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[Tatiane Duarte Magalhães] – “O potencial da cafeicultura nacional no mercado de crédito de carbono”

TATIANE DUARTE MAGALHÃES
Graduada em Química Industrial. Pós-graduada em Administração Financeira.
MBA Gestão do Agronegócio. MBA ESG

A cafeicultura brasileira, notoriamente um dos pilares da economia agroindustrial do país, abre caminho para uma faceta ainda subutilizada: a participação ativa no mercado de créditos de carbono. Enquanto maior produtor mundial de café, o Brasil dispõe de uma oportunidade singular para encabeçar uma revolução progressista na área, conjugando aspectos de sustentabilidade e mitigação das alterações climáticas.

A transição para práticas agronômicas sustentáveis na produção de café representa uma estratégia valiosa no sequestro de quantidades consideráveis de dióxido de carbono (CO2), um dos principais contribuintes do efeito estufa. A mitigação de tal gás é fundamental para contrapor o aquecimento global, instigando, portanto, a busca mundial por sistemas produtivos de baixo carbono (LOPES et al., 2014).

Para Carvalho (2014), diante desse cenário, o mercado de créditos de carbono emerge como uma iniciativa econômica inovadora no combate às mudanças climáticas. Este mecanismo viabiliza a compensação de emissões de gases de efeito estufa por meio da aquisição de créditos provenientes de reduções de emissões promovidas em outros setores ou países. A cafeicultura se destaca nessa conjuntura, dada a sua capacidade de contribuir significativamente para a redução do carbono. Quando conduzida sob premissas de sustentabilidade, a produção de café promove a preservação do solo, da água e da biodiversidade, contribuindo de maneira efetiva para o sequestro de carbono e a minimização das emissões de gases do efeito estufa.

Por meio da implementação de sistemas agroflorestais, que combinam a produção de café com o plantio de árvores, pode-se incrementar a capacidade de sequestro de carbono. Adicionalmente, o emprego de práticas como a compostagem dos resíduos da produção de café pode minimizar a dependência de fertilizantes químicos, mitigando, consequentemente, as emissões de óxido nitroso, um potente gás do efeito estufa (SIQUEIRA, 2011).

Contudo, não se deve negligenciar que a integração à economia de baixo carbono transcende benefícios ambientais, proporcionando também vantagens econômicas aos produtores. Ao adentrarem no mercado de créditos de carbono, os cafeicultores podem ampliar sua renda, comercializando os créditos derivados do carbono sequestrado em suas plantações. Esse movimento, ao promover a sustentabilidade ambiental, também fortalece a resiliência da cafeicultura brasileira ante as adversidades climáticas. Tendo em vista que práticas de baixo carbono tendem a conferir maior resistência das lavouras de café a variações climáticas extremas, a importância deste aspecto se intensifica diante do atual cenário de aceleradas mudanças climáticas (SIQUEIRA, 2011).

Alves (2019) ressalta, porém, que a concretização deste potencial requer uma sólida estrutura de incentivos políticos e regulatórios. É imprescindível a promoção de capacitação aos cafeicultores, com foco na transição para práticas agrícolas sustentáveis e no entendimento do funcionamento do mercado de créditos de carbono. Portanto, a potencialidade da cafeicultura nacional no mercado de crédito de carbono é expressiva. Se explorada de maneira adequada, pode consolidar o setor cafeeiro brasileiro como um líder global, não apenas em termos de produção, mas também em sustentabilidade e combate às mudanças climáticas.

Enfatiza-se que a inclusão da cafeicultura no mercado de créditos de carbono representa um esforço direcionado para um futuro mais sustentável, em sintonia com os desafios contemporâneos. Tal estratégia se configura como uma oportunidade única para fortalecer a posição do Brasil no cenário internacional, ao mesmo tempo em que contribui para a proteção do planeta. A cafeicultura desempenha um papel relevante na economia brasileira, com destaque para duas regiões que se notabilizam pela produção expressiva e de alta qualidade: a Alta Mogiana, situada no estado de São Paulo, e o Sul de Minas Gerais. Ambas possuem características geográficas e climáticas propícias ao cultivo do café, resultando em grãos distintos e apreciados por mercados internacionais exigentes (ALVES, 2019).

