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Revista Attalea Agronegócios
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ARTIGOS Café

[Davi Moscardini] – Novos conceitos para a implantação de cafezais de alto potencial

Davi Moscardini

Eng. Agrônomo, Mestrando em Fitotecnia pela ESALQ/USP

Incentivada pelos bons preços dos últimos anos a cafeicultura tem expandido cada vez mais nas regiões tradicionais e também para regiões marginais, antes consideradas inaptas para o cultivo do cafeeiro. Em tempos de outrora, só se plantava café nas antigas terras roxas estruturadas, de excelente fertilidade químico-física, algo que definitivamente ficou para trás, haja vista a quantidade de lavouras de café de boa produtividade instaladas em solos de textura arenosa e de baixa disponibilidade inicial de nutrientes, como latossolos de textura média e até mesmo neossolos quartzarênicos.

Algumas técnicas se mostram de grande valia para o bom desenvolvimento inicial e formação do cafezal, tanto em áreas consideradas ideais ao cultivo, mas principalmente em áreas de manejo mais delicado, onde não é possível contar com o uso de irrigação.

Preparo profundo de solo

Tradicionalmente o preparo do terreno para o plantio de café é realizado mediante a incorporação dos corretivos em área total, seguido da abertura do sulco e adição dos fertilizantes fosfatados, calcário e esterco, a uma profundidade de no máximo 30 cm.

Sabe-se, porém, que o café é uma planta perene que pode desenvolver raízes a até três metros de profundidade se fornecidas condições químicas adequadas, como teores suficientes de cálcio, fósforo, boro e ausência de alumínio. São necessárias também condições físicas de solo adequadas como o rompimento de camadas adensadas, que impedem o crescimento radicular e a difusão de oxigênio, elemento fundamental para o desenvolvimento de raízes.

Aplicando estes conceitos muitos cafeicultores enxergam no preparo vertical uma estratégia interessante para propiciar a exploração de camadas de solo mais profundas, que possam fornecer água ao cafeeiro por mais tempo no caso de veranicos e secas, que a cada dia ocorrem com mais frequência. Na prática já se observam vários casos de lavouras implantadas no sistema de preparo profundo associado a gesso, resistindo bem ao déficit hídrico em relação a lavouras convencionais, de sistema radicular superficial.

O preparo profundo é realizado com uma haste subsoladora que pode incorporar fertilizantes fosfatados ou calcário a até 90 cm de profundidade. Uma alternativa promissora é a aplicação de termofosfato magnesiano, um fertilizante fosfatado de alta eficiência agronômica. Sua vantagem em relação às outras fontes é o fornecimento de micronutrientes, a liberação gradual e a reação alcalina, que diminui a fixação de fósforo e a presença de alumínio tóxico. Outra boa opção para melhorar o ambiente para o desenvolvimento radicular é utilizar calcário na haste subsoladora, pois este corretivo neutraliza o alumínio e fornece cálcio, nutriente obrigatório para a formação de raízes.

Figura 1. Haste subsoladora. Setas indicam saídas para adubos e corretivos. Fonte: Paces – ESALQ.

 

Plantas de cobertura

O solo possui atributos químicos, físicos e biológicos. Se um destes componentes colapsa, todo o sistema de produção pode ser comprometido. Foi observando os grandes benefícios proporcionados pelo sistema de plantio direto que consultores e cafeicultores apostaram no uso de plantas de cobertura em consórcio com o cafeeiro para amenizar os efeitos das intempéries climáticas e melhorar os atributos de solo.

Após o preparo profundo do sulco é realizado o plantio das plantas de cobertura na entrelinha. Na Figura 2 as plantas de cobertura utilizadas foram milheto e braquiária. Cada planta é utilizada para uma finalidade.

Figura 2. Plantas de cobertura em desenvolvimento antes do plantio de café. Sulco realizado mediante preparo vertical e alinhado com GPS.
Figura 3. Café implantado e plantas de cobertura já estabelecidas – Faz. Grama, Arceburgo/MG.

O milheto pode chegar a 1,5 m de altura, o que o torna um excelente quebra-vento na entrelinha. Com a realização da roçada alternada é possível manter as mudas de café protegidas dos ventos, que podem entortar os caules e facilitar a disseminação de doenças. A braquiária é semeada em conjunto e vai persistir no sistema após a roçada, pois é perene, ao contrário do milheto. Esta é a planta mais importante do consórcio, pois possui sistema radicular agressivo e produz grande quantidade de matéria seca de relação C/N mais alta, que persistirá por mais tempo cobrindo o solo.

Quando as plantas de coberturas atingem o ponto de corte, é utilizada uma roçadeira ecológica para direcionar o material ceifado sob as mudas de café.

 

Figura 4. Solo protegido pelo resíduo das plantas de cobertura.

Os principais benefícios desta prática são:

1) Diminuição da temperatura do solo: Quando a temperatura do solo atinge 33°C, parte das raízes absorvedoras morrem (FRANCO, 1958). A proteção do solo com a palhada impede a incidência direta de luz e diminui a temperatura, tornando o ambiente mais propicio ao desenvolvimento radicular.

2) Diminuição da perda de água: Após as chuvas, o solo protegido com palha conserva a umidade por mais tempo. Nos meses secos a cobertura do solo com palhada de braquiária reduz em até 49% a perda de água em relação ao solo descoberto (PEDROSA, 2013).

  • Supressão de plantas daninhas: A braquiária é uma gramínea agressiva que domina a área após sucessivas roçadas. Desta forma ocorre diminuição da germinação do banco de sementes que pode conter propágulos de plantas indesejáveis como a corda-de-viola, buva, amargoso e trapoeraba.

4) Fornecimento de nutrientes: A braquiária absorve os nutrientes necessários para seu desenvolvimento na entrelinha e depois de roçada os libera de forma lenta e gradual para a muda de café, sendo um complemento às adubações.

  • Outros: Além de todos os benefícios citados acima a braquiária também melhora a estrutura do solo pela formação de agregados, aumenta o teor de matéria-orgânica e fósforo no solo, diminui a população de nematóides do gênero Meloydogine, diminui a erosão causada pelo escorrimento superficial de água, aumenta a atividade biológica do sistema e serve de abrigo para inimigos naturais de pragas do cafeeiro.
Figura 5. Mudas após 100 dias de plantio após segunda roçada ecológica, agora com predominância apenas da braquiária.

CONCLUSÃO

            O custo de implantação do cafezal sobe a cada ano e práticas que ajudem no seu desenvolvimento e produtividade são extremamente desejáveis para que o retorno do capital investido ocorra mais rápido. É preciso ter em mente que o cafeeiro é uma planta perene, portanto não parece ser uma decisão inteligente economizar em itens como preparo de solo, mudas de qualidade e insumos, se tratando de um investimento que é feito para durar mais de 15 anos.

O uso do preparo profundo de solo e de plantas de cobertura são estratégias que tem mostrado grande potencial para mitigar os riscos inerentes à produção de café. Estas práticas funcionam porque dentre outros benefícios, facilitam o acesso do cafeeiro ao insumo mais limitante da agricultura, a água. Que a exceção do plantio de café consorciado se torne a regra, assim como o plantio direto na palha, desta forma, daremos o grande passo em direção a produção de cafés mais sustentáveis.

REFERÊNCIAS

FRANCO, C.M. Influência da temperatura no crescimento do cafeeiro. New York: IBEC Research Institute, 1958. 27p. (n.16).

PEDROSA, A.W. Eficiência da adubação nitrogenada no consórcio entre cafeeiro e Brachiaria brizantha. 2013. Tese (Doutorado em Fitotecnia) – Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, Universidade de São Paulo, Piracicaba, 2013. doi: 10.11606/T.11.2013.tde-15032013-101246. Acesso em: 2018-01-30.

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