GUSTAVO MATIAS
MCT | Matias Coffee Trading
Semana: 06 a 10/07/2026
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Mais uma semana turbulenta no mercado de café. Logo na segunda-feira o contrato de setembro subiu impressionantes 4.875 pontos, fechando o dia com valorização de 16,19%. Mesmo para os padrões atuais de altíssima volatilidade, imagino que nem o mais otimista do mercado esperava um movimento dessa amplitude.
O Arábica havia fechado a semana anterior a 301,20 c/lb e encerrou esta sexta-feira a 334,25 c/lb, uma alta de quase 11%, depois de atingir a máxima de 357,00 cents na segunda-feira. No mercado físico entretanto a valorização foi mais tímida próxima de 5%.
Esse comportamento conversa com o estudo que publiquei em 31 de maio, no texto “O número invisível”, no qual encontrei uma sensibilidade próxima de 50% nas altas. Nesta semana novamente parte da valorização da bolsa foi absorvida pelo diferencial e também pela queda do dólar fazendo com que o preço físico subisse aproximadamente metade do movimento de Nova York.
Vimos algumas raras exceções de negócios próximos de R$ 2.000,00 por saca, principalmente em cafés certificados, com pouquíssima catação e boas peneiras. Foi privilégio de poucos num momento em que grande parte dos cafés disponíveis apresenta muita catação e mais miúdos. Mesmo assim a alta foi suficiente para movimentar o mercado físico, gerar um volume expressivo de negócios e trazer o produtor de volta à mesa. Foram reportados aumentos relevantes nas negociações em diversas regiões, não apenas no café físico, mas também em contratos futuros para entregas em 2026 ainda e 2027.
Na prática os preços negociados ficaram próximos das referências do CEPEA, considerando o Brasil como um todo: R$ 1.722,48 por saca para o Arábica tipo 6 e R$ 1.087,74 para o Conilon tipo 6, peneira 13 acima, com até 86 defeitos.
No Robusta o movimento também foi intenso, embora bem mais tímido que no Arábica. O contrato fechou a sexta-feira anterior a USD 3.716 por tonelada e encerrou esta semana a USD 3.852, alta de aproximadamente 3,6%, muito próximo do nível em que havia começado a semana.
No físico, o indicador CEPEA para Conilon tipo 6, peneira 13 acima, saiu de R$ 1.070,57 para R$ 1.087,74, valorização de aproximadamente 1,6%.
O dólar começou a semana próximo de R$ 5,16, chegou a testar R$ 5,18 e encerrou a sexta-feira perto de R$ 5,11, acumulando queda de aproximadamente 1,1%. O movimento acompanhou o enfraquecimento da moeda americana no exterior e ganhou força no fim da semana com o IPCA de junho abaixo das expectativas, melhorando o humor com os ativos brasileiros, apesar de também abrir espaço para novos cortes na Selic. Para o café a valorização do real retirou parte do efeito positivo da alta da bolsa sobre o preço da saca em reais.
O COT trouxe informações importantes, como houve atraso na publicação, tivemos acesso nesta semana aos dados de dois períodos permitindo observar melhor o movimento dos fundos.
Somando as duas semanas a categoria Managed Money reduziu 10.397 contratos das posições short e adicionou apenas 1.113 contratos às posições long. Houve também aumento de 3.315 contratos na categoria spreading, que reúne posições simultaneamente compradas e vendidas, frequentemente associadas a operações entre diferentes vencimentos.
Os números mostram que não houve uma construção expressiva de uma nova posição comprada, o principal movimento foi a desmontagem de posições vendidas.
O Open Interest (contratos em aberto na bolsa) dos futuros conta a mesma história. Entre os dias 30 de junho e 9 de julho, o número total de contratos em aberto caiu de 183.728 para 172.556, redução de 11.172 contratos.
Preço subindo com Open Interest caindo é uma configuração fortemente compatível com short covering (short covering = recompra de posições vendidas para encerrá-las, gerando ordens de compra que podem acelerar a alta), especialmente quando o próprio COT mostra uma redução tão relevante das posições vendidas.
É natural uma tendência de procurar um fundamento para cada movimento da bolsa. Quando o mercado cai, a explicação normalmente é a safra grande. Quando sobe, aparecem rapidamente o El Niño, o atraso da colheita, o café no chão e a possibilidade de a produção brasileira não ser tão grande quanto se imaginava. Esses fatores existem e precisam ser acompanhados, mas nem sempre o preço está reagindo a uma mudança nos fundamentos. Às vezes o maior comprador de um mercado em alta é justamente quem estava vendido e foi provavelmente o que aconteceu nos últimos dias.
Segundo informações de participantes do mercado, alguns grandes fundos recompraram aproximadamente 18 mil contratos vendidos depois do grande rebalanceamento da semana anterior. Esse número representa uma estimativa de fluxo bruto observada pelas mesas, enquanto o COT mostra a variação líquida entre duas semanas. Os números não são diretamente comparáveis, mas apontam para a mesma direção, uma forte redução da posição vendida.
Essa recompra não significa necessariamente que os fundos ficaram otimistas com o café ou decidiram construir uma grande posição comprada, significa apenas que resolveram sair de uma posição que estava caminhando contra eles e liquidar parte relevante do risco, e por decisão voluntária segundo informações.
Mas a recompra inicial foi apenas o primeiro dominó.
Quando grandes fundos começaram a recomprar posições vendidas o preço subiu rapidamente. A alta acionou stops de outros operadores vendidos, e cada stop significou uma nova ordem de compra.
