CaféCafé e Mercado

[Celso Vegro] – “Um Dragão em Alerta”

CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO
Engenheiro Agrônomo e pesquisador do Instituto de Economia Agrícola (IEA)
Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo (SAA/SP – APTA/SP)

celvegro@sp.gov.br

Há pelo menos duas décadas, os mais destacados analistas da cena global apontam para o progressivo deslocamento do eixo do comércio mundial do Atlântico para o Pacífico, tendo a China como principal vetor das trocas de bens e serviços, favorecida que foi pela massiva transferência de filiais das grandes transnacionais para seu território, buscando de vantagens propiciadas pela oferta de mão de obra capacitada.

De fato, a China se converteu no grande fornecedor global de todo tipo de mercadoria manufaturada e, paralelamente, firmando-se como o maior importador global de agroalimentos. Tal posicionamento favoreceu o mundo todo ao contribuir para um longo período de baixa inflação, impulsionando os embarques de países líderes em produção de alimentos.

Ainda que tradicional tomador de chá o ritmo de ocidentalização do gigante asