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ARTIGOSCana de Açúcar

[Arnaldo Luiz Corrêa] – MERCADO DE AÇÚCAR – 02 a 06/2018

Arnaldo Luiz Corrêa

Gestor de Risco para o mercado agrícola de commodities e Diretor da Archer Consulting – Assessoria em Mercados de Futuros, Opções e Derivativos Ltda.

O MARTÍRIO CONTINUA

O mercado futuro de açúcar em NY teve uma semana muito ruim encerrando a sexta-feira com o contrato com vencimento para outubro de 2018 cotado a 11.54 centavos de dólar por libra-peso, uma queda de 69 pontos (mais de quinze dólares por tonelada) em relação à semana anterior. As commodities agrícolas, em especial café, óleo de soja e açúcar, estão sofrendo com a desvalorização cambial e as incertezas que cercam o cenário político nacional.

Uma série de pontos contribuiu para a deterioração dos preços do açúcar ao longo da semana: a substancial queda nos preços negociados do hidratado acendeu a luz amarela para aqueles que viram os valores do biocombustível chegar praticamente ao nível do açúcar em NY, comparativamente a 250-300 pontos de prêmio sobre açúcar equivalente em NY. Estima-se que 400 milhões de litros de etanol deixaram de ser consumidos durante a greve dos caminhoneiros, aumentando o estoque do produto e pressionando o já apertado caixa das usinas. Como é sabido, necessidade premente de caixa e excesso de produto disponível são ingredientes indigestos que normalmente machucam os mercados.

Dentro do elenco de problemas enfrentados na semana, some-se o fato de que a Petrobras não está repassando ao consumidor o preço da gasolina negociada no mercado internacional. Quem paga o pato dessa medida populista é a estatal brasileira que vende ao consumidor gasolina abaixo do preço de reposição de mercado e, por tabela, estrangula as usinas via menor rentabilidade do etanol.

O preço médio da gasolina negociada na bomba coletado entre mais de 100 países na semana passada, apontava 1.18 dólar por litro, equivalente a R$ 4.6028 por litro no Brasil considerando que aqui temos a mistura de 27% de anidro. Como o preço médio da gasolina no maior centro consumidor do país foi de 4.2750 reais por litro, a defasagem utilizando esse critério é de 7.2 %.

Por outro critério, que é tomando o preço do petróleo no mercado internacional e estimando o custo de internação por parte da Petrobras, apuramos o valor equivalente a R$ 4.7053 por litro na bomba, uma defasagem de 9.2%.

O aparente abandono por parte da direção da Petrobras do até então bem-sucedido modelo de formação de preço dos combustíveis denota imensa irresponsabilidade do governo federal para com o setor sucroalcooleiro e para com o futuro e a expansão dos biocombustíveis no Brasil. Uma vez mais a conta será paga pelo setor sucroalcooleiro que já financiou combustível barato para fomentar a indústria automobilística nos anos de governos petistas, viu reduzida sua participação na matriz energética de 54,5% em 2009 para os atuais 40% e, com tanta instabilidade jurídica e intervenções anacrônicas, amarga o nono ano consecutivo produzindo a mesma quantidade de ATR e corre o risco de ver ir por agua abaixo o projeto do RenovaBio. Dezesseis anos da mais incompetente administração pública da história republicana capitaneadas por PT/PMDB transformaram o setor no que estamos vendo hoje.

A situação só piora com a decadência da situação financeira de algumas usinas que em não conseguindo refinanciar as dívidas que vencem imediatamente, sentem-se forçadas a vender seus produtos (em especial o etanol) a qualquer preço para atender a compromissos inadiáveis de curto prazo. Esse tipo de estresse distorce a análise.

Se apostávamos na recuperação dos preços do açúcar no mercado internacional para o último trimestre deste ano, é evidente que com tantas turbulências e fatores exógenos que potencializam os problemas, o teto de preços parece ser mais baixo.

O que impulsionaria os preços, na nossa visão, é a percepção mais clara do tamanho da moagem efetiva do Centro-Sul já a partir de julho/agosto quando a seca que atingiu o canavial será mais sentida nesses meses de moagem (a cana mais seca, segundo alguns técnicos, ainda não foi moída). Os números podem surpreender negativamente (abaixo de 550).

O volume de exportação brasileira, acumulada no período janeiro-maio de 2018 alcançou 7.88 milhões de toneladas de açúcar, um número 18.7% menor do que igual período do ano passado. Foram duas milhões de toneladas de açúcar a menos em cinco meses comparativamente ao período anterior. As chances são de que ainda em 2019/2020 o Brasil manterá uma exportação limitada a 23 milhões de toneladas de açúcar O enxugamento, ou desaparecimento de açúcar brasileiro ao longo dos próximos dois anos que se iniciam agora podem reduzir uma disponibilidade de mais de 8 milhões de toneladas de açúcar para o mercado mundial? Serão esses açúcares substituídos sem problemas pela Tailândia e Índia? Essa é uma pergunta capciosa.

Os fundos podem entrar comprados? Ainda não parece ser assim o caso. No entanto, onde parece haver maior potencial de ganho? Na compra ou na venda? Logo saberemos.

A guerra comercial de EUA e China é um jogo de pôquer. Todos estão indo nas cartas. O flop abriu e alguém tem um par de dois, mas age como se tivesse um par de Ás. E ninguém parece querer abandonar as cartas. O Irã diz que vai colocar o petróleo a 100 dólares por barril.

O que empaca uma eventual recuperação dos preços é, o retorno dos preços administrados para os combustíveis, a lerdeza do mercado físico de açúcar e a situação de penúria de parte das usinas que podem dar o tom mais negativo aos preços em função de fixações de preço baseadas na necessidade de caixa. Tempos bicudos.

Um trader disse que a única cosa que cai mais do que o açúcar é o Neymar na Copa do Mundo.

Parabéns ao time da Bélgica pela classificação. Era minha seleção favorita antes do início da Copa, mas a parada vai ser dura. O Brasil provou que estrelismo em excesso, simulações, penteados mirabolantes e tatuagens não necessariamente se convertem em bom desempenho no campo.

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