CaféCafé e Mercado

[Fundação Procafé] – Síntese do Mercado de Café: Jan/23 – “Oportunidade de Curto Prazo vs. Risco de Médio/Longo Prazo”

(Resumo do mês de Janeiro/2023)

No mês de janeiro/2023, dando sequência ao movimento baixista do final de dezembro/2022, o café chegou a bater a mínima de vinte meses, indo abaixo de 150,00 cents/lb, no dia 11/01/2023, na ICE Futures US (Bolsa de Nova Iorque). Do dia 12/01/2023 até o final do mês, iniciou-se um movimento de recuperação, com as cotações na Bolsa de Nova Iorque, saindo de uma patamar de 144,70 cents/lb para fechar em 181,70 cents/lb no último dia do mês. Já na Ice Futures Europe, Bolsa de Londres para café Robusta, de modo similar, após fechar no nível de USD 1.780,00/ton, um movimento de recuperação se iniciou levando as cotações do Robusta a um fechamento de USD 2.078,00/ton no último dia do mês. Os motivos? A seguir…

FATORES DE SUSTENTAÇÃO

Apesar do ambiente de incertezas logo no início do mês de janeiro, o cenário econômico global mais promissor foi importante fator para a recuperação das cotações de café observadas do dia 12 de janeiro em diante. Dentre as principais notícias relacionadas ao cenário econômico, destacam se:

No último dia do mês de janeiro, o Fundo Monetário Internacional elevou ligeiramente sua perspectiva de crescimento global em 2023 devido à resiliência na demanda geral dos Estados Unidos e da Europa, ao alívio nos custos de energia e à reabertura da economia da China depois que Pequim abandonou suas rígidas restrições contra a Covid-19.

Segundo o FMI, o crescimento global deve ficar em 2,9% em 2023, 0,2% acima de sua previsão anterior de 2,7%, porém 0,5% abaixo quando comparado com o crescimento de 2022, de 3,4%. Já para o ano de 2024, a atual perspectiva de crescimento global segundo a Entidade é de 3,1%, 0,1% abaixo de sua previsão anterior sob a justificativa de que a elevação das taxas de juros nas principais economias do mundo deve arrefecer a demanda, portanto, a atividade econômica. De um certo modo, a elevação da perspectiva atual de 2023, frente à previsão anterior, trouxe otimismo ao mercado;

Quanto à China, o FMI revisou suas perspectivas de crescimento para 2023, a 5,2% contra 4,4% na previsão realizada em outubro/2023. Em relação ao ano de 2022, os lockdowns na política de Covid Zero reduziram a taxa de crescimento da China para 3,0%, um ritmo abaixo da média global pela primeira vez em mais de 40 anos. Para 2024, O FMI prevê que a expansão da China cairá para 4,5% para depois, no médio prazo, se estabelecer abaixo de 4%, devido ao declínio de seu dinamismo empresarial e ao progresso lento de suas reformas estruturais;

Quanto aos Estados Unidos, o FMI elevou sua perspectiva para o PIB norte americano de 2023 em 0,4% quando comparado à sua previsão realizada em outubro/2023, indo para 1,4%. Esta nova perspectiva está 0,6% abaixo do crescimento de 2,0% no ano de 2022. A Entidade justificou a elevação na previsão atual com base no consumo e investimento mais fortes do que o esperado no terceiro trimestre de 2022, no mercado de trabalho robusto e na força de indicadores do consumidor. De fato, muita resiliência frente à estratégia de aperto monetário que o FED (Federal Reserve – Banco Central dos EUA) vem adotando para contenção da inflação;

Quanto à Zona do Euro, o FMI atualizou para 0,7% sua previsão de crescimento de 2023 para o Bloco, contra 0,5% na sua previsão realizada em outubro/2023. Apesar da revisão altista, o crescimento previsto para 2023 é ainda bem abaixo do crescimento de 3,5% ocorrido em 2022. A revisão positiva para o crescimento de 2023, de acordo com a Entidade monetária se deve ao fato de que a Europa vem se adaptando a custos mais altos de energia mais rapidamente do que o esperado associado a uma flexibilização dos preços da energia que vem ajudando a região;

O recuo do Dólar contra o Real também serviu de gatilho para o movimento de alta nas principais Bolsas de Café do mundo. A moeda norte americana, que chegou a ser cotada acima de R$ 5,40 no início do mês, fechou o mês abaixo de R$ 5,10. Já no mercado físico, a queda do Dólar contra o Real, prejudicou os preços e levou a parte vendedora a segurar, ainda mais, a oferta que já não vinha muito aquecida;

Alta do Petróleo que se estendeu até o dia 26/01 e alta do Índice CRB que, da mesma forma, se estendeu até o fim do mês de janeiro também serviram de sustentação ao mercado de café haja vista que indicam otimismo do mercado e refletem no apetite ao risco por parte de investidores.

