CaféCafé e Mercado

[Marcelo Fraga Moreira] – Mercado do Café – “Quando o Brasil vai regulamentar a importação de café verde?”

MARCELO FRAGA MOREIRA
[Comentário Semanal – 05 a 09/12/2022]
É um profissional há mais de 30 anos atuando no mercado de commodities agrícolas,

escreve este relatório sobre café semanalmente como colaborador da Archer Consulting –
Assessoria em Mercados de Futuros, Opções e Derivativos Ltda.
www.archerconsulting.com.br

Mais uma semana com o Set-23 fechando em baixa. Dessa vez caindo “apenas” -515 pontos, ou -2,81% (mínima /máxima / fechamento respectivamente @ 158,40 / 165,30 / 158,95 centavos de dólar por libra-peso). O R$ trabalhou praticamente inalterado oscilando entre +5,28/+5,21 R$/US$.

O volume médio diário continuou “baixo”, negociando ao redor dos +26.000 lotes/dia.  Os fundos + especuladores continuaram vendendo e terminaram o período aumentando a posição “vendida” para -22.657 lotes (segundo último relatório do CFTC*).

A grande “surpresa” para o mercado local foi o início da recuperação dos preços do café tipo robusta. Voltou a negociar acima dos +650 R$/saca. Já o café tipo arábica segue negociando entre +1.000 / +1.150 R$/saca. Rumores onde a indústria estaria “correndo” atrás de lotes competindo com algumas tradings (entraram no mercado e “limparam” as ofertas chegando a pagar um prêmio entre +20/+30 R$/saca) deram sustentação e ânimo para os produtores.

Com muitos produtores retraídos, “sentados em cima” do seu café aguardando por preços melhores, os compradores “vendidos” base “basis*” estão sendo obrigados a pagar preços mais elevados, refletindo diretamente no “basis*”. Há 1-2 meses os compradores estavam originando café com base “basis” @ -35/-30 pontos. nessa semana o “basis*” na originação chegou a ser negociado base “flat”/-07 pontos – refletindo um aumento/desembolso para o comprador/trading ao redor dos +150/+200 R$/saca (aproximadamente +35 US$/saca)! Será que irão conseguir repassar esse aumento para o destino final e/ou renegociar seus contratos? Se não conseguirem os prejuízos para algumas empresas serão enormes!

Nessa semana a consultoria/corretora Hedgepoint e o eng agrônomo/produtor de café sr João Ferrão publicaram novas estimativas para a safra 23/24.

Segundo a Hedgepoint a próxima safra brasileira 23/24 deverá ficar entre  +64,90/+68,90 milhões de sacas x +59,00 milhões de sacas na safra 22/23. A produção do café tipo arábica deverá ficar entre +44,40/+46,40 milhões de sacas x +36,00 milhões de sacas na safra 22/23. Já a produção do café tipo robusta deverá ficar entre +20,50/+22,50 milhões de sacas x 23,00 milhões de sacas na safra 22/23.

Já a previsão do sr Ferrão para o café tipo robusta está estimada entre +12,90/+14,30 milhões de sacas (para maiores informações sobre o relatório entrem em contato através do email: 

Como já apresentamos aqui, por enquanto, as estimativas para a próxima safra 23/24 estão oscilando entre +53,00/+68,50 milhões de sacas.

A Cecafé deverá publicar o fechamento dos embarques do mês de novembro-22 na próxima semana. Salvo alguma correção/ajuste, as exportações no mês de novembro-22 ficaram em +3,42 milhões de sacas! Nos primeiros 5 meses da safra 22/23 o Brasil já exportou +15,52 milhões de sacas x +15,75 milhões de sacas durante mesmo período da safra anterior.

No mês de dezembro, até o dia 09 de dezembro, o Brasil havia solicitado autorizações para embarques para apenas +682 mil sacas e embarcado apenas +350 mil sacas – uma redução ao redor -60% comparado ao mês anterior. Qual será o motivo para essa redução drástica nas exportações? Falta de produto, problemas logísticos com as chuvas/quedas de barreiras dos últimos 10 dias, ou apenas efeito “copa do mundo”?  Vamos seguir acompanhando para ver como os números irão se comportar nos próximos dias.

