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Revista Attalea Agronegócios
ARTIGOS Café

[Davi Moscardini] – Região da Alta Mogiana: Uma reflexão sobre 2021 e possíveis impactos do clima para 2022

DAVI MOSCARDINI
Engenheiro Agrônomo, Mestre em Fitotecnia – ESALQ/USP
E-mail: davimoscardini1@gmail.com

O gosto amargo da seca parece estar longe de acabar para o cafeicultor da Alta Mogiana. Os míseros 291 milímetros de precipitação acumulados no período de março a outubro de 2020 configuraram a pior seca já registrada nos últimos 57 anos na região [1]. Volume de chuvas inferior ao observado neste período ocorrera somente em 1963, ano de uma das piores secas da história brasileira.

A escassez de chuva impôs o impressionante déficit hídrico de 319 mm em pleno novembro de 2020 [2]. Cabe mencionar que uma região é considerada apta ao cultivo de café arábica quando apresenta déficit hídrico máximo de 150 mm. A estiagem prolongada foi finalizada com chuvas insipientes, capazes de promover a antese, mas não de repor de maneira suficiente a água do solo. O golpe final do clima sobre a produtividade foi dado com a ocorrência de temperaturas escaldantes, acima dos 30 °C, no momento crucial de abertura das flores.

O florescimento da safra 20/21 (Figura 1) ocorreu sob uma combinação catastrófica de elevada desfolha, temperatura e déficit hídrico. O resultado não poderia ser outro. O pegamento floral, muito aquém do esperado, resultou em plantas com poucos frutos por nó (Figura 2) especialmente nas lavouras de sequeiro implantadas sobre solos com baixo teor de argila. Segundo a CONAB estas adversidades podem resultar em quebra de safra de até 39% na produção brasileira de café arábica [3].

Figura 1. Chuvas foram insuficientes para abertura normal dos botões florais do cafeeiro. Este fenômeno é conhecido popularmente como “grãos de arroz”. O pegamento da florada é muito prejudicado nesta situação. (Créditos: Davi Moscardini)
Figura 2. Lavouras de café com poucos frutos por nó, resultado do baixo pegamento de florada. (Créditos: Davi Moscardini)

Como o café é uma planta perene este ano caótico infelizmente deixará suas marcas até a safra de 2022, especialmente na Alta Mogiana, local onde o sistema de condução do cafezal em safra zero é muito popular.

As últimas três safras brasileiras recorde ocorreram nos anos de 2016, 2018 e 2020, anos típicos de colheita de lavouras esqueletadas na região. Era de se esperar recorde também em 2022, dado o histórico crescente dos últimos anos. No entanto essa hipótese já está descartada pela vasta maioria dos produtores e técnicos. Uma rápida visita aos cafezais podados da região basta para ouvir um uníssono descontentamento com vegetação observada no campo. Não é incomum encontrar lavouras com perda de ramos produtivos e com número de internódios inferiores ao comumente observado neste mesmo período em outros anos.

Como de costume a resposta para o sucesso ou fracasso do empreendimento rural é geralmente encontrada no clima, especificamente na quantidade e distribuição de chuvas, haja vista que 95% da biomassa de frutos ou vegetação de um cafezal é produzida através da água. Sendo a água o fator preponderante para a produtividade é possível através do histórico de precipitação comparar os anos de luta aos anos de glória. Os dados obtidos do INMET para o munícipio de Franca (SP) revelam uma diminuição drástica na precipitação do ano safra 2020/2021 (Gráfico 1).

Para a elaboração deste gráfico foram somadas as chuvas do período de agosto a fevereiro dos anos de baixa produção (14/15, 16/17, 18/19). A vegetação produzida nestes anos deram origem às 3 maiores produções e produtividades já observadas na história de produção de café no Brasil (2016, 2018, 2020). No período de agosto a fevereiro de 20/21 a precipitação foi: 21% inferior a 14/15, 33% inferior a 16/17 e 43% inferior a 18/19. Outros dados chamam a atenção: Janeiro de 2021 e Novembro de 2020 foram respectivamente o primeiro mais seco e o segundo   mais seco dos últimos 59 anos. Franca ainda persiste em condição de déficit hídrico em pleno Fevereiro de 2021 [2], o que a caracteriza como a pior região cafeeira em termos de disponibilidade hídrica até o momento.

Gráfico 1. Acumulado de precipitação agosto a fevereiro Franca – SP.
Tabela 1. Histórico mensal de precipitação Franca-SP [1]. (Créditos: Davi Moscardini).

A baixíssima pluviosidade de 20/21 justifica a vegetação abaixo do normal e indica uma quebra significativa para as lavouras esqueletadas em 2022. Março é o último mês de crescimento vegetativo expressivo, dada a temperatura ainda ideal ao metabolismo do cafeeiro. Mesmo que este mês seja excepcional em termos de chuva, isto não compensará a baixa vegetação dos meses anteriores, uma vez que o cafeeiro produz uma folha a cada 20 dias em condições ideais. Um abril chuvoso pouco impacta em termos de vegetação, pois o fotoperíodo mais curto e as baixas temperaturas restringirão drasticamente o lançamento de novas folhas. Um outono chuvoso seria em contrapartida muito positivo para a indução e diferenciação das gemas reprodutivas do cafeeiro, processos geralmente esquecidos, mas que também impactam drasticamente sobre o número de frutos por nó quando ocorrem sob condição de estresse hídrico.  

A grande incógnita fica para o as lavouras jovens que perderam boa parte de sua produção em 2021. A menor produção este ano propiciou vegetação expressiva para a safra de 2022, mesmo com as chuvas escassas? O parque cafeeiro jovem é capaz de suprir o déficit de produção que ocorrerá nas lavouras esqueletadas? Estas são as perguntas de um milhão de dólares.

REFERÊNCIAS

[1] Banco de Dados Meteorológicos do INMET. Estação 83630. Franca-SP. Disponível em: https://bdmep.inmet.gov.br/.

[2] Fundação Procafé. Boletim de avisos fitossanitários Alta Mogiana nº 71 e 74. Disponível em: https://www.fundacaoprocafe.com.br/estacao-de-avisos-mogiana.

[3] CONAB. Acompanhamento da safra brasileira. Café. Safra 2021. 1º Levantamento. Disponível em: https://www.conab.gov.br/info-agro/safras/cafe/boletim-da-safra-de-cafe.

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