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Revista Attalea Agronegócios
Frutas

Registradas as primeiras variedades de banana-da-terra do Brasil

Graças ao apoio da pesquisa científica, o Brasil conta agora com duas variedades de plátanos registradas oficialmente e uma terceira encontra-se em processo para essa oficialização. Fruto muito semelhante à banana, o plátano tem casca mais dura, é mais esverdeado e costuma ser comercializado com o nome de banana-da-terra (veja quadro no final).

Apesar de já serem cultivados há mais de uma década no Brasil, os plátanos não contavam com mudas registradas. A inclusão das variedades D’Angola e Terra Maranhão no Registro Nacional de Cultivares (RNC) do Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), permitirá a produção e identificação de matrizes livres de vírus, cem como o acesso dos produtores aos sistemas oficiais de crédito rural. Por isso, era uma demanda antiga de agricultores e biofábricas de plantas.

“Assim como aconteceu com a laranja Pera D-6 e a banana Prata-Anã, a EMBRAPA foi demandada pelos agricultores a liderar o processo de registro”, conta o pesquisador da Embrapa Mandioca e Fruticultura Edson Perito Amorim, líder do Programa de Melhoramento de Banana e Plátano, que solicitou o registro. Ele explica que os plátanos oficializados são variedades de domínio comum e a Empresa não vai ter propriedade sobre elas nem receber royalties.

“A inclusão no RNC permitirá que os agricultores tenham acesso a mudas de qualidade fitossanitária, a financiamento público para a implantação da lavoura e ao seguro agrícola”, comemora. “O plantio de mudas de qualidade vai permitir que os produtores incrementem a produção e melhorem a qualidade da fruta, uma vez que o ponto inicial de sucesso de qualquer área de produção de banana são as mudas de qualidade”, afirma. A Embrapa iniciou em 2018 o registro da Terrinha, o terceiro plátano mais cultivado do País.

O PROCESSO DE REGISTRO

Amorim credita o prazo de registro relativamente rápido — cerca de um ano — à importância das duas variedades e pelo fato de já serem de domínio público.

“Deixamos claro no pedido de registro que a EMBRAPA não estaria tomando posse das cultivares e que, por não estarem registradas, as mudas não poderiam ser comercializadas de forma oficial pelas biofábricas brasileiras. Por consequência, os produtores não podiam nem fazer seguro agrícola no banco. Nosso interesse era registrar para padronizar a produção de mudas”, conta Amorim ao recordar que a pesquisa teve que descrever tecnicamente as particularidades de cada cultivar, como altura, tipo de cacho, número de frutos e comprimento dos frutos, entre outras características, para o registro no Ministério.

SISTEMA DE PRODUÇÃO A CAMINHO

A perspectiva é que a Embrapa desenvolva, em breve, um sistema de produção específico para plátano e a sua própria variedade. “O registro em si vai permitir que planejemos experimentos em áreas de produtores visando melhorar o manejo dessas cultivares. Até então tínhamos áreas de produtores bastante desuniformes porque eles utilizavam mudas da própria área”, comenta o especialista.

Testes estão sendo realizados pela primeira vez no Vale do Ribeira, região tradicional de cultivo de banana no estado de São Paulo, onde a Embrapa desenvolve duas linhas de pesquisa: teste de genótipos de plátanos da coleção de germoplasma (amostra de variedades de uma mesma espécie de planta) da Empresa e validação de híbridos resistentes à Sigatoka-negra desenvolvidos pelo Instituto Internacional de Agricultura Tropical (IITA).

Orivaldo Dan é um dos produtores parceiros em Jacupiranga. “Vejo um crescimento de vendas [de plátano] há um bom tempo. É uma planta que pode nos dar uma boa sustentação para industrialização e abrir um mercado muito bom. Temos dez variedades sendo testadas com suporte da EMBRAPA e da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (Apta) para chegar à mais produtiva. A única forma de baixar custo de produção e também ter um preço razoável para o consumidor é a produtividade e, para isso, temos que achar uma variedade mais precoce e que também dê um cacho maior”, ressalta.

