Conheça a história da Cooperativa Central Agrícola Sul-Brasil e a importância dos nikkeis para o agro brasileiro
A mesa dos brasileiros guarda marcas profundas de um processo iniciado no início do século XX. O cultivo e a distribuição em grande escala de itens essenciais do cotidiano — como batata, tomate, frutas, flores e a própria avicultura industrial — devem grande parte do seu desenvolvimento ao trabalho dos imigrantes japoneses.
Por trás desse salto de produtividade esteve o modelo de cooperativismo agrícola nikkei, liderado por dois gigantes do setor: a Cooperativa Agrícola de Cotia (CAC) e a Cooperativa Agrícola Sul-Brasil.
O nascimento do movimento: Da batata ao império cooperativo
Na década de 1920, os produtores de batata na vila de Cotia, na periferia de São Paulo, enfrentavam um problema recorrente: sem armazéns próprios para estocar a produção, ficavam à mercê da especulação e das pressões dos intermediários. A reação começou a tomar forma na imprensa e na organização comunitária: A semente jornalística (1926): Saku Miura, proprietário do Diário Nippak, publicou em setembro de 1926 o artigo “Em louvor da batata”, defendendo a criação de um armazém comunitário e a união dos produtores. O movimento contou com o incentivo do Consulado Geral do Japão em São Paulo, que fomentava o modelo cooperativo nipônico. A liderança de Kenkichi Shimomoto (1927): Com 28 anos, Shimomoto retornou de sua viagem à província de Kōchi, no Japão, onde estudou de perto o funcionamento das cooperativas locais.
Em 11 de dezembro de 1927, fundou a Sociedade Cooperativa de Responsabilidade Limitada dos Produtores de Batata em Cotia S/A, contando inicialmente com 83 membros.
Surgimento da Sul-Brasil (1929): Dois anos depois, fundou-se a Cooperativa Agrícola do Juqueri, que viria a ser o embrião da futura Cooperativa Central Agrícola Sul-Brasil.
Com a diversificação para hortaliças, a entidade de Cotia mudou seu nome para Cooperativa Agrícola de Cotia (CAC) e iniciou uma rápida expansão. Em 1937, dez anos após a fundação, já somava 1.303 cooperados, tornando-se a maior cooperativa agrícola do país.
A prova de fogo: O boicote dos intermediários (1934)
O crescimento da cooperativa incomodou os atravessadores da capital paulista. Em outubro de 1934, intermediários organizaram um boicote aos produtos do grupo. Em resposta, a CAC suspendeu o fornecimento de hortifrutigranjeiros para os mercados de São Paulo. Contando com o apoio de produtores não-filiados e do governo estadual, a cooperativa venceu o embate comercial. O episódio consolidou sua força de mercado e permitiu que, a partir de 1938, sua atuação se estendesse por todo o Estado de São Paulo, introduzindo também técnicas inovadoras de avicultura trazidas do Japão.
A Segunda Guerra Mundial e a superação
A eclosão da Guerra do Pacífico rompeu as relações diplomáticas entre Brasil e Japão, trazendo forte instabilidade. No entanto, por ser financiada inteiramente com capital nacional, a Cotia evitou o congelamento de bens.
Adequação legal e liderança nacional 1942
Para atender às exigências do governo brasileiro durante a guerra, a chefia da diretoria da CAC foi assumida pelo consultor jurídico Ferraz, brasileiro nato. A produção de alimentos seguiu em ritmo acelerado.
Crescimento no pós-guerra 1945-1952
Ao fim da guerra, o número de associados da Cotia saltou de 2 mil para 3 mil, ultrapassando 5 mil cooperados em 1952 e expandindo operações para estados vizinhos.
Reestruturação da Sul-Brasil 1946-1954
A Cooperativa do Juqueri passou a ser presidida por Angelo Zanini, com Gen’ichirō Nakazawa na superintendência. Focando na avicultura e produção de ovos, expandiu-se pelo interior e foi renomeada para Cooperativa Central Agrícola Sul-Brasil em 1954.
Expansão nacional e a consolidação do Cerrado
Nas décadas de 1960 e 1970, ambas as cooperativas tornaram-se referências na difusão de flores, frutas, grãos e produtos avícolas. A Sul-Brasil fincou raízes em Paranavaí (PR), alcançando 10.704 cooperados em 1988, distribuídos em 40 sub-unidades. Por sua vez, a Cooperativa Agrícola de Cotia desempenhou um papel divisor de águas no abastecimento nacional a partir de 1973, quando enviou produtores para desbravar o Cerrado em Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso. O projeto transformou a savana tropical em um dos maiores polos de grãos do planeta. Em 1986, a Cotia atingia o auge de sua estrutura, reunindo 14.470 cooperados.
O fim das centrais e a continuidade regional
O final dos anos 1980 e início dos anos 1990 trouxe um cenário econômico adverso no Brasil, marcado por inflação galopante, crédito escasso e sucessivas crises no setor produtivo. Sem conseguir sustentar o volume de suas dívidas, a Cooperativa Agrícola Sul-Brasil encerrou suas atividades em 30 de março de 1994, e a Cooperativa Agrícola de Cotia fez o mesmo em 30 de setembro de 1994.
A força das cooperativas regionais e singulares Embora a liquidação das estruturas centrais tenha provocado um grande choque na comunidade nipo-brasileira, a história do cooperativismo agrícola não parou por ali.
A estrutura das gigantes desdobrava-se em cooperativas singulares e unidades regionais em importantes polos agrícolas — como Atibaia, Marília, Mogi das Cruzes, Adamantina, Paranavaí e o Cinturão Verde de São Paulo.
– Preservação do know-how: Os produtores mantiveram a tradição associativa, reorganizando-se em novas cooperativas locais ou associações regionais de produtores de morango, flores, hortaliças e ovos.
– Manutenção das cadeias produtivas: Estruturas físicas, granjas, galpões de beneficiamento e redes logísticas regionais foram absorvidas ou arrendadas por cooperativas singulares locais, garantindo que o abastecimento de hortifrutigranjeiros das grandes metrópoles não colapsasse.
Assim, o encerramento das cooperativas centrais não extinguiu a herança nikkei. A semente plantada em Cotia e no Juqueri decentralizou-se, deixando como legado uma rede de produtores locais que continuam alimentando o país e impulsionando o agronegócio regional.
Se você ou alguém de sua família teve contato com uma destas cooperativas, comente! Não podemos deixar esta memória dos desbravadores nikkeis desaparecerem.
FONTE = MUNDO NIPO
