamente água do ambiente e pode apresentar alteração de aspecto e cria condições mais favoráveis à colonização por microrganismos capazes de depreciar a bebida, especialmente em regiões mais quentes e de menor altitude.

Ainda segundo Régis essa é também uma das explicações históricas para o desenvolvimento do processo de café cereja descascado. A intenção original não teria sido apenas economizar terreiro ou espaço em tulha, mas separar os frutos cereja dos cafés secos que, depois de reumedecidos pela chuva, poderiam estar colonizados por microrganismos capazes de provocar bebida riada.

O ponto mais interessante está no aspecto.

A experiência prática indica que quando um café seco recebe chuva e permanece alguns dias na planta até voltar a secar completamente, aquele aspecto de café chuvado tende a diminuir, o problema é que o produtor nem sempre pode esperar.

A colheita está atrasada, há escassez de mão de obra, o produtor precisa liberar a lavoura para a varrição, iniciar as podas, aplicar corretivos, preparar os tratos da próxima florada e utilizar o mesmo conjunto de máquinas em diferentes áreas. A chuva termina hoje e muitas vezes a colheita recomeça amanhã ou depois de amanhã.

O café pode então chegar ao terreiro ou ao secador com uma condição de umidade muito diferente daquela em um ano normal mesmo sem ter recebido chuva depois de ser colhido.

Isso ajuda a explicar por que tantos cafés estão apresentando aspecto de chuvado sem terem tomado chuva no terreiro, o problema pode ter começado ainda na planta.

Há ainda outros fatores atuando simultaneamente.

As múltiplas floradas reduziram a uniformidade da maturação, em uma mesma planta há frutos verdes, cerejas, passas e secos. Alguns produtores anteciparam a colheita para aproveitar os preços elevados e outros precisaram avançar rapidamente por falta de mão de obra ou por receio de perder mais café no chão. Em determinadas regiões houve muito café colhido com umidade interna elevada.

Também existe a hipótese de que parte dos produtores tenha utilizado os mesmos parâmetros de secagem adotados em anos mais secos, apesar de o fruto ter chegado com uma condição diferente de umidade. Isso poderia contribuir para manchas, alterações de coloração e defeitos visuais. É difícil atribuir o fenômeno a uma única causa, porque chuva, estágio de maturação, velocidade de colheita, secagem e manejo pós-colheita estão interligados.

Provavelmente não existe um único fator, mas sim uma combinação de fatores.

Do ponto de vista comercial pouco importa se o café bebe melhor do que aparenta, o aspecto também faz parte da qualidade exigida pelos compradores.

*Gráfico diferenciais:

O gráfico ajuda a traduzir essa discussão em preço, o contrato na bolsa é apenas a referência, o valor efetivamente pago pelo café físico é formado pelo preço da bolsa acrescido ou descontado de um diferencial combinado, e é justamente nesse diferencial que o mercado precifica bebida, peneira, aspecto, quantidade de defeitos, preparação, disponibilidade e demanda por cada qualidade.

A diferença nos diferenciais mostra que duas sacas produzidas na mesma safra e expostas ao mesmo movimento da bolsa podem ter valores muito diferentes, dependendo daquilo que existe dentro delas. Portanto uma alta da Bolsa não significa necessariamente que todas as qualidades tenham se valorizado na mesma proporção.

Em uma safra como essa com aspecto mais irregular, essa discussão ganha ainda mais importância. Um café pode continuar bebendo bem, mas perder valor relativo se não conseguir atender às especificações visuais de um Fine Cup, pode ser comercialmente reclassificado como Good Cup, exigir mais trabalho na preparação, apresentar maior quebra e terminar negociado com um diferencial inferior, que é exatamente o que temos visto.

A perda de qualidade não aparece apenas na mesa de classificação, ela aparece em diferencial na formação do preço da Bica Corrida.

Um profissional que trabalha em uma das maiores tradings do mundo resumiu bem o problema. Os clientes que compram cafés finos não querem apenas uma boa bebida, querem também cafés lindos de aspecto. Querem peneira 17/18 com poucos defeitos, 15/16 bem preparado, MTGB limpo e lotes visualmente homogêneos. Alguns mercados asiáticos são especialmente rigorosos com coloração e defeitos físicos.

Quando o café chega irregular a exportadora precisa trabalhar mais intensamente nas máquinas de rebenefício, seleção eletrônica e catação. Para retirar os defeitos e uniformizar o lote, e acaba removendo também uma quantidade maior de grãos aproveitáveis.

