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[Matias Coffee Trading] – Inteligência de Mercado – “A previsão que queremos ouvir”

GUSTAVO MATIAS
MCT | Matias Coffee Trading

Semana: 08 a 12/06/2026
https://cafezalsuldeminas.com.br/
Instagram: @matiascoffeetrading

Contato: (16) 9.9291-2005

O café Arábica fechou a sexta-feira em 257,20 c/lb e o Robusta a 3.594 USD/Ton, preços giram por volta de R$ 1.450,00 no Arábica e R$ 915,00 no Conilon.

Mesmo com as altas que houve nas Bolsas o mercado não repassou o preço ao produtor, o diferencial continua alargando tanto no Arábica quanto no Conilon.

O índice CEPEA mostrou diferencial do Arábica cair de -36,2 para -45,7 essa semana, e o Conilon também, de -16,8 USD/Ton para -23 USD/Ton.

Isso na prática mostra que o mercado não está tão agressivo para ficar pagando a mais no café quando bolsa sobe, dentro de poucos dias começa um fluxo intenso de venda de café no Brasil.

Nessa semana estive numa cidade pequena no sul de minas, bati papo com a cooperativa, viveirista e produtores, grande parte dos produtores pequenos guardaram por volta de 20% de produção na roça mesmo, na tulha, esperando preços melhores no início de 2026 mas Bolsa só caiu esse ano, então resolveram guardar o café torcendo por uma recuperação. Afirmaram estarem capitalizados com a boa média de venda da safra 25 e sem necessidade imediata de vender café.

Os diferenciais no Arábica no FOB deram uma mexida, graúdo 17/18 estão sendo precificados entre +15 e +22, enquanto miúdos 14/16 trabalham entre -9 a -3.

Alguns vencimentos de 2027 passaram a negociar ligeiramente acima dos vencimentos anteriores, sexta-feira 12 mesmo Maio/27 fechou em 244,15 e Julho/27 em 244,60 c/lb. Seria um sinal da volta do Contango.

*Contango é quando vencimentos mais longos negociam acima dos vencimentos mais próximos.

Esse pode ser um sinal de que o mercado não está comprando totalmente algum tipo de problema para 2027.

O dólar sofreu uma forte queda nessa semana, as diminuições das tensões geopolíticas no Oriente Médio, e à inflação brasileira acima do esperado, voltou a atrair capital estrangeiro. Fechou em R$ 5,06.

O relatório COT mostrou os fundos aumentando a posição vendida novamente e diminuindo posição comprada, pela quarta semana seguida. O movimento chama atenção por não representar apenas realização de lucros mas também abertura de novas posições short (vendidas) indicando uma mudança mais significativa no posicionamento especulativo.

Outro ponto importante foi o aumento de 19.302 contratos no Open Interest (contratos em aberto), a combinação de queda dos preços com aumento do interesse em aberto normalmente sugere entrada de novos vendedores no mercado reforçando a pressão baixista observada nas últimas semanas.

Nessa semana expiraram as opções na sexta-feira 12, e dia 22 de Junho será o vencimento do contrato de Julho (KCN6) e ainda temos por volta de 32 mil contratos em aberto que serão liquidados e devem trazer mais volatilidade nessa semana para o Arábica.

O CECAFE reportou que o Brasil exportou 3 milhões de sacas no mês de maio, um bom número considerando todas as variáveis.

Chuvas nas regiões cafeeiras atrapalham o desenvolvimento da colheita e podem prejudicar em partes a qualidade do café.

Semana passada a USDA publicou uma previsão de safra de 71,9 milhões de sacas e imediatamente surgiram críticas pois isso coloca em xeque grande parte das posições compradas, indicando um superávit de oferta.

Em paralelo, modelos climáticos passaram a indicar a possibilidade de formação de um El Niño no segundo semestre de 2026, e curiosamente a reação foi bem diferente, isso nos leva a umas perguntas interessantes:

Por que o mercado rejeita uma previsão e abraça a outra? Por que USDA não sabe nada e NOAA sabe tudo?

A resposta talvez seja mais simples do que parece.

A previsão da USDA aponta para uma safra grande, safra grande significa mais oferta e mais oferta significa menor percepção de risco e potencial pressão sobre os preços do café.

Já a NOAA aponta para um possível risco climático, e risco climático significa incerteza e incerteza significa a possibilidade de preços mais altos.

Uma previsão ameaça a posição comprada e a outra alimenta a esperança de de quem está comprado.

Será que talvez não estejamos analisando previsões, mas estejamos escolhendo em quais previsões queremos acreditar.

Ambas trabalham exatamente da mesma forma: são estimativas sobre o futuro.

A USDA não está medindo a safra final de 26/27, ela está estimando.

A NOAA não está descrevendo o clima que ocorrerá, ela também está estimando.

As duas utilizam modelos, estatísticas, séries históricas e probabilidades, mas o mercado parece exigir um nível de prova muito diferente para cada uma.

Quando a USDA publica um número elevado, muitos exigem confirmação em campo, questionam a metodologia e apontam possíveis erros, todos viram especialistas em apontar erros.

Quando surge a possibilidade de El Niño, frequentemente a discussão já avança diretamente para quebra de safra, aperto de oferta e explosão dos preços, quase que como garantido e vários passos intermediários acabam sendo ignorados.

É importante lembrar que risco climático e desastre climático não são a mesma coisa, porque a existência de um El Niño não garante quebra de safra, da mesma forma que uma safra grande não garante preços baixos.

O mercado é muito mais complexo do que uma única variável.

O que esteja acontecendo hoje talvez seja apenas um reflexo natural da posição em que muitos participantes se encontram, já escrevemos sobre isso: o produtor brasileiro nasce comprado, ele produz café e seu poder financeiro está diretamente ligado ao preço da saca. É natural que procure informações que sustentem sua convicção e questione informações que a desafiem.

A principal reflexão para este momento, uma previsão de safra não deveria ser ignorada apenas porque é notícia baixista. E uma previsão climática não deveria ser tratada como certeza apenas porque é notícia altista.

As duas podem estar certas e as duas podem estar erradas, mas ambas merecem o mesmo grau de ceticismo.

A pergunta não é se a USDA estará certa ou se a NOAA estará certa.

A pergunta é: estamos analisando os fatos (que nem ocorreram ainda) ou apenas procurando a previsão que queremos ouvir?

Boa semana,

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