A região da Alta Mogiana, localizada no nordeste paulista, compreende uma área de produção cafeeira privilegiada. O clima subtropical, aliado à altitude variando entre 900 a 1.000 metros, e a estação seca bem definida durante o período de colheita, conferem à região condições ideais para o cultivo de variedades de café arábica de excelente qualidade. Seu produto é marcado pela doçura acentuada e pela acidez equilibrada, características muito apreciadas pelos consumidores (ALVES, 2019).

Em contrapartida, o Sul de Minas Gerais, reconhecido como o maior produtor de café do Brasil, beneficia-se de uma combinação única de altitude, clima e solo. A região se caracteriza por colinas suaves, com altitudes variando entre 900 e 1.300 metros, e precipitações bem distribuídas ao longo do ano. Estes fatores contribuem para a produção de um café arábica com notas de frutas e chocolate, possuindo uma qualidade ímpar que agrada aos paladares mais sofisticados (ALVES, 2019).

Segundo Júnior e de Oliveira (2016), ambas as regiões têm procurado, nos últimos anos, aprimorar suas técnicas de produção e pós-colheita. A implementação de processos tecnológicos, como a irrigação por gotejamento, a mecanização da colheita e os métodos de fermentação controlada, contribuiu para aumentar a eficiência produtiva e aprimorar a qualidade dos grãos. Essas regiões também têm se destacado no cenário da produção de cafés especiais, que possuem características sensoriais únicas e são comercializados a preços superiores em relação ao café commodity. Este movimento tem impulsionado a diversificação da produção, com os produtores explorando variedades diferentes de café, processos de pós-colheita inovadores e técnicas de torra especializadas.

No entanto, apesar dos avanços, os cafeicultores dessas regiões enfrentam desafios significativos, que incluem a volatilidade dos preços no mercado internacional, as mudanças climáticas, a necessidade de investimentos para a adoção de novas tecnologias e incentivos para adotar práticas sustentáveis. Práticas estas que, além de atender às exigências do próprio mercado consumidor, possam gerar mais competitividade.

O desenvolvimento de políticas públicas voltadas para a cafeicultura e o estabelecimento de parcerias com instituições de pesquisa e universidades podem ser o caminho para superar tais obstáculos e, assim, viabilizar esta oportunidade estratégica, do mercado de crédito de carbono, para o setor cafeeiro.

REFERÊNCIAS
ALVES, Jair Júnior. Café brasileiro de qualidade. 2019. 99 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Engenharia de Alimentos) – Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2019.

CARVALHO, Thiago Franco Oliveira de. Modernização agrícola e a região da Alta Mogiana Paulista: análise da expansão da produção de cana-de-açúcar em uma tradicional região cafeeira. 2014. 139 f. Dissertação – (mestrado) – Universidade Estadual Paulista, Instituto de Geociências e Ciências Exatas, 2014.

JÚNIOR, Lima; DE OLIVEIRA, Paulo. Inteligência competitiva na cafeicultura: mineração textual em notícias publicadas na web. Universidade Federal de Lavras, 2016.

LOPES, Paulo Rogério et al. Uma análise as consequências da cafeicultura convencional e as opções de modelos sustentáveis de produção–agricultura orgânica e agroflorestal. REDD–Revista Espaço de Diálogo e Desconexão, 2014.

SIQUEIRA, Haloysio Miguel de. Transição agroecológica e sustentabilidade socioeconômica dos agricultores familiares do território do Caparaó-ES: o caso da cafeicultura. Universidade Estadual do Norte Fluminense, 2011.

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