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Revista Attalea Agronegócios
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ARTIGOS Bovinos de Leite

[Glayk Humberto e Vânia Mirelle] – Impactos da nutrição sobre a reprodução de vacas leiteiras

GLAYK HUMBERTO VILELA BARBOSA
Zootecnista, B.Sc Mestre Produção Animal Sustentável pelo Instituto de Zootecnia.
Jurado Efetivo de Raças Zebuínas e Assessor de Pecuária Leiteira.
E-Mail: 
glaykhumbertovilela@yahoo.com.br

VÂNIA MIRELE FERREIRA CARRIJO
Médica Veterinária, B.Sc Mestre Produção Animal Sustentável pelo Instituto de Zootecnia.
Docente do Centro Paula Souza. Atua na área de sanidade, escrituração
zootécnica e biotecnologia da reprodução.

As atividades ligadas à exploração racional de animais domésticos têm crescido acentuadamente com base em avanços do manejo nutricional dos rebanhos. Os principais entraves na busca da intensificação da produção estão o manejo complexo e interativo de diversos fatores relacionados ao padrão genético dos animais, ao aspecto nutricional, reprodutivo, ambiental, sanitário e de bem-estar animal e aos componentes de gerenciamento da atividade e disponibilidade de capital para investimentos (MUHLBACH, 2003).

Atualmente pesquisas científicas são direcionadas ao estudo de enfoques metabólicos e endócrinos ligados à nutrição de ruminantes de alta produção visando aumentar o desempenho produtivo e reprodutivo dos animais, por meio de um melhor aproveitamento dos alimentos da dieta alimentar, visto que o principal componente do custo da produção dos animais ruminantes são os alimentos. A melhoria do padrão e da eficiência da produção animal é um complexo sistema biológico que envolve interações de fatores hormonais, genéticos, metabólicos e nutricionais.

Em sistema de alimentação animal, o custo anual para a manutenção de vacas em reprodução varia entre 54 e 75%. Exigências nutricionais em energia são requeridas em grandes quantidades, sendo destinados 70% das exigências em energia a simples mantença dos animais. Em muitas áreas de produção animal, os sistemas de alimentação de vacas de reprodução são baseados em condições extensivas onde o suprimento de alimentos varia consideravelmente durante o ano agrícola sendo impraticável ou impossível a sustentação das exigências alimentares das vacas no meio natural. Consequentemente, este sistema de alimentação natural de fêmeas ruminantes, baseia-se no acúmulo de reservas corporais durante o período de plenitude de oferta de alimento, visando que estas reservas venham a ser utilizadas em períodos de escassez de alimentos para garantir a sobrevivência dos animais.

As categorias bezerros e vacas de alto potencial de produção de leite, particularmente, são classificadas como as categorias que necessitam enorme demanda de energia dietética para suprir o potencial genético requerido para ganho de peso (crescimento) e produção leiteira até o pico da lactação, respectivamente. Durante o período de pós-parto inicial, o consumo de nutrientes é frequentemente inadequado perante as exigências combinadas de mantença mais lactação. A lactação impõe-se como prioritária à demanda dos nutrientes neste estágio, fazendo com que as vacas mobilizem suas reservas corporais para sustentar a lactação, ao invés de utilizar a estratégia de redução de produção de leite. Logo, a função reprodutiva das vacas condiciona-se em ordem secundária pela demanda de nutrientes estabelecendo assim uma relação direta à nutrição.

Bom manejo nutricional minimiza perda de peso e otimiza produção de leite e eficiência reprodutiva, ou seja, vacas de alto potencial sem produção adequada = falhas do meio. Assim sendo o manejo nutricional será detalhado abaixo.

O período seco deve ser dividido em duas fases:

  • Da secagem até 21 dias antes do parto – fase de descanso do rúmen, cascos e glândula mamária. Os animais devem ser mantidos com uma dieta rica em alimentos volumosos de boa qualidade e devem ganhar peso de forma moderada.
  • De 21 dias até o parto– fase de preparação para uma nova lactação; inicia-se o fornecimento de concentrado com o objetivo de adaptação da microbiota ruminal para uma fase de grande fornecimento de grãos.

O período pós-parto deve ser dividido em três fases:

  • 0 a 70 dias em lactação – Balanço energético negativo  A produção de leite aumenta mais rápido que o consumo de alimentos, a demanda de energia é mais alta que a quantidade de energia consumida nos alimentos, a vaca mobiliza reservas corporais e perde peso.

Os nutrientes da dieta precisam estar ajustados para impedir perda de peso excessiva. A densidade da dieta precisa ser aumentada. Se a dieta não está adequada ocorre: queda na produção, excessiva perda de peso, baixo pico de produção e aumentam os riscos de cetose.

O uso excessivo de concentrados pode levar a: acidose ruminal, torção de abomaso, queda na percentagem de gordura do leite e depressão no consumo de alimentos.

