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Revista Attalea Agronegócios
ARTIGOS Café Café e Mercado

[Marcelo Fraga Moreira] – Mercado do Café – O mercado é soberano, quer você aceite ou não… (comentário semanal 26 a 30/07 de 2021)

MARCELO FRAGA MOREIRA
É um profissional há mais de 30 anos atuando no mercado de commodities agrícolas,

escreve este relatório sobre café semanalmente como colaborador da Archer Consulting –
Assessoria em Mercados de Futuros, Opções e Derivativos Ltda.
www.archerconsulting.com.br

Mais uma semana para entrar para a história no “mundo do café”. Uma variação de impressionantes 9.410 pontos em 10 dias não é para qualquer commoditie! Nas últimas 10 sessões o Set-21 saiu de 156.75 centavos de dólar por libra-peso para atingir a máxima do ano @ 215,20 centavos de dólar por libra-peso. Logo na segunda-feira o Set-21 chegou a subir +2.620 pontos e encerrou o dia com uma alta de “apenas” +1.895 pontos @ 207,95 centavos de dólar por libra-peso. A partir daí o mercado foi perdendo força, momento, e “devolveu” praticamente tudo para terminar a sexta-feira @ 179.55 centavos de dólar por libra-peso. Nesse período tivemos o famoso “weather market” (efeito clima/geada) com 2 geadas afetando as principais áreas produtivas e deixando todos os agentes do café “ligados nos 220v” 24 hrs por dia.

Os produtores, e o mercado em geral, seguiram acompanhando diariamente (e praticamente minuto a minuto) as previsões meteorológicas e o deslocamento da nova massa polar prevista para atingir as regiões sul e sudeste brasileiras. Como a frente fria, segundo o mercado, foi “menos intensa e atingiu uma área produtora de café menor que o esperado” na sexta-feira o mercado voltou a surpreender. Entre o high do dia e o fechamento do dia o Set-21 caiu -2.220 pontos! A semana fechou com os preços praticamente iguais aos da quarta-feira da semana anterior com o Set-21 @ 179,55 centavos de dólar por libra-peso (no dia 21 de julho o Set-21 fechou @ 177,55 centavos de dólar por libra-peso). Em R$/saca os preços continuaram trabalhando nos 1.000 R$/saca para o café arábica e até 600 R$/saca para o robusta (com pouquíssimos negócios reportados).

No movimento de alta, +5.845 pontos, os fundos+especuladores tiveram a ajuda da primeira geada no Brasil, há dois aumentos de margem inicial imposta pela Bolsa de Nova Iorque (passando de 4.000 US$ por contrato para 7.500 e em seguida para 9.000 US$ por contrato) e ao stress gerado pelas chamadas de margem diárias. Como a notícia do primeiro aumento de margem ocorreu após o fechamento do mercado na sexta-feira anterior (23 de julho), a segunda-feira já começou nervosa, com os comprados “deitando e rolando”, e também já realizando os lucros do período. Nessa “rasgada” dos preços muitos “stops de compra” foram acionados, muitos acumuladores “apareceram”, muitas posições precisaram ser “zeradas” a mercado, e muitos foram obrigados a sair do mercado bem machucados! Como falamos na comentário da semana passada, o mercado estima que foram depositados aproximadamente +10 bilhões de dólares em 10 dias para garantir a liquidez do mercado!

Tentando pegar uma “carona” na posição “comprada” dos fundos+especuladores, novos entrantes e novos fundos+especuladore procuraram inverter a posição de “vendido para comprado” (apostando novamente na ocorrência de novas geadas previstas para a madrugada entre a última quinta-feira para a sexta-feira) ficando comprados entre 180-200 centavos de dólar por libra-peso. Infelizmente (como essa geada “decepcionou” o mercado) as vendas vieram pesadas na sexta-feira e novamente, dessa vez, novos “stops de venda” foram ativados para as novas posições compradas. Ou seja, dependendo da posição em que você estiver posicionado “você pode ficar rico ou quebrar” da noite para o dia!

Os fundos+especuladores trabalham analisando os gráficos, as tendências, as famosas “médias-móveis”, as linhas de “suportes e resistências”, e os “gaps” deixados nesses movimentos violentos (onde o mercado estressa tanto para cima quanto para baixo). Esse movimento especulativo, apesar de criar “ganhadores e perdedores” no curto prazo, poderá ser nocivo no médio/longo prazo pois poderá reduzir o número de participantes com capacidade financeira para “segurar o rojão” nesses movimentos abruptos.

Na semana passada, entre os dias 21 e 22 de Julho o contrato Set-21 deixou um “gap de alta” entre 177,90 e 180,00 centavos de dólar por libra-peso. Todas as linhas/tempos gráficos indicavam o mercado atingindo níveis “sobre-comprados” e que uma realização poderia ocorrer a qualquer momento. Se a segunda geada tivesse sido “mais forte” e danificado áreas ainda maiores hoje o Set-21 estaria negociando acima dos 300 centavos de dólar por libra-peso…

Claro que olhando agora pelo retrovisor “falar é fácil”… Por outro lado sempre alertamos nossos leitores para monitorar o mercado e tirar proveitos dessas “janelas de oportunidade”, “ajustando e rolando” as posições compradas das opções de venda “Put” e/ou as “Put-Spreads” para cima.  

