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Revista Attalea Agronegócios
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ARTIGOS Café

[Davi Moscadini] – Adubação nitrogenada de inverno, uma abordagem científica.

Davi Moscardini

Eng. Agrônomo, Mestrando em Fitotecnia pela ESALQ/USP.  E-mail: moscardini@usp.br

 

Nos últimos meses as mídias sociais e veículos ligados à cafeicultura foram inundados com opiniões sobre a ainda polêmica antecipação da adubação no cafeeiro.

Tradicionalmente a adubação no cafeeiro é retomada cerca de vinte a trinta dias após a abertura da florada, coincidindo com o início das chuvas e ocorrendo muitas vezes na primeira semana de novembro. Desta forma surgiu uma tradição que enfatiza a realização da primeira parcela de adubação na semana do feriado de finados.

Muitos consultores e técnicos, porém, estão recomendando antecipar a realização do primeiro parcelamento da adubação no cafeeiro, argumentando que a retomada do crescimento vegetativo é mais rápida e que as plantas retornam do período seco com mais vigor. Outros profissionais argumentam, no entanto, que as flores são um dreno de baixa exigência nutricional não justificando assim a aplicação de nitrogênio antes da antese, pois a quantidade de N presente no solo e nas reservas da planta já seria suficiente para suprir as exigências nutricionais da florada.

O ponto chave desta questão, porém, é que a adubação de inverno não tem como objetivo suprir somente a demanda nutricional das flores, que de fato não é muito elevada, mas principalmente antecipar o fornecimento de nitrogênio para a retomada do desenvolvimento vegetativo quando as chuvas retornarem.

Depois da adubação são necessários cerca de vinte a trinta dias para elevar o teor de N nas folhas do terço médio no cafeeiro. Além disso, a adubação ainda pode atrasar por diversos motivos como, por exemplo, o retorno das chuvas, que muitas vezes impede o tráfego de máquinas na lavoura. Portanto, antecipar a primeira parcela de adubação é uma forma simples de evitar que a planta demore a ter acesso ao nutriente mais demandado pelo seu metabolismo.

Com base em pesquisas sobre este controverso tema, alguns tópicos são discutidos, buscando fornecer informações aos produtores e técnicos que ainda têm dúvida sobre a realização desta prática.

Porque antecipar a adubação nitrogenada?

A principal fonte de carboidratos para o desenvolvimento das flores e frutos vem da fotossíntese realizada no par de folhas adjacentes ao botão floral/frutos e não de reservas. A fotossíntese é um processo muito dependente do estado nutricional da planta, pois o seu bom funcionamento (produção de sacarose e exportação para locais de demanda) está diretamente atrelado ao fornecimento de nitrogênio (N).

A relação N x fotossíntese é muito importante. O nitrogênio é o principal componente de proteínas e de modo geral, até 50% da proteína foliar encontrada em uma planta de metabolismo C3, semelhante ao cafeeiro, está representada pela enzima Ribulose – 1,5 – Bisfosfato Carboxilase/Oxigenase, também chamada Rubisco. É esta enzima que capta o gás carbônico (CO2) da atmosfera para formar a sacarose. Em outras palavras, se faltar nitrogênio, falta Rubisco, falta sacarose e faltará carbono para o crescimento de frutos. Ou seja, é pela Rubisco que se dá o aumento na produção de biomassa, que é o que realmente interessa do ponto de vista prático. A fotossíntese manterá não só os frutos, mas também o crescimento de novas folhas e brotações na planta, onde ocorrerá a produção do ano seguinte.

Surge então o argumento de que o solo poderia fornecer este nutriente nas quantidades adequadas às plantas. Apesar do solo ser uma grande reserva de nitrogênio, apenas 2-3%  está disponível às plantas e sua dinâmica é extremamente complexa, podendo ser afetado por diversos processos como lixiviação, mineralização, imobilização, desnitrificação e volatilização.

Outro questionamento é de que a planta poderia então remobilizar reservas de N em quantidade suficiente, portanto não seria necessário aplicar nenhuma fonte deste nutriente no sistema. No entanto, a menor concentração de N foliar durante todo o ciclo do cafeeiro acontece justamente antes da antese, pois a carga de frutos anterior remobilizou grande parte das reservas de N do cafeeiro. Portanto, é imprudente e arriscado, pressupor que o solo e ou as reservas da planta são fontes satisfatórias para suprir a demanda nutricional de N do cafeeiro neste período.

Gráfico: Concentração de N em folhas de cafeeiro em função do tempo decorrido em relação a antese em cada dose de N (kg/ha). Setas indicam início e fim da aplicação (PAULA NETO, 2010).

Os cafeeiros estão ativos o suficiente para receberem adubações no inverno?

Outra dúvida recorrente é se as plantas são capazes de metabolizar e absorver nutrientes após o forte estresse da colheita e em decorrência da menor disponibilidade hídrica do período seco. As pesquisas mostram que a absorção de nutrientes e o transporte no xilema são menores, mas são processos ativos mesmo no inverno.

Nesta época existe pequeno crescimento de parte aérea e as raízes continuam fisiologicamente ativas. Como não ocorre paralisação da fotossíntese no inverno, as raízes ainda conseguem crescer nesta época. Ocorre também acúmulo de diversos compostos como aminoácidos e reguladores de crescimento que posteriormente serão remobilizados para a parte aérea e auxiliarão no crescimento quando as chuvas retornarem.

Conclusão

O fornecimento de N deve ser feito antes da florada do cafeeiro, pois a maior demanda por este nutriente se dá da floração até a granação. Desta forma o cafeeiro terá acesso ao nitrogênio necessário à floração e posterior vegetação antes da antese, garantindo a manutenção do potencial produtivo.

A resistência a um novo conceito é natural e benéfica para que a novas tecnologias sejam escrutinadas e avaliadas pelo maior número de críticos possíveis. Para os mais conservadores, a adoção desta técnica pode ser feita em caráter experimental e posteriormente ter sua eficiência validada.

Como profetizou o escritor americano Buckminster Fuller: “Nunca se muda uma realidade lutando contra ela. Para se mudar algo, é necessário criar um novo modelo que torna o modelo existente obsoleto”. Talvez esta seja a frase mais adequada para descrever os atuais paradigmas da cafeicultura brasileira.

Referências Bibliográficas

MALAVOLTA, E.; FAVARIN, J. L.; MALAVOLTA, M.; CABRAL, C.P.; HEINRICHS, R.; SILVEIRA, J.S.M. Repartição de nutrientes nos ramos, folhas e flores do cafeeiro. Pesquisa Agropecuária Brasileira, Brasília, v.37, n. 7, p.1017-1022, 2002.

MOSCARDINI, D. B.; FAVARIN, J. L. Mobilização de açúcares solúveis totais pelos grãos de café (Coffea arabica L.) em desenvolvimento. In: 25° Simpósio Internacional de Iniciação Científica e Tecnológica da USP, 2017. Piracicaba.

PAULA NETO, Ana. Metabolismo do nitrogênio e concentração de nutrientes no cafeeiro irrigado em razão da dose de N. 2009. Dissertação (Mestrado em Fitotecnia) – Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, Universidade de São Paulo, Piracicaba, 2010. Doi:10.11606/D.11.2010.tde-18022010-140953. Acesso em: 2017-11-22.

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