ARTIGOSHISTÓRIAImigrantes Japoneses

A força do campo: Como o cooperativismo nikkei transformou a agricultura brasileira

Conheça a história da Cooperativa Central Agrícola Sul-Brasil e a importância dos nikkeis para o agro brasileiro

A mesa dos brasileiros guarda marcas profundas de um processo iniciado no início do século XX. O cultivo e a distribuição em grande escala de itens essenciais do cotidiano — como batata, tomate, frutas, flores e a própria avicultura industrial — devem grande parte do seu desenvolvimento ao trabalho dos imigrantes japoneses.

Por trás desse salto de produtividade esteve o modelo de cooperativismo agrícola nikkei, liderado por dois gigantes do setor: a Cooperativa Agrícola de Cotia (CAC) e a Cooperativa Agrícola Sul-Brasil.

O nascimento do movimento: Da batata ao império cooperativo

De acordo com a historiadora Célia Sakurai, “as famílias japonesas que vieram para o Brasil – depois de anos de contrato nas fazendas de café –, adquiriram pedaços pequenos de terra. E a sobrevivência dessas famílias dependia da produção vinda dessa terra. Formaram-se, assim, as colônias, as pequenas propriedades agrupadas em algumas localidades, porque os terrenos eram todos vizinhos. Essa vizinhança proporcionou a possibilidade de abrir escola, associação, etc. Portanto, a vida girava em torno dessas novas comunidades”.

Em geral, como essas colônias estavam localizadas em uma determinada região, produzia-se a mesma coisa. “É o caso do algodão e café, nas regiões de Bauru, Birigui e Ribeirão Preto, assim como pequenos produtores de chá na região de Registro.

O cultivo de batata começou em Cotia e outras áreas nos arredores de São Paulo (Créditos da foto original: Acervo do Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil – Créditos da foto colorizada: Carlos Arantes Corrêa)

“Já na região de Cotia, na Grande São Paulo, as famílias começaram a produzir batata. Eram pequenos produtores que depois começaram a se unir para vender em São Paulo. Cada família produzia na sua própria terra, porém a comercialização é que era difícil”, conta a historiadora.

Largo da Batata está ligado à história de Pinheiros, uma das regiões mais antigas de São Paulo. Pinheiros surgiu como uma área de importância histórica desde o período colonial. O bairro é frequentemente lembrado por suas raízes ligadas a antigos caminhos indígenas e ao trânsito de tropeiros, comerciantes e viajantes.

Com o avanço da cidade, o Largo se consolidou como uma espécie de entreposto. Ali circulavam produtos agrícolas, pequenos comerciantes, compradores e moradores. O espaço era mais simples, menos planejado e muito mais popular. A vida urbana acontecia no contato direto: barracas, carroças, bondes, mercados, vendedores e conversas de rua.

O nome Largo da Batata nasceu do uso cotidiano, antes de se transformar em identidade oficial. (Imagem de 1920). (Créditos da foto colorizada: Carlos Arantes Corrêa)

Na década de 1920, os produtores de batata na vila de Cotia, na periferia de São Paulo (SP), enfrentavam um problema recorrente: sem armazéns próprios para estocar a produção, ficavam à mercê da especulação e das pressões dos intermediários.

A reação começou a tomar forma na imprensa e na organização comunitária: A semente jornalística (1926): Saku Miura, proprietário do Diário Nippak, publicou em setembro de 1926 o artigo “Em louvor da batata”, defendendo a criação de um armazém comunitário e a união dos produtores. O movimento contou com o incentivo do Consulado Geral do Japão em São Paulo, que fomentava o modelo cooperativo nipônico. A liderança de Kenkichi Shimomoto (1927): Com 28 anos, Shimomoto retornou de sua viagem à província de Kōchi, no Japão, onde estudou de perto o funcionamento das cooperativas locais.

Em 11 de dezembro de 1927, fundou a Sociedade Cooperativa de Responsabilidade Limitada dos Produtores de Batata em Cotia S/A, contando inicialmente com 83 membros.

O nome Largo da Batata é usado desde a década de 1920, por concentrar vendedores de batatas, próximo à Cooperativa Agrícola de Cotia. (Créditos: Color PH)

Surgimento da Sul-Brasil (1929): Dois anos depois, fundou-se a Cooperativa Agrícola do Juqueri, que viria a ser o embrião da futura Cooperativa Central Agrícola Sul-Brasil.

Com a diversificação para hortaliças, a entidade de Cotia mudou seu nome para Cooperativa Agrícola de Cotia (CAC) e iniciou uma rápida expansão. Em 1937, dez anos após a fundação, já somava 1.303 cooperados, tornando-se a maior cooperativa agrícola do país.