O rompimento de níveis importantes nos gráficos acionou gatilhos dos fundos CTA’s, que operam modelos quantitativos baseados em tendência, momento, volatilidade, médias móveis e outros sinais técnicos. Estimativas intradiárias de sistemas chegaram a indicar ordens compradoras dos CTA’s equivalentes a mais de 25 mil contratos acionadas por modelos sistemáticos em um único dia. Isso não significa que todo esse volume tenha permanecido como uma nova posição long até o fechamento, mas mostra a intensidade do fluxo gerado naquele momento.
Para esses modelos pouco importa se está chovendo em Varginha, se há café no chão em Franca ou se tem café sobrando no Espirito Santo, se o sinal mandar comprar eles simplesmente compram.
Ok, isso não significa que todos os CTA’s sejam day traders, muitos carregam posições durante dias, semanas ou até meses. A diferença é que a decisão normalmente vem do comportamento do preço e dos modelos, e não de uma análise tradicional de oferta e demanda como a maioria acha.
Com a alta acelerando outros operadores vendidos foram obrigados a recomprar. Alguns atingiram limites de risco, outros receberam chamadas de margem (o que foi um grande problema para operadores, saltou de aproximadamente 7.000 USD para 21.000 USD a garantia de cada contrato) e houve relatos de posições liquidadas compulsoriamente (stopados), algo natural diante de uma alta tão expressiva em apenas um pregão.
Nas Opções, participantes vendidos em Calls ou com exposição negativa de Gamma também podem ter precisado comprar futuros para ajustar seus hedges à medida que o mercado subia e o delta das posições mudava.
Mais compras provocaram mais alta, mais alta acionou mais stops, mais stops acionaram novos modelos, e novos modelos geraram novas compras, gerando ainda mais alta e mais volatilidade ainda.
O mercado entrou em um verdadeiro efeito dominó.
E a sequência da semana ajuda a demonstrar essa dinâmica, depois da alta de 16,19% na segunda-feira, o mercado caiu 9,24% na terça e mais 2,46% na quarta. Na quinta-feira voltou a subir 12,30% e, na sexta, recuou novamente 3,92%. Em apenas cinco pregões, o mercado oscilou quase 5.700 pontos entre a mínima e a máxima. Encontre fundamento para isso e crie sua própria narrativa.
A velocidade dessas reversões reforça a percepção de que o fluxo teve papel dominante, os mesmos CTA’s que compram quando determinados sinais aparecem podem reduzir ou inverter posições quando o mercado perde o sinal. Os mesmos algoritmos que ampliam uma alta também podem ampliar uma queda.
Um mercado que sobe 16% em um dia, cai 9% no outro, volta a subir 12% e depois recua quase 4% não está necessariamente confirmando uma nova tendência fundamental, só está mostrando uma disputa muito agressiva de fluxo, risco, alavancagem e posicionamento.
Muita gente atribuiu imediatamente a alta ao possível El Niño e à percepção de que a safra brasileira talvez não seja tão grande quanto o mercado esperava, e pode ser que esses fundamentos mudem no futuro.
Se o El Niño realmente se confirmar, se houver uma florada fora de época, novos problemas climáticos ou uma redução importante na produção, o mercado naturalmente fará uma nova leitura e haverá novos movimentos com fundamentos.
Mas até o momento não apareceu nenhum fato objetivo novo capaz de transformar uma projeção de superávit global próxima de 10 milhões de sacas para o ciclo 26/27 em um cenário de déficit ou escassez estrutural, me perdoem os mais pessimistas com o tamanho da safra brasileira.
Nada mudou por enquanto, o atraso da colheita continua, os estoques globais permanecem apertados, os spreads ainda mostram tensão no curto prazo e o produtor continua firme, vendendo mas vendendo pouco.
Tudo isso ajuda a criar um terreno fértil para movimentos de alta, mas na minha opinião os fundamentos continuam mais baixistas do que altistas para o médio prazo, e o que mudou com grande velocidade foi o posicionamento financeiro.
O fluxo pode dominar o preço durante dias ou semanas, mas o short covering possui um limite, em algum momento acabam os vendidos que ainda precisam recomprar. A partir daí para o mercado continuar subindo será necessária a entrada de novos compradores, uma construção efetiva de posições long ou uma mudança mais concreta nos fundamentos, estamos todos acompanhando.
Para o produtor brasileiro o movimento foi extremamente positivo, quem ainda tinha café sem trava recebeu uma oportunidade inesperada de melhorar preços em plena colheita. Quem aproveitou parte da alta para vender, fixar ou proteger margens fez uma boa gestão do risco.
Se o mercado continuar subindo, ótimo. O produtor ganha mais, os diferenciais ficam mais confortáveis para quem vendeu em diferencial, e exportadoras e cooperativas conseguem trabalhar melhor suas posições.
Movimentos provocados por fluxo podem durar muito mais do que imaginamos, mas também podem desaparecer rapidamente, o mesmo mercado que acionou compras voluntárias ou compulsórias pode acionar vendas voluntárias ou compulsórias alguns pregões depois.
O objetivo não deve ser acertar o topo do preço ou prever o preço da saca daqui a seis meses. O mais importante é utilizar os bons momentos para proteger margens, fazer vendas parciais e construir estruturas que permitam participar de novas altas sem ficar completamente exposto a uma eventual reversão no preço.
O fundamento explica por que o mercado pode se mover, o posicionamento explica quem precisa negociar, e o fluxo explica a velocidade.
Nesta semana o primeiro dominó parece ter sido a recompra dos vendidos.
Qual será o próximo movimento? O gráfico não mostra.
Boa semana,
