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Revista Attalea Agronegócios
ARTIGOS Café

[Mara Luiza Gonçalves Freitas] – Sato no céu, CDPC na terra

MARA LUIZA GONÇALVES FREITAS
Professora de Administração

“Depois de um sono bom, a gente levanta! Toma aquele banho e escova os dentinhos!
Na hora de tomar café, é Café Seleto, que a mamãe prepara, com todo o carinho!
Café Seleto tem, sabor delicioso, cafezinho gostoso, é o Café Seleto! Café Seleto! Café Seleto!”
(lembrança de infância, para amenizar um texto árduo que vem pela frente).

A morte de Américo Sato encerra a Era de Ouro da Indústria de Café Brasileira. Uma era onde essa indústria assumia um protagonismo incrível, tanto na reinvenção do modelo de consumo, na inovação tecnológica, no respeito ao consumidor com produtos de elevadíssimo padrão de qualidade e sabor. Quem não se lembra do lançamento do café aromatizado e das primeiras cafeterias do Café do Ponto? Quem não se lembra da tentativa, frustrada legalmente, de se fazer café caramelizado? Quem não se lembra da implantação das sofisticadas plantas industriais, com envase de café à vácuo, tecnologia implantada pela Melitta mas que foi utilizada pela primeira vez pela Café do Ponto, a primeira companhia brasileira a acompanhar essa evolução do mercado? Sato é o Ernesto Illy (in memorian) brasileiro. Sempre à frente do seu tempo.

O triste da morte de Américo Sato é observar que, apesar de toda uma vida dedicada a transformar a indústria de café brasileira numa protagonista global, ele morreu sem ter assistido essa conquista, graças ao Conselho Deliberativo de Política do Café (CDPC) e a Frente Parlamentar do Café. Ao longo de toda a minha produção, sempre realizei críticas ao referido conselho, por observar sua falta de efetividade para a defesa dos interesses da cafeicultura brasileira.

Basta ressaltar que desde a sua implantação, ainda no Governo Fernando Henrique Cardoso, ele sequer desenvolveu uma agenda de desenvolvimento consistente para o setor, apesar de ser o único com caixa próprio (refiro-me ao Fundo de Defesa da Economia Cafeeira – FUNCAFÉ). O que se assistiu, na verdade, foi o fortalecimento da política (com incremento dos nomes de alguns poucos atores do setor) e a ratificação do agronegócio café brasileiro como protagonista na produção, o que incentivou o processo de aquisições de indústrias brasileiras por estrangeiras, interessadas tanto na proximidade com a matéria-prima quanto no mercado consumidor brasileiro, que somente expandiu-se em razão de um esforço financeiro institucional privado da indústria de café.

As questões que podem ser extraídas post-mortem das contribuições realizadas por esse protagonista ao longo de décadas, que agora servirá café aromatizado e de alta qualidade aos anjos e ao papai do céu, são as seguintes:

  • A elevação do consumo de café, indicador que cresceu aritmeticamente face aos fatores renda e demografia, é condição suficiente e necessária para atestar e sustentar a supremacia global da cafeicultura brasileira?
  • As mudanças de estratégia de cultivo de café nos países centro-americanos e africanos, sustentados principalmente pelo capital chinês, são condições suficientes e necessárias para atestarem e sustentarem a supremacia global da cafeicultura brasileira, mesmo ante ao fato de sua característica principal, fundada na produção de café natural seco à pleno sol, ser substituída por grãos concorrentes nos blends globais?
  • O protagonismo do Brasil na Organização Internacional do Café, com o êxito nas negociações diplomáticas para a eleição de brasileiros ao posto de diretor-geral, é condição necessária e suficiente para garantir a sustentabilidade e a competitividade global do agronegócio café brasileiro?
  • A manutenção dos mesmos nomes e estilo de tomada de decisão dos membros do CDPC, desde sua fundação, são condições necessárias e suficientes para a coesão dos interesses do setor frente à possibilidade de perdas severas de competitividade e portanto, desempenho financeiro, ante à inadequação estratégica setorial frente à países concorrentes melhor preparados e com políticas cafeeiras mais dinâmicas?
  • Com o esgotamento dos estoques da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), quais serão os critérios que serão utilizados para manter-se a sanidade financeira de negócios totalmente dependentes dos leilões financiados com recursos do FUNCAFÉ, para manterem seus capitais de giro?
  • Face à tendência de deslocamento da gestão de fundos públicos para o Ministério da Economia, como a cafeicultura brasileira lidará com a mudança das regras que podem inviabilizar o acesso aos recursos do FUNCAFÉ para plantio, colheita e industrialização?

A política cafeeira não acompanhou o dinamismo de Américo Sato. Isso é certo. O problema é que, sem sua sabedoria, a visão protagonista, a visão de futuro, pode-se conduzir o agronegócio a um processo de regressão, reintroduzindo-o à Caverna de Platão.

Afinal, quem lidera o CDPC é adepto das sombras e sobrevive face à cegueira daqueles que trabalham para produzir as milhões de sacas de café que fazem com que sejamos os maiores produtores do mundo, que torram outras milhões para tornar-nos os maiores consumidores do mundo e que, em conjunto, despertam a cobiça global por nosso mercado e por nossas indústrias: empresas estrangeiras que estão em mercados com histórica regressão demográfica e dispõem de fontes de financiamento mais baratas, o que viabilizam compras e aquisições das pérolas da coroa do país, enxugando números e concentrando mercados.

Será que não está na hora de rever sua obra e realmente construir uma política cafeeira longeva, que realmente vale a pena? É com essa pergunta que encerro o texto sobre o contemporâneo da minha propaganda de café favorita (descobri infelizmente que se a gente só tomar um café, não acontece nada).

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