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Revista Attalea Agronegócios
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ARTIGOS Café

[Davi Moscardini] – Qual a importância dos fungos micorrízicos arbusculares para o cafeeiro?

DAVI MOSCARDINI
Eng. Agrônomo, Mestrando em Fitotecnia pela ESALQ/USP
davi.moscardini@usp.br

 

Os fungos micorrízicos arbusculares (FMA) são microrganismos chave que compõe grande parte da biomassa microbiana dos solos cultivados. Cerca de 80% das plantas se associam simbioticamente com estes fungos que são notadamente importantes agentes de melhora da qualidade do solo e do desempenho de culturas.

O cafeeiro é uma planta que se associa simbioticamente com mais de 70 espécies de FMA, identificadas em mudas e em plantas adultas no campo. Estes fungos colonizam as raízes do cafeeiro e se desenvolvem através da sacarose fornecida pela planta hospedeira. Essa associação é mutualística, ou seja, positiva para ambos indivíduos, pois traz diversos benefícios como:

  • Benefícios nutricionais

O fósforo se destaca dentre os nutrientes que tem sua absorção favorecida pela associação com FMA. Este nutriente está presente em quantidades muito baixas na solução do solo devido aos fenômenos de precipitação e fixação, muito comuns em solos muito intemperizados. As hifas dos FMA facilitam o acesso a este nutriente, pois exploram maior volume de solo e sítios de difícil acesso pelas raízes do cafeeiro.

Também existem relatos na literatura sobre o auxílio destes fungos na absorção de nitrogênio, cálcio, magnésio, potássio, enxofre, zinco, manganês, ferro e cobre. Portanto é de se esperar que cafeeiros com altos níveis de colonização micorrízica sejam mais tolerantes a eventuais indisponibilidades de nutrientes e menos dependentes da aplicação de insumos externos quando comparados a cafezais com baixa simbiose.

Figura 1 – Rizosfera sem micorrizas (esquerda) e rizosfera com micorrizas (direita).
  • Tolerância a nematoides e doenças

Indiretamente as micorrizas também aumentam a tolerância ao ataque de nematoides e doenças do cafeeiro, pela melhora no vigor das plantas associadas. Há relatos de diminuição de danos causados por Phoma (Phoma costarricensis), Ferrugem (Hemileia vastatrix), Cercosporiose (Cercospora coffeicola), Rhizoctonia solani, e Antracnose (Colletotrichum globosporioides). Estes microorganismos também aumentam a tolerância ao ataque de nematoides como Meloydogine exigua, Meloydogine incognita e Pratylenchus coffeae. O aumento da tolerância ao ataque de pragas e doenças é de grande relevância, pois estes organismos podem causar perdas significativas de produtividade.

  • Tolerância a estresses

  Os FMA são importantes agentes atenuantes de estresse. Estes microrganismos aumentam a resistência a seca, pois proporcionam maior absorção de água pelas plantas. A maior hidratação e condutância estomática de plantas em associação com micorrizas facilita a transpiração, principal mecanismo de resfriamento do limbo foliar. Portanto, hipoteticamente, cafezais com elevada simbiose suportam melhor possíveis veranicos e sofrem menos com as escaldaduras.

 Estes fungos também aumentam a tolerância a toxidade de metais como cobre, zinco e alumínio e diminuem os danos causados pela alta pressão osmótica. Em cafezais irrigados não é raro ocorrer estresse salino devido a aplicação localizada de sais e água de baixa qualidade. A aplicação localizada de adubos nitrogenados amídicos e amoniacais nestes sistemas também é um grande problema, pois a acidificação excessiva do bulbo de molhamento eleva a solubilidade de micronutrientes metálicos à níveis tóxicos. Dessa forma as micorrizas podem ser importantes agentes de mitigação de estresses na cafeicultura irrigada.

  • Melhora da qualidade do solo

O extenso desenvolvimento das hifas extrarradiculares e a secreção de glomalina por estes fungos são importantes mecanismos de melhora de atributos físicos, químicos e biológicos do solo.