Quanto aos fundamentos, vale lembrar que o atual momento é de pico de consumo em função do inverno no hemisfério norte. Atrelado a isso, o Brasil, principal fornecedor do mundo está entrando em período de entressafra, o que significa uma redução de sua oferta (seus embarques) nos próximos meses. De acordo com o Cecafé, os embarques de café totalizaram 2,843 milhões de sacas de 60 kg em janeiro deste ano, volume que implica queda de 16,8% na comparação com o primeiro mês de 2022. Já a OIC (Organização Internacional do Café) informou que as exportações globais de café de outubro a dezembro de 2022 caíram -2,8% quando comparado ao mesmo período do ano anterior, fechando em 30,27 milhões de sacas.

Apesar dos estoques certificados da Ice Future US, Bolsa de Nova Iorque, encerrarem o mês de janeiro com um leve incremento, totalizando algo em torno de 860 mil sacas certificadas, é pertinente destacar que há um ano atrás, estes mesmos estoques giravam na casa de 1,3 milhão de sacas, um volume que, quando comparado a períodos de oferta normal (isto é, sem as principais origens do mundo sendo afetadas pelas condições climáticas) é considerado baixo.

Na Bolsa de Nova Iorque, as perdas excessivas nas cotações, que chegaram a atingir níveis de preços inferiores a 150,00 cents/lb, estimularam um movimento de correção técnica, atraindo compradores e impulsionando a recuperação de patamares perdidos. O movimento de alta ao final do mês se intensificou na medida em que resistências (na parte superior do gráfico) foram rompidas, ocasionando, assim, à ativação de ordens de compras automáticas.

No mês de janeiro, a Conab soltou sua primeira previsão para a safra de 2023, estimando uma produção de 54,94 milhões de sacas, 7,9% acima da safra de 2022, estimada em 50,92 milhões de sacas. A produção de Arábica para 2023 foi estimada em 37,43 milhões de sacas contra 32,72 milhões de sacas produzidas em 2022, um incremento de 14,4%. A produção de Conilon para 2023 foi estimada em 17,51 milhões de sacas contra 18,20 milhões de sacas produzidas no ano de 2022, uma redução de 3,8%.

O IBGE também soltou sua primeira estimativa para a safra de 2023 que, segundo a Entidade deve totalizar uma produção de 55,33 milhões de sacas, um aumento de 5,7% em relação à sua estimativa para a safra de 2022. A produção de café Arábica foi projetada em 38,57 milhões de sacas, aumento de 13,7% frente ao ano anterior. A produção de café Conilon foi projetada em 16,76 milhões de sacas, declínio de 8,9% frente ao ano anterior.

Ainda, no que tange a safra brasileira de café Arábica 2023, a Volcafé reduziu sua estimativa anterior, de julho, em -9,30 milhões de sacas, prevendo agora uma produção de 40,5 milhões de sacas de Arábica, contra 49,8 milhões previstas em julho. A nova estimativa de produção da Volcafé para o café Arábica reflete uma alta de 11% em relação à safra de 2022. Ainda de acordo com a trader suíça, a produção para o Robusta deve ficar em 22,5 milhões de sacas, uma queda de 8% em relação à safra passada.

O Rabobank projetou uma produção global para o ciclo 2023/24 em 174,8 milhões de sacas contra uma demanda projetada em 173,2 milhões de sacas, portanto, um leve superávit de 1,6 milhão de sacas, superávit inferior à sua estimativa anterior que previa uma sobra na ordem de 4 milhões de sacas. Assim, é possível concluir que o balanço entre oferta e demanda para o ciclo 2023/24 deve beirar o equilíbrio e qualquer problema de ordem climática na produção pode ocasionar mais um ano de déficit, uma situação crítica frente aos atuais níveis de estoques.

Um fator de sustentação, especialmente para o Robusta, é que o Departamento Geral de Alfândega do Vietnã informou recentemente que as exportações de café do Vietnã em janeiro de 2023 caíram -27,7%, totalizando 2,38 milhões de sacas. Atrelado a isso, os estoques de café Robusta seguem em queda na ICE Futures Europe e já bateram o menor número desde 2016, indo abaixo de 6.000 lotes.

De acordo com a Federação Nacional dos Cafeicultores, as exportações de café da Colômbia em janeiro de 2023 tiveram uma queda de 19% em relação ao ano passado, fechando em 835 mil sacas. Ainda de acordo com a Entidade, o café colombiano iniciou o ano com múltiplos desafios provenientes de condições climáticas adversas devidos aos efeitos do fenômeno La Niña, que continuam impactando na produção. Segundo a Federação, embora as condições climáticas adversas causadas pelo La Niña têm começado a dar sinais de melhora, a florada e a formação dos frutos foram afetadas e, com isso, a produção de janeiro/2023 manteve o mesmo patamar do ano passado, fechando em 868 mil sacas.

FATORES DE PRESSÃO (BAIXA)

No início do mês, mercado seguiu extremamente frágil ao cenário econômico global e no aguardo de notícias mais concretas quanto à safra brasileira de 2023.

No que tange o cenário econômico global, nos primeiros dias do mês de janeiro, tanto o mercado de ações quanto o de commodities, deram fortes indícios de como deveria ser o início do ano de 2023: repleto de incertezas por parte dos investidores e players do mercado em relação à economia mundial, sobretudo, nos dois principais motores do mundo, EUA e China. As incertezas econômicas nas duas principais economias do mundo tende a gerar dúvidas também nos fundamentos, uma vez que podem impulsionar ou reprimir a atividade econômica mundial, com impacto direto na demanda das commodities, abrangendo o consumo de café.

Apesar das revisões positivas do FMI em relação ao crescimento do PIB para 2023, conforme exposto acima, no dia 1º de fevereiro, o FED elevou a taxa básica nos Estados Unidos em 0,25 ponto percentual. Com um intervalo de 4,50% a 4,75% ao ano, a decisão está em linha com as expectativas do mercado financeiro. De acordo com diversos analistas econômicos, a autoridade monetária dos EUA está cada vez mais próxima de conter a inflação do país, terminando assim ciclo altista (de inflação). Para este caso específico, a grande dúvida que fica é: conseguirá realmente o FED conter a inflação do maior consumidor de café do mundo sem passar por uma recessão??

O clima recentemente favorável, com chuvas propícias à granação seguiram ditando o sentimento dos players do mercado em relação a uma safra brasileira volumosa para o ano de 2023. Entretanto, é válido ressaltar que, muito embora o clima atual esteja totalmente favorável para potencializar a carga dos frutos que já estão no cafeeiro, ele não trará frutos adicionais ao cafeeiro, ou seja, não haverá novas floradas para a safra de 2023. Portanto, os ganhos são limitados. E, apesar de uma safra maior do que as colhidas nos últimos dois anos, dados da Conab e do IBGE tornam claro que a produção de 2023 está longe de alcançar o patamar recorde de 2020.

Os estoques certificados da Ice Future US, Bolsa de Nova Iorque, seguiram subindo, se aproximando de 1 milhão de sacas de 60 kg, número ainda baixo quando comparado com o mesmo período de um ano atrás quando os estoques giravam na casa de 1,5 milhão de sacas de 60 kg.

Fatores técnicos também tiveram seu peso para que as cotações de café na Bolsa de Nova Iorque atingissem a mínima de vinte meses. O mercado que, nos últimos dois meses do ano de 2022, diante a falta de novidades fundamentais, não teve força para romper a resistência de 175,00 cents/lb, também não teve força para romper o suporte de 150,00 cents/lb. Quando o suporte foi rompido, ordens automáticas de vendas foram ativadas levando as cotações abaixo de 145,00 cents/lb no dia 11 de janeiro.

Se por um lado a queda do Dólar frente ao Real colaborou para a recuperação parcial das cotações nas Bolsas, no mercado físico, colaborou para a desvalorização dos preços do café.

MENSAGEM AOS CAFEICULTORES

“É importante que o produtor tenha e mente o fato de que, caso o clima siga favorável, uma safra brasileira de café volumosa poderá ser colhida no ano de 2024, o que significa risco de quedas mais acentuadas nas cotações, sobretudo, no último trimestre deste ano. Desta forma, é válido que o produtor não assuma riscos maiores, faça médias de preços aproveitando o cenário favorável para as cotações no curto prazo para se posicionar de modo mais seguro, não somente no curto prazo, mas também no médio e longo prazo. Portanto, de modo seguro e sem exageros, aproveitem as oportunidades que o mercado deve propor no primeiro semestre e diluam o risco futuro. Mas, atenção, sem excessos, pois o clima pode não colaborar…”

Varginha (MG), 10 de fevereiro de 2023.

Analista: João Marcelo Oliveira de Aguiar
Superintendente Executivo – Fundação Procafé

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