Com margens mais apertadas, produtores adotam postura mais criteriosa na compra de máquinas e equipamentos.
Em fevereiro de 2026, a inadimplência no crédito rural entre pessoas físicas atingiu 7,4%, um dos maiores níveis já registrados na série histórica do Banco Central. Um ano antes, o índice era de 2,9%, evidenciando uma aceleração relevante das operações em atraso e um ambiente mais pressionado para o produtor.
A alta da inadimplência, somada ao custo mais elevado do crédito e à redução das margens, vem alterando a dinâmica de tomada de decisão no agronegócio e reposicionando o papel das feiras agropecuárias.
Segundo Victor Lemos Cardoso, head comercial da Agree, agfintech especializada na estruturação de crédito para o agronegócio, esse movimento reflete uma mudança no comportamento do produtor. “As feiras continuam sendo espaços importantes para inovação e negócios, mas hoje refletem um produtor mais cauteloso. Além de olhar para tecnologia, ele também avalia crédito, prazos e impacto no caixa antes de tomar qualquer decisão”, afirma.
Um exemplo desse movimento é a Tecnoshow Comigo 2026, realizada entre os dias 6 e 10 de abril, em Rio Verde (GO). O evento reuniu cerca de 120 mil visitantes, mais de 710 expositores e manteve sua relevância como um dos principais encontros do setor, com programação técnica e geração de aproximadamente R$ 90 milhões para a economia local.
Apesar disso, o mercado mais cauteloso também tem refletido no total de vendas desta edição. O volume de negócios foi cerca de 30% menor em relação à edição anterior, um movimento já observado no setor e associado ao cenário de custos elevados, crédito mais restrito e maior cautela por parte do produtor. Ainda assim, a feira manteve forte presença de público e participação de empresas, reforçando seu papel como termômetro do agronegócio brasileiro. A retração foi mais evidente na aquisição de bens de capital, como máquinas agrícolas, enquanto segmentos essenciais, como insumos, apresentaram desempenho mais estável.
Além de vitrines de tecnologia, os encontros do setor reúnem interesses que vão desde a busca por soluções digitais até a análise de tendências e o contato direto com fornecedores e instituições financeiras. Nesses espaços, os investimentos passam a ser avaliados com maior cautela, considerando condições de financiamento, perspectivas de mercado e capacidade de pagamento.
A leitura é de que o ambiente mais restritivo tem levado a uma postura mais criteriosa, especialmente em relação a investimentos de maior valor. “Com margens mais apertadas e, às vezes, até negativas, o produtor passa a rever prioridades. Investimentos de maior valor, como máquinas e tecnologias mais robustas, tendem a ser postergados, enquanto decisões ligadas à manutenção da operação ganham espaço. É um movimento muito mais de cautela do que de retração do interesse por inovação”, complementa.
A proximidade com instituições financeiras nesses eventos também amplia o acesso a informações e permite comparar taxas, prazos e estruturas de crédito, antecipando decisões que antes eram diluídas ao longo do ciclo produtivo.
“Não é mais uma decisão isolada de investimento. O agricultor precisa entender como cada aquisição se encaixa na sua estrutura financeira. As feiras ajudam a reunir essas informações em um único ambiente, o que facilita uma análise mais completa e menos reativa”, diz.
A dinâmica observada ao longo desses encontros indica ainda uma mudança na forma como o crédito é incorporado à gestão das propriedades. “Os produtores passam a integrar o financiamento ao planejamento da safra, considerando diferentes cenários e buscando maior previsibilidade”, finaliza Cardoso.