  • 70 a 140 dias em lactação– Consumo máximo de matéria seca
    A produção de leite começa a diminuir e o consumo de matéria seca continua a aumentar. A demanda de energia para lactação pode ser mantida pelo consumo de alimentos e a vaca para de mobilizar reservas corporais.

Nesta fase as vacas precisam ingerir grande quantidade de alimentos para manter o pico de produção o maior tempo possível e ficar gestante. A quantidade de concentrado não deve exceder a 2,3% do peso vivo.

  • 140 a 305 dias em lactação– Balanço energético positivo
    A produção de leite e o consumo de alimentos reduzem. A vaca consome mais energia do que gasta com a lactação e as reservas corporais pode ser restabelecida. Animais estão ganhando peso. A dieta pode agora conter um volumoso de qualidade média e quantidade limitada de concentrado.

A expressão do potencial genético depende do manejo nutricional, sendo que maximizar a ingestão de energia no pós-parto e, consequentemente, da produção de leite, requer manejo apropriado em todas as fases do ciclo lactacional.

A seleção de bovinos leiteiros para a produção de leite correlacionou os controles endócrino e metabólico do balanço nutricional e os eventos reprodutivos, de tal forma que a reprodução em bovinos de leite fica comprometida durante períodos de escassez de nutrientes, como no início da lactação. O custo energético para sintetizar e secretar hormônios, ovular um folículo e sustentar o desenvolvimento inicial do embrião provavelmente é mínimo se comparado às necessidades energéticas para a manutenção e a lactação. As indicações metabólicas e endócrinas associadas ao balanço energético negativo (BEN) interferem na retomada dos ciclos ovulatórios, qualidade do ovócito e do embrião, e o estabelecimento e manutenção da prenhez em gado de leite.

À medida que aumentam as demandas pela síntese de leite, as funções reprodutivas podem ser deprimidas quando não se consegue uma ingestão compensatória de nutrientes. Numerosos estudos relatam que o desempenho reprodutivo é comprometido pelas demandas nutricionais associadas a altos níveis de produção. Como consequência, as vacas de alta produção terão algum grau de balanço negativo (BEN) de nutrientes durante o período inicial após o parto.

Durante as últimas décadas, a seleção genética e o melhor manejo dos rebanhos aumentaram de forma dramática a produção das vacas leiteiras, ao mesmo tempo em que a fertilidade diminuiu (GONZÁLEZ, 2004). A seleção para uma produção maior de leite em bovinos leiteiros mudou os perfis endócrinos das vacas, aumentando as concentrações sanguíneas de somatotropina bovina e prolactina, ao passo que a insulina diminuiu. Estas alterações hormonais e a maior demanda nutricional para a produção poderiam ter impacto negativo sobre a reprodução das vacas leiteiras. Contudo, foi demonstrado que uma nutrição adequada e um bom manejo compensam a queda na fertilidade dos rebanhos, com uma boa produção média de leite.

Várias estratégias nutricionais têm sido propostas para melhorar a reprodução de bovinos leiteiros sem efeitos prejudiciais sobre o desempenho da lactação. Espera-se que a reprodução destes bovinos se beneficie da maximização da ingestão de matéria seca (IMS) durante o período de transição, da minimização da incidência de problemas no periparto, da utilização de dietas que promovam maiores concentrações de insulina no início da lactação e da adição de gordura suplementar às dietas e da manipulação do teor de ácidos graxos (AG) das fontes de gordura.

Existem ainda muitas dúvidas sobre as interrelações entre nutrição e reprodução. A maior parte das pesquisas sobre o assunto foi feitas em países situados em regiões de clima temperado, com animais de alta produção. Sendo o Brasil um país situado, predominantemente, em clima tropical e com grande diversidade de sistemas de produção, nem sempre os resultados obtidos daqueles trabalhos podem ser extrapolados para nossas condições.

Nas condições do Brasil, o principal problema é o fornecimento de quantidades adequadas de energia. A utilização de forrageiras tropicais mal manejadas acentua este problema, principalmente, na época de seca. Nesse sentido, o aspecto mais importante é a adequação do número de animais que a propriedade pode ter em função da sua capacidade de produção de alimentos.

REFERÊNCIAS

GONZÁLEZ, F.H.D. Pode o leite refletir o metabolismo da vaca? In: DÜRR, J.W.; CARVALHO, M.P. de; SANTOS, M.V dos. O compromisso com a qualidade do leite no Brasil. Passo Fundo: UPF Editora, 2004. p.195-209.

MÜHLBACH, P.R.F. Nutrição da vaca em lactação e a qualidade do leite. In: I Simpósio de Bovinocultura de Leite (09 e 10 setembro 2003). Anais… Chapecó: SC, 2003, p. 25-43.

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