Há cada dia fica cada vez mais nítido a importância desse mercado e das suas ferramentas onde todos podem usufruir dos mecanismos de precificação para realizar suas proteções de preços, seus hedges. Sempre falamos aqui para os produtores e/ou cooperativas realizarem o “contra hedge” nas posições “vendidas” comprando um opção de compra “Call” fora do dinheiro e/ou uma estrutura “Call-Spread” para mitigar eventuais riscos, chamadas de margem, e prejuízos.

Muitos produtores não entenderam o movimento da última sexta-feira pois a massa polar voltou a danificar cafezais e os estragos e os prejuízos continuam sendo apurados. Infelizmente para o “mercado” o prejuízo do produtor, no curto prazo, é “problema dele”… No médio e longo prazo o prejuízo poderá afetar todos os elos da cadeia.

A longa estiagem e o inverno deste ano estão sendo rigorosos. Ainda não sabemos qual será a safra final 21/22. O mercado segue trabalhando com os números da Conab e bancos/corretoras (entre 47-57 milhões de sacas). Com a safra do café robusta praticamente finalizada e aproximadamente 70% da colheita do café arábica já realizada,  a grande pergunta e dúvidas continuam sendo a mesma: “Onde estará o café já colhido”? As cooperativas e armazéns de terceiros continuam recebendo muito pouco produto e novas vendas (mesmo nos patamares atuais) continuam escassas.

Muitos produtores estavam honrando as entregas das vendas realizadas entre 450-700 R$/saca e renegociando a entrega de produto em função da quebra da safra atual 21/22 para a safra 22/23, 23/24 e até mesmo para 24/25 até antes da primeira geada. E agora? Como irão cumprir um novo compromisso se suas lavouras foram destruídas pela geada? E agora só voltarão a colher dentro de 2-3 anos?

As safras futuras também já estão prejudicadas, tanto pela crise hídrica quanto agora pelo frio. Qual seráa produção da safra 22/23? E 23/24 em diante? Os produtores de mudas foram afetados. Muitos produtores não irão poder renovar / repor suas mudas (por falta de mudas e por falta de recursos financeiros). E muitos produtores estão considerando seriamente “passar o trator por cima de suas lavouras de café” e migrar para outras culturas como soja e milho (teoricamente culturas com menor risco e melhor rentabilidade).

Com esse cenário, e com uma demanda global ainda aquecida pela commoditie café, para onde irão os preços no curto/médio prazo? A procura pelo produto segue firme pelas tradings e cooperativas. Produtores ao redor do mundo estão acompanhando de perto os problemas na safra brasileira e já estão demandando preços melhores para o café disponível.

No curtíssimo prazo acreditamos que o “gap” será fechado já na próxima semana (com o Set-21 podendo testar o importante suporte @ 170,90 centavos de dólar por libra-peso). Abaixo desse patamar acreditamos ser difícil pois irá representar um preço para o produtor abaixo dos 1.000 R$/saca. Aparentemente o produtor brasileiro “acordou” e está mais informado com acompanhamento diário das notícias, projeções de preços e tendências através dos canais agrícolas e dos grupos de “whatsapp”.

Até o final do inverno brasileiro (inicio de Setembro-21) ainda poderão ocorrer novas frentes frias, novos riscos de geadas. A crise hídrica continua e poderá sim afetar a próxima florada prejudicando a safra 22/23. Com uma produção inicial estimada na casa dos 70 milhões de sacas para onde irão os preços com uma nova produção prevista agora para apenas 50-55 milhões de sacas?  

Para o médio prazo acreditamos em preços acima dos 200 centavos de dólar por libra-peso e até mesmo acima dos 300 centavos de dólar por libra-peso. Os custos de produção no Brasil não param de subir. A inflação interna continua firme e forte. Os juros, o custo do dinheiro para o produtor seguem subindo (com novo aumento da taxa Selic prevista para terminar o ano de 2021 acima dos 7,50-8,00%).

Com base na última posição do CFTC* os “fundos+especuladores” continuam comprados em +37.634 lotes. Se decidirem “virar a mão” e irem para o lado vendedor poderemos ver esse mercado “derreter” buscando os 150 e até mesmo os 130 centavos de dólar por libra-peso (não acreditamos nesse cenário no curto/médio prazo). Esses são os níveis das médias móveis dos 72 dias e o piso da “Bollinger Bands” de 50 dias!

“Sugestões da semana”:

No Set-21: Seguir vendendo apenas o necessário para pagar as contas do dia/semana e começar a negociar vendas agora contra o Dez-21.

No Dez-21: Analisar a compra da “Put-Spread” strike +175/-150 vendendo a opção de compra “Call” strike -210 a custo zero. Na sexta-feira essa operação permitia uma venda entre 1.100 – 1.340 R$/saca (desde que o Dez-21 feche acima dos 150 e acima dos 210 centavos de dólar por libra-peso no dia do vencimento das opções desse contrato em Nov-21).

Para a safra 22/23:
No Set-22 – Analisar a compra da “Put-Spread” strike +180/-150 vendendo a opção de compra “Call” strike -230 a custo zero. Na sexta-feira essa operação permitia uma venda entre 1.160-1.530 R$/saca (desde que o Set-22 feche acima dos 150 e acima dos 230 centavos de dólar por libra-peso no dia do vencimento das opções desse contrato em Agosto-22).

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