Café

[Celso Vegro] – “Impacto da rolagem dos contratos na formação dos preços”

CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO
Engenheiro Agrônomo e pesquisador do Instituto de Economia Agrícola (IEA)
Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo (SAA/SP – APTA/SP)

celvegro@sp.gov.br 

As geadas seguidas pela estiagem ocorridas na safra 2021/22, as cotações do arábica exibiam substancial escalada, tendo sido realizados negócios acima de R$1.600,00/sc (fine cup). A média de preços mensais recebidos pelos cafeicultores em São Paulo, para o arábica tipo 6 bebida dura (padrão para mercado interno), levantados pelo Instituto de Economia Agrícola (IEA) em parceria com a Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (CATI), mostrou que em fev./22 o preço médio recebido alcançou R$1.487,00/sc, caindo abaixo dos R$1.000,00/sc um ano mais tarde (Figura 1).

FIGURA 1 – Preços médios mensais recebidos pelos cafeicultores paulistas, Out-21 a Jan-23. (Fonte: Elaborado a partir de banco de dados do IEA, 2023)

No segundo semestre de 2020 e ao longo de 2021, estima-se que aproximadamente 30% da safra de arábica foi direcionada para entrega futura. Seguindo orientação recebida das cooperativas ou assessorados por corretores de bolsas de valores, os cafeicultores fixaram preços para entrega futura (maio ou set./22, por exemplo) em patamares ao redor dos R$600,00/sc a R$700,00/sc. Contudo, a escalada de preços observada a partir do quarto trimestre de 2021 com pico em fev./22 e diante da defasagem entre o preço fixado e o praticado no mercado spot, muitos cafeicultores pressionaram pela rolagem desses contratos. Os detentores dos contratos ante a possibilidade de não cumprimento dos contratos “aceitaram” a rolagem das entregas programadas. 

Os cafeicultores prudentes aproveitaram o momento favorável e comercializaram o produto em estoque que até então estava reservado para quitação dos contratos futuros. Em parte, essa rolagem permitiu uma relativa recapitalização do segmento o que, em parte, também beneficia o agente comercial (trader, cooperativa), pois um cafeicultor mais capitalizado tende a produzir mais e melhores negócios. 

Adotando por hipótese de que algo como 3,0 milhões de sacas1 deixaram de ser entregues em processo de rolagem dos contratos e, assumindo que os preços contratados se situavam em R$650,00/sc, tem-se por inferência que o montante dessa transação tenha alcançado R$1,95 bilhão!

Na época em que as empresas e cooperativas detentoras dos contratos anuíram com a rolagem (3T/21), os juros básicos da economia brasileira rondavam os 6,5% a 7,5% (Figura 2), ou seja, o custo do financiamento necessário para implementar a decisão tinha por parâmetros esse patamar de juros básicos, acrescidos de spread bancário e outras taxas (registro cartorial e emolumentos). Por se tratar de pessoa jurídica, provavelmente o custo efetivo total (CET) dessas transações tenha alcançado em média cerca de 12%.

FIGURA 2 – Trajetória da SELIC, jan-21 a mar-23. (Fonte: Banco Central do Brasil, 2023 – 2)

Entretanto, após o incentivo a rolagem a autoridade monetária do país, visando conter o processo inflacionário imprimiram consecutivas elevações nas taxas de juros básicos da economia continuaram em alta, atingindo atualmente 13,75%. Nesse patamar o custo financeiro da operação de rolagem teve incremento significativo. Consultando a planilha de crédito para capital de giro de pessoa jurídica com prazo de até 365 dias, o Banco do Brasil posiciona-se com percentual CET de 22,75%3.

Considerando essa elevação recente da SELIC é possível mensurar a dimensão do custo financeiro da rolagem para as empresas que assim o fizeram. Estabelecendo que a obtenção do crédito ocorre mediante a contratação de taxa pós-fixada referenciada em juros flutuantes (face a tendência de alta dos juros básicos consolidada face a escalada inflacionária), o custo inicialmente previsto para as operações saltou de R$350,00 milhões para R$796,25 milhões, ou seja, incremento de 47% (Tabela 1). 

O significativo incremento das despesas financeiras das empresas e cooperativas que rolaram contratos ao longo do tempo será, ao seu devido tempo, devidamente quitado. Inexiste outra maneira de suportar tal custo a não ser pressionando os preços pagos aos cafeicultores para o produto oferecido no mercado físico. Enquanto esse processo não se encerrar, ou seja, todo café compromissado for enfim entregue (oriundo da safra a ser ainda colhida), haverá tendência baixista prevalecente no mercado.

Ainda que se alinhe com as cotações diárias da Bolsa de Nova York, a formação de preços, em reais, no mercado doméstico deve se manter pressionada. Tal premissa se intensifica com a perspectiva de que a safra cafeeira 2023/24 venha com enorme potencial produtivo.   

A rolagem dos contratos futuros foi uma política adotada em apoio a cafeicultura que permitiu aos cafeicultores redirecionar suas vendas, aproveitando-se do momento mais favorável do mercado. Entretanto, há um custo gerado por essa iniciativa que agrega mais um componente no funcionamento do mercado (custo financeiro da rolagem). 

1 Em evento fechado foi revelado que cooperativa de cafeicultores teria implementado a rolagem de 400 mil sacas, sendo que na perspectiva do informante esse volume era ainda maior entre as traders. 

2 Disponível em: https://www3.bcb.gov.br/sgspub/consultarvalores/consultarValoresSeries.do?method=visualizarGrafico 

3 Taxa contabilizada para fev./23. Disponível em:

https://www.bcb.gov.br/estatisticas/reporttxjuros/?parametros=tipopessoa:2;modalidade:210;encargo:204

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