Silvio Romão, da fazenda Univale, também em Jacupiranga, é outro parceiro de experimentos com banana Terra. “A gente tem visto cada vez com mais frequência o uso na culinária, especialmente em São Paulo. É um nicho de mercado bastante interessante. Eu pretendo levar para área comercial assim que eu tiver volume. A gente tem compradores fixos de banana e todos demonstraram interesse em distribuir. Acho que vai ser um nicho bom para trabalhar”, acredita.

BANANAS x PLÁTANOS

A confusão entre plátanos e bananas é bastante comum, tanto em português como em espanhol, língua na qual a palavra plátano geralmente é usada para qualquer tipo de banana.

No Brasil, considera-se plátano somente a banana do tipo Terra, conhecida como banana-comprida ou banana-da-terra, que é consumida preferencialmente cozida, frita, assada ou na forma de farinha. Seus frutos podem chegar a 26 centímetros de comprimento e ter até meio quilo e a polpa é mais consistente que a da banana. A maior parte da produção está concentrada no Nordeste e Centro-Oeste, onde costuma fazer parte do café da manhã ou da noite e acompanhar pratos principais em almoços e jantares.

Tanto a banana quanto o plátano são ricos em amido, mas à medida que o fruto amadurece, o amido da banana é em grande parte convertido em açúcares, enquanto o do plátano se mantém ao longo do amadurecimento.

A banana tem o nome científico de Musa spp. e pertence à família Musaceae, enquanto os plátanos são híbridos de Musa acuminata e Musa balbisiana. Enquanto a origem das bananas é asiática, a diversidade dos plátanos é maior na África, especialmente nas Áfricas Central e Ocidental. A ocorrência na América Latina provavelmente se deu com o tráfico de escravos. No Brasil, as principais variedades cultivadas de banana são do tipo Prata (Pacovan, Prata-anã e Prata-comum), Maçã e Cavendish; os principais plátanos são a Terra Maranhão, a D´Angola e a Terrinha.

Baixo Sul da Bahia é grande produtora de plátanos

Parte dos experimentos foi implantada, em agosto do ano passado, em uma das maiores regiões produtoras de plátanos do Brasil: o Baixo Sul da Bahia, onde a cultura começou a ganhar espaço há cerca de 15 anos, quando os cacauicultores foram obrigados a realizar uma diversificação de culturas, principalmente por causa da crise instalada pela doença do cacau conhecida como vassoura-de-bruxa.

Hoje, a banana-da-terra plantada principalmente nos municípios de Presidente Tancredo Neves, Teolândia e Wenceslau Guimarães tem mercado certo na própria Bahia, em São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Minas Gerais. Dentro do estado, os principais pontos de escoamento do produto são os municípios de Brejões, Jaguaquara, Jequié, Vitória da Conquista, Itiruçu, Feira de Santana e Salvador.

A presença da Embrapa é sentida na região há cerca de 20 anos. Entre os anos 1978 a 1980 saíram da Embrapa os primeiros caminhões de mudas de banana Terra Maranhão para Wenceslau Guimarães, como parte do projeto “Manejos fitotécnicos com a cultura da bananeira”, liderado pelo pesquisador aposentado Élio Alves.

O pesquisador Marcelo Bezerra, do Setor de Gestão de Transferência de Tecnologia, comenta que havia uma rede ampla de experimentos em toda a região. “Entendíamos que fazer transferência de tecnologia naquela época era primordial para a evolução dos produtores. Realizamos inúmeros eventos, dias de campo, palestras, seminários. Eram, em média, cinco eventos por semana”, recorda.

Em 2006, Benito Xavier, do povoado do Cocão, em Wenceslau Guimarães, foi um dos produtores que abriram as porteiras para a Embrapa montar experimento. “Foi muito bom, aprendemos a cuidar, balizar o terreno, fazer curva de nível. Muita gente aqui ainda vive da banana-da-terra, vendendo para os atravessadores que levam para Feira, Salvador e Jequié.” Na época, Xavier fundou a extinta Associação de Pequenos Produtores Rurais de Cocão e Adjacências.

Para Carlos Alberto Liotério, o Cacá, prefeito de Wenceslau Guimarães, a produção da banana é fundamental para o munícipio, que tem cerca de 70% da população na zona rural. “A única linha de desenvolvimento que temos hoje é a agricultura, e a banana-da-terra gera muito emprego, desde o momento em que se beneficia a área para o plantio. Depois, tem que fazer o manejo dessa produção e a parte de escoramento e limpeza da roça. E vai chegar o momento importante que é a colheita, precisa das pessoas para colher. Aí, entra o comerciante que vai à fazenda comprar, que traz e já vende a outra pessoa. E assim vai girando, gerando emprego e recursos para o município por meio do ICMS [Imposto sobre a Circulação de Mercadoria e Serviços] e riqueza para a população”, explica.

A informação é ratificada pelo secretário de Agricultura, Meio Ambiente e Desenvolvimento Econômico, o engenheiro-agrônomo Gabriel Gomes. “Com a crise do cacau, a partir da década de 90, quando veio o problema da vassoura-de-bruxa, a banana foi uma válvula de escape para alguns produtores aqui da região. Veio como uma solução para melhorar a renda dos agricultores, e Wenceslau se tornou o maior produtor de banana tipo Terra do Brasil”, conta.

O produtor Carlito Pereira tem dois mil pés de banana-da-terra, além de cacau, cupuaçu e banana-prata, e chegou a ter experimentos da Embrapa em sua propriedade. Os frutos seguem, por dois atravessadores – chamados de baganeiros –, para Salvador, Jequié e Maracás. “A gente só teve a ganhar porque muitas coisas que não conhecia, passou a conhecer, principalmente com relação aos tratos culturais, a combater as pragas e doenças e como manusear a produção para poder valorizar um pouco mais. A Embrapa foi um parceiro excelente”, salienta.

INDUSTRIALIZAÇÃO DA BANANA-DA-TERRA

Desde setembro de 2014, o Baixo Sul Baiano conta com um empreendimento que depende exclusivamente da produção local da banana Terra Maranhão. Trata-se da empresa Alina do Brasil, gerenciada pelo venezuelano Gerardo Rosales.

Em 2010, buscando na internet onde encontrar matéria-prima para instalar uma fábrica de processamento de banana-da-terra no Brasil, Gerardo se deparou com uma publicação da pesquisadora da Embrapa Marilene Fancelli sobre controle da doença moleque-da-bananeira no Baixo Sul da Bahia. “Fizemos contato com a Secretaria de Agricultura do Estado e marcamos uma visita à Embrapa e ao município maior produtor, Wenceslau Guimarães. O secretário de agricultura era Juarez, que me levou a conhecer a produção, que ficava na sua fazenda”, recorda.

A Alina não tem marca própria, tendo optado por realizar apenas o processamento e a embalagem por encomenda em saquinhos de 40 e 45 gramas, a depender da marca. A tecnologia utilizada é a mesma da região do Caribe, que é onde mais se consome esse produto. Atualmente, o produto final é fornecido para quatro empresas: Boa Terra, do município do Gandu; Cooperativa de Produtores de Presidente Tancredo Neves (Coopatan); e Mundial Chip e Roots to Go, ambas de São Paulo. “Eles mandam fazer as embalagens com a marca deles e entregamos aqui o produto pronto para comercializar”, acrescenta.

Cerca de 25 produtores cadastrados de Gandu, Teolândia, Wenceslau Guimarães, Barra do Piraí e Presidente Tancredo Neves entregam a fruta de acordo com a necessidade da empresa, que tem capacidade de fabricar dez mil quilos por semana, mas a produção atual ainda não chega a 10%. “Eles estão dispostos a, de acordo com a nossa demanda, aumentar a capacidade de oferta”, salienta.

Cinco empregados fixos estão registrados, mas diversos colaboradores temporários são contratados, às vezes uma semana, outras duas ou mais. De acordo com Gerardo, não existem concorrentes no mercado nacional. “Agora é esperar o tempo para o brasileiro se acostumar a comer a banana chip e deslanchar”, diz.

Registro permitirá aos produtores acesso ao crédito rural (Foto: Lea Cunha)

 

Terceira geração trabalhando com a cultura

O jovem Vinício Melo, de Teolândia, encontrou na cultura a possibilidade de retorno às origens. “Vi a banana como oportunidade de negócio, de investimento viável. A gente nunca deixa de ter essa essência da agricultura”, relata ele, engenheiro civil formado em Itabuna em 2016. Melo é a terceira geração da família a lidar com a banana tipo Terra.

Seu avô, João Melo, foi o pioneiro não só no município ­(mais precisamente no povoado de Burietá), como na região, tendo comprado as primeiras mudas em 1964 de um produtor de Muniz Ferreira, no recôncavo.

Antonio Melo, pai de Vinício, possui cerca de 12 mil plantas das variedades Maranhão e Terrinha e já participou de diversos treinamentos ministrados pela Embrapa. “No trato cultural, a gente faz como manda o figurino mesmo, com medo da Sigatoka chegar e acabar com todo o nosso investimento. Acho que, se a Sigatoka viesse a fazer o que a vassoura-de-bruxa fez com o cacau, a gente estava arrasado porque hoje o que segura a economia da região é a banana-da-terra, não tem o que se discutir. Todo trabalhador vive em função da produção de banana”, relata ele, que tem cinco empregados fixos e dez provisórios. “Na época de plantio, a gente precisa de mais gente e, também, para a manutenção”. Sua produção é levada à Central de Abastecimento de Salvador (Ceasa), em caminhão próprio, para compradores fixos, que revendem para redes de supermercados e hortifrúti de bairros.

Passado

O engenheiro-agrônomo Juarez Leal, ex-secretário de agricultura de Wenceslau Guimarães e atual coordenador do Comitê Técnico Regional de Fruticultura do Baixo Sul, foi um dos responsáveis pela aproximação da Embrapa com os produtores da região. “Para alavancar a agricultura, eu sabia que precisava me aliar às instituições da área: Embrapa porque gera tecnologia; EBDA [extinta Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola], que era responsável pela extensão rural; Senar [Serviço Nacional de Aprendizagem Rural], que faz a qualificação de mão de obra; Adab [Agência Estadual de Defesa Agropecuária da Bahia]; e Ceplac [Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira], que já estava presente por causa do cacau. Cada um, com sua função, era importante”, lembra. “Não se constrói nada sozinho. Consegui articular e tudo aconteceu. A Embrapa provou que não precisava derrubar a mata para produzir banana e a cultura avançou muito na região, a ponto de recebermos visitas de delegações da África, da Costa Rica e da Colômbia nos experimentos conduzidos por Élio e Marcelo”, conta.

Luiz Carlos de Lima, agente de atividade agropecuária da Ceplac em Teolândia, confirma o trabalho conjunto das instituições para a sustentabilidade da região: “Sem esses elementos, não teríamos nem as comunidades mais. Esse pacote de instituições é a força regional”.

Na unidade demonstrativa com sete variedades, eram realizados testes de validação e dias de campo para os produtores. Assuntos como manejo da broca (principal problema da cultura na região), adubação, calagem e cobertura vegetal na melhoria das propriedades químicas eram alguns dos itens observados.

 

FONTE: Léa Cunha – EMBRAPA Mandioca e Fruticultura
 

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