Os FMA melhoram a estrutura do solo através da união de partículas e formação de agregados. Isso acontece pelo efeito mecânico do crescimento das hifas extraradiculares e da secreção de glomalina. Esta glicoproteína exsudada pelos fungos possui propriedade de cola no solo e já existe correlação de seu conteúdo para estabilidade de agregados e matéria-orgânica.

O crescimento de hifas, a exsudação de glomalina e o aumento da produção de biomassa de plantas em associação com FMA, elevam o teor de carbono no solo, estimulando a atividade biológica, pois há mais alimento para os microrganismos. Solos biologicamente ativos são supressivos para doenças e nematoides e tem maior presença de processos como a fixação biológica de nitrogênio, solubilização de fosfatos, produção de hormônios vegetais e mineralização de nutrientes via degradação de resíduos e matéria-orgânica.

Figura 2 – Raiz colonizada por fungos arbusculares micorrízicos. Fonte: Denise Mescolotti.

Como estimular a colonização micorrízica no cafeeiro?

Apesar de vários trabalhos mostrarem bons resultados de inoculação no viveiro, esta ainda não é uma prática usual na produção de mudas de café. Ensaios com aplicação de inóculo em plantas adultas no campo apresentam resultados inconsistentes, pois a maioria dos solos cultivados com café apresentam naturalmente quantidades suficientes de inóculo de fungos micorrízicos arbusculares. A melhor alternativa para beneficiar esta parceria é a adoção de práticas conservacionistas que estimulam a atividade microbiológica e a população endêmica de FMA.

Deve-se evitar o revolvimento constante do solo através do uso de grades e trinchas. Estes implementos destroem as conexões de hifas e expõe a superfície o solo a altas temperaturas, facilitando a degradação de matéria-orgânica estabilizada. O uso excessivo de herbicidas e fungicidas também impacta negativamente a população destes fungos.

Solos com alta atividade biológica são cultivados intensamente e produzem grande quantidade de biomassa por área. Portanto não é adequado subutilizar sua capacidade produtiva implantando lavouras com baixo estande e entrelinhas desvegetadas. A pesquisa confirma que cafezais adensados e consorciados com braquiária apresentam maior porcentagem de colonização micorrízica que cafezais convencionais.

Em outras culturas verificou-se que o uso de composto orgânico também é benéfico para o aumento da diversidade e colonização de FMA, assim como a realização de calagem. A acidez elevada tem ação fungistática sobre esporos de algumas espécies de FMA, portanto é necessário realizar a aplicação de corretivos com frequência anual, para evitar que as pesadas adubações nitrogenadas acidifiquem excessivamente os solos cultivados com café.

Conclusão

O crescimento da adoção de práticas conservacionistas favorece a atividade biológica e a presença de fungos micorrízicos nos cafezais. Isso torna o sistema de produção mais resiliente a possíveis intempéries e melhora a qualidade dos solos cultivados com café.

Felizmente uma parcela considerável de cafeicultores passa por uma transição de modelo que enxerga e dá a devida importância a complexidade do sistema de produção. O abandono da visão do solo como substrato inerte onde tudo pode ser resolvido com insumos agrícolas é um grande avanço em direção a produção sustentável, que seguramente será necessária para o acesso a mercados cada dia mais exigentes.

Referências 

ANDRADE, S.; MAZZAFERA, P.; SCHIAVINATO, M, SILVEIRA, A. Arbuscular mycorrhizal association in coffee. J Agric Sci 2009b:1-11.

COGO, F.D. et al. Arbuscular mycorrhiza in Coffea arabica L.: Review and meta-analysis. Coffee Science, Lavras, v.12, n.3, p.419-443, set, 2017.

LAMMEL, D. R. et al . Microbiological and faunal soil attributes of coffee cultivation under different management systems in Brazil. Braz. J. Biol., São Carlos, v. 75, n. 4, p. 894-905, nov.  2015.

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