O café pode beber bem, mas quebrar muito na preparação. Quem lida com isso todo dia sabe bem como é difícil as vezes deixar um café no tipo combinado.

Portanto o problema não termina só na aparência, ele se transforma em perda de rendimento, menor disponibilidade de café exportável, custo de preparo mais alto e dificuldade para montar lotes dentro das especificações dos clientes.

Esse talvez seja um dos impactos mais subestimados desta safra, e o exportador está precificando isso tudo em risco, em diferencial.

Uma coisa é existir café que bebe fino, outra é conseguir transformar esse café em um lote comercial de Fine Cup com peneira, aspecto, número de defeitos e uniformidade exigidos pelo comprador.

Por isso não acredito que a discussão seja simplesmente sobre haver ou não café fino, é óbvio que café fino existe. Mas quanto dele está disponível e quanto custará encontrá-lo, rebeneficiar e formar lotes homogêneos.

Diversos compradores relataram que está chegando bastante volume de Good Cup, enquanto a oferta de Fine aparece mais curta. Parte disso pode ser física: realmente há menos lotes excepcionais e outra parte pode ser comercial: produtores que possuem cafés melhores talvez ainda não estejam dispostos a vendê-los.

Os primeiros embarques talvez sejam complicados, se o padrão visual desta safra estiver realmente mais irregular como estamos relatando, os primeiros exportadores a colocar esses cafés no exterior poderão enfrentar mais reclamações, rejeições ou discussões de qualidade. Depois de algum tempo os clientes podem se adaptar ao padrão da safra brasileira, mas alguém sempre será o primeiro a apresentar o problema ao mercado.

E também é cedo para decretar que toda a safra terá esse perfil, uma parte relevante dos profissionais com quem conversei ressalta que ainda foi visto apenas algo próximo de 30% do café da safra 26. Os lotes que chegarão nas próximas semanas podem alterar a percepção para melhor ou para pior. Além disso em algumas regiões o maior problema ainda pode estar por vir, quando aumentar o volume de cafés de chão e de frutos que permaneceram mais tempo expostos.

O Cerrado oferece talvez o melhor exemplo de porque essa cautela é necessária. Para uma safra esperada como recorde o movimento em meados de julho está estranhamente baixo. Chegam poucas amostras às cooperativas, aos corretores e aos compradores. Durante a alta que levou o café físico novamente à região de R$ 2.050 a R$ 2.080 por saca houve vendas importantes e bastante compra, inclusive de cafés finos. Depois que o mercado caiu novamente o fluxo praticamente parou. Penso eu que grande parte disso pode ser explicada pelo foco dos produtores em cumprir contratos futuros prometidos para agosto e setembro. Mas o dado impõe um cuidado adicional: o café que vimos até agora pode ser uma parcela muito seletiva da safra, concentrada nas entregas antecipadas e não um retrato fiel do volume e da qualidade que ainda estão por chegar.

No Conilon a história é diferente.

Há relatos importantes de quebra de produção no Espírito Santo, inclusive estimativas de redução de até 30% em algumas áreas. Parte dessa percepção decorre da comparação com a supersafra de 2025. Quando se compara uma safra normal ou menor com um ano excepcional, a diferença naturalmente parece maior e induz ao erro quantitativo.

Em qualidade a avaliação é positiva. Grandes negociantes e diversos produtores relatam cafés neutros, sem problemas relevantes de fermentação, com aproximadamente 80% a 90% de peneira 13 acima e 40% a 50% de peneira 16 acima. Os armazéns continuam abastecidos por estoques remanescentes e apesar da discussão sobre o tamanho da produção, não há neste momento a mesma preocupação qualitativa observada no Arábica.

É importante separar as duas espécies. No Conilon a discussão está muito mais concentrada na quantidade. No Arábica o debate envolve aspecto, uniformidade, rendimento e disponibilidade de cafés finos.

Depois de ouvir tantas pessoas seria fácil escolher apenas os relatos que confirmassem aquilo que eu já estava vendo na Alta Mogiana, mas isso produziria uma conclusão errada.

A safra de 2026 não é uniformemente ruim, há regiões com cafés muito bons e há café fino, há lotes que bebem melhor do que nos últimos anos e há também café feio que bebe surpreendentemente bem.

Seria igualmente errado ignorar a recorrência dos relatos de aspecto irregular, menor uniformidade e dificuldade para encontrar cafés finos em volume.

A melhor definição que encontrei é esta:

A safra brasileira de Arábica de 2026 não parece ser uma safra sem qualidade. É uma safra diferente, mais irregular, e ainda cedo demais para um veredito: o fluxo está apenas começando.

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