Nessa semana a FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) publicou um estudo apontando a importância do setor cafeeiro na economia brasileira sugerindo “… ainda há oportunidades para ampliar nossa participação nesses mercados mas, para isso, necessitamos de uma maior rede de acordos tarifários para os produtos beneficiados e elevar a importação de café verde de outras origens para a formação de blends, entre outras ações que permitam que o Brasil exporte mais produtos processados, de maior valor agregado” (negrito e destaque no texto de minha autoria para chamar a atenção dos nossos leitores). 

Já falei sobre isso em comentários anteriores, e concordo plenamente com esse estudo! Precisamos quebrar paradigmas, medos, receios referentes ao Brasil voltar a importar café verde de outras origens. Com regras claras e transparentes o Brasil poderá, em curto espaço de tempo, ajustar a indústria local e começar a exportar nossa riqueza em produtos acabados e, principalmente, agregando valor / divisas para o país. Controles fitossanitários, controles de barreiras, controles fiscais podem e devem ser implementados para evitar desvios, roubos, “esquemas de contrabando”. Precisamos de regras claras para impedir a importação de café com baixa qualidade, varreduras, cafés com no mínimo X defeitos e cafés com “peneira mínima X”. Dessa forma, com próprio controle nas alfandegas, com controle nos certificados de origem / qualidade / fitossanitários produtos fora de especificação serão barrados e incinerados.

O governo poderá incentivar “zonas francas” para a instalação de novas industrias, favorecendo a importação de máquinas e equipamentos com redução e/ou isenção nos impostos de importação. Muitos produtores poderiam se unir e verticalizar suas operações. A concorrência saudável no curto prazo irá incomodar os grandes “players” já instalados e os que estão no exterior. Mas com certeza irá favorecer o produtor e a indústria local criando empregos, renda, riquezas para o país.

Os Emirados Árabes Unidos já fizeram essa “zona franca” e está sendo um sucesso. Estão incomodando e competindo diretamente com as indústrias instaladas na Europa. Importam café do Brasil, países africanos, Vietnam, Indonésia! E de lá já estão reexportando para o resto do mundo!

Como já demonstramos aqui, o Brasil exporta 1 saca de café verde de 60 kgs ao redor dos +220/+250 US$/saca resultando em aproximadamente 48.000 gramas de café! 1 saca de café processada produz aproximadamente 4.800 xicaras de café (vide “brainstorming” abaixo! Tem muito dinheiro na cadeia que poderia ser direcionado ao produtor e à indústria local!

Mesmo considerando os custos totais para um empreendedor ao redor dos +65%, mesmo assim ainda resulta em uma margem no meio da cadeia ao redor dos +5.000 US$/saca, ou quase +2.000% por saca !

Fica muito claro na planilha que a “cadeia do café” continua explorando muito os produtores mundiais. “Explorando” pode ser uma palavra / afirmação dura, pesada, mas precisamos ser sinceros e direto ao ponto e “cutucar na ferida”.

Muitas empresas/tradings/destinos estão exigindo certificados, controles, e agora os controles ESG*, “carbono-zero”. Porém querem pagar um “prêmio”, uma “miséria por saca” para os produtores mantendo os lucros/bônus nos bolsos de apenas “alguns poucos escolhidos”. Já passou da hora dos “grandes” começarem a remunerar melhor o produtor. Senão, ou “ou o setor valoriza e apoia o produtor ou em breve vai faltar café”!

O Set-23 fechou novamente abaixo das médias móveis dos +9/+17 dias. Próximos suportes @ +155 / + 150 / +144 centavos de dólar por libra-peso e resistências @ +159,35 / +163,50 / +174,00 / +190,05 centavos de dólar por libra-peso.

Para o produtor “vendido” (e que acredita que terá problemas com sua safra 23/24) aproveite essas quedas / lateralização do mercado para comprar seguro contra eventual quebra de safra (em função das chuvas/doenças/pragas/geadas durante o próximo inverno maio-agosto-23) analisando e comprando opções de compra “call*” ou estruturas “call-spreads*”.

Como sempre, protejam-se! O mercado sempre será soberano.

ps: Tome nota: as inscrições para o Novo Curso Avançado de Opções sobre Futuros – Commodities Agrícolas já tem data: dias 14 (terça) e 15 de março (quarta) de 2023, das 09:00 às 17:00 horas no Hotel Travel Inn Paulista Wall Street, na Rua Itapeva, 636, Bela Vista, São Paulo – SP. Introduzimos novos módulos, com estratégias, gestão dos livros, delta hedging, entre outros assuntos. Para mais informações contate priscilla@archerconsulting.com.br. As vagas são limitadas.