(Créditos da foto colorizada: Carlos Arantes Corrêa)

A prova de fogo: O boicote dos intermediários (1934)

O crescimento da cooperativa incomodou os atravessadores da capital paulista. Em outubro de 1934, intermediários organizaram um boicote aos produtos do grupo. Em resposta, a CAC suspendeu o fornecimento de hortifrutigranjeiros para os mercados de São Paulo. Contando com o apoio de produtores não-filiados e do governo estadual, a cooperativa venceu o embate comercial. O episódio consolidou sua força de mercado e permitiu que, a partir de 1938, sua atuação se estendesse por todo o Estado de São Paulo, introduzindo também técnicas inovadoras de avicultura trazidas do Japão.

A Segunda Guerra Mundial e a superação

A eclosão da Guerra do Pacífico rompeu as relações diplomáticas entre Brasil e Japão, trazendo forte instabilidade. No entanto, por ser financiada inteiramente com capital nacional, a Cotia evitou o congelamento de bens.

Adequação legal e liderança nacional 1942

Para atender às exigências do governo brasileiro durante a guerra, a chefia da diretoria da CAC foi assumida pelo consultor jurídico Ferraz, brasileiro nato. A produção de alimentos seguiu em ritmo acelerado.

Crescimento no pós-guerra 1945-1952

Ao fim da guerra, o número de associados da Cotia saltou de 2 mil para 3 mil, ultrapassando 5 mil cooperados em 1952 e expandindo operações para estados vizinhos.

Reestruturação da Sul-Brasil 1946-1954

A Cooperativa do Juqueri passou a ser presidida por Angelo Zanini, com Gen’ichirō Nakazawa na superintendência. Focando na avicultura e produção de ovos, expandiu-se pelo interior e foi renomeada para Cooperativa Central Agrícola Sul-Brasil em 1954.

A visita do príncipe Mikasa à Cooperativa Agrícola de Cotia ocorreu no ano de 1958. A viagem fez parte das comemorações do cinquentenário da imigração japonesa no Brasil. (Créditos da foto colorizada: Carlos Arantes Corrêa)

Expansão nacional e a consolidação do Cerrado

Nas décadas de 1960 e 1970, ambas as cooperativas tornaram-se referências na difusão de flores, frutas, grãos e produtos avícolas. A Sul-Brasil fincou raízes em Paranavaí (PR), alcançando 10.704 cooperados em 1988, distribuídos em 40 sub-unidades. Por sua vez, a Cooperativa Agrícola de Cotia desempenhou um papel divisor de águas no abastecimento nacional a partir de 1973, quando enviou produtores para desbravar o Cerrado em Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso. O projeto transformou a savana tropical em um dos maiores polos de grãos do planeta. Em 1986, a Cotia atingia o auge de sua estrutura, reunindo 14.470 cooperados.

O fim das centrais e a continuidade regional

O final dos anos 1980 e início dos anos 1990 trouxe um cenário econômico adverso no Brasil, marcado por inflação galopante, crédito escasso e sucessivas crises no setor produtivo. Sem conseguir sustentar o volume de suas dívidas, a Cooperativa Agrícola Sul-Brasil encerrou suas atividades em 30 de março de 1994, e a Cooperativa Agrícola de Cotia fez o mesmo em 30 de setembro de 1994.

A força das cooperativas regionais e singulares Embora a liquidação das estruturas centrais tenha provocado um grande choque na comunidade nipo-brasileira, a história do cooperativismo agrícola não parou por ali.

A estrutura das gigantes desdobrava-se em cooperativas singulares e unidades regionais em importantes polos agrícolas — como Atibaia, Marília, Mogi das Cruzes, Adamantina, Paranavaí e o Cinturão Verde de São Paulo.

Preservação do know-how: Os produtores mantiveram a tradição associativa, reorganizando-se em novas cooperativas locais ou associações regionais de produtores de morango, flores, hortaliças e ovos.

Manutenção das cadeias produtivas: Estruturas físicas, granjas, galpões de beneficiamento e redes logísticas regionais foram absorvidas ou arrendadas por cooperativas singulares locais, garantindo que o abastecimento de hortifrutigranjeiros das grandes metrópoles não colapsasse.

Assim, o encerramento das cooperativas centrais não extinguiu a herança nikkei. A semente plantada em Cotia e no Juqueri decentralizou-se, deixando como legado uma rede de produtores locais que continuam alimentando o país e impulsionando o agronegócio regional.

FONTE = MUNDO NIPO, Descubra Nikkei, Histórias Japonesas no Brasil
(Créditos da fotos colorizadas: Carlos Arantes Corrêa))

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