Ótima semana a todos!

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** “Call” = opção de Compra

** “Put” = opção de Venda

** “Compra Call-Spread” = compra e venda simultânea de 2 Opções de Compra comprando a Opção com preço de exercício mais baixo vendendo a Opção com preço de exercício mais alto);

** “Venda Call-Spread” = venda e compra simultânea 2 Opções de Compra vendendo a Opção com preço de exercício mais baixo e comprando a Opção com preço de exercício mais alto);

** “Compra Put-Spread” = compra e venda simultânea 2 Opções de Venda comprando a Opção com preço de exercício  mais alto e vendendo a Opção com preço de exercício mais baixo);

** “Venda Put-Spread” = venda e compra simultânea 2 Opções de Venda vendendo a Opção com preço de exercício  mais alto e comprando a Opção com preço de exercício mais baixo);

** “CFTC” = Commodity Futures Trading Commission – agência independente do governo dos Estados Unidos que regula os mercados de futuros e opções das commodities;

** “IBGE” = Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

 ** “Cecafé” = Conselho dos Exportadores de Café do Brasil

** “USDA” = Departamento da Agricultura dos Estados Unidos

** “FAS” = Serviço Agrícola Estrangeiro do USDA*

** “OIC” = Organização Internacional do Café

** “GCA” = Green Coffee Association

** “ABIC” = Associação Brasileira da Indústria de Café

** “Sincal” = Associação dos Produtores do Brasil

** “Pib” = Produto Interno Bruto

** “FED” = Banco Central Americano

** “EUROSTAT”  = Serviço de Estatística da União Europeia responsável pela publicação de estatísticas e indicadores de elevada qualidade a nível europeu que permite a comparação entre países e regiões

** “OPEP” = A Organização dos Países Exportadores de Petróleo

** “COOXUPÉ” = Cooperativa Regional de Cafeicultores em Guaxupé

** “Coccamig” = Cooperativa Central de Cafeicultores e Agropecuaristas de Minas Gerais

** “PIB” = Produto interno Bruto de um país

** “COPOM” = Comitê de Política Monetária, é um órgão do Banco Central. Ele foi criado em 1996 com o objetivo de traçar e acompanhar a política monetária do país. Esse é o órgão responsável pelo estabelecimento de diretrizes a respeito da taxa de juros

** “BASIS” = O basis é a disparidade de preço causada pela diferença geográfica entre os pontos de entrega da commodity. Ele é calculado subtraindo o valor da commodity no mercado físico em determinada praça, pelo preço do mesmo produto no mercado futuro.

** “Bandas de bollinger” = do inglês bollinger bands, é um indicador de volatilidade bastante utilizado para prever se um ativo está sobre-comprado, estável ou sobre-vendido. Ele é formado por duas médias móveis, uma superior e outra inferior que indicam tal informação. São alguns atributos desse indicador:

  • Antever os níveis de preço de um ativo
  • Antecipar topos e fundos de preço no gráfico
  • Mostrar a intensidade de valorização ou desvalorização de um ativo

Portanto, este indicador tenta mostrar se uma ação está barata ou cara, em um determinado período de tempo.

Desse modo, ele é indicado para operações de curto prazo, day trade ou swing trade.

O autor da técnica é o americano John Bollinger (nascido em 1950), analista financeiro e colaborador da área de análise técnica. John lançou o seu livro Bollinger on Bollinger Bands em 2001, mas essa técnica começou a ser desenvolvida por ele ainda na década de 1980. As bandas são derivadas das médias móveis e mostram que, independente de qualquer movimento que o preço faça, ele tende a voltar a um equilíbrio. Portanto, temos aí um “estreitamento das bandas” no gráfico de candlestick.

** “PMI” = A sigla PMI significa, em inglês, Purchasing Manager’s Index e é um indicador que mede a atividade econômica de um país a partir de pesquisas mensais realizadas por uma empresa privada.

Assim, o PMI também é conhecido como Índice de Gerentes de Compra e seu principal objetivo é fornecer informações sobre a temperatura de alguns setores da economia e orientar os diversos profissionais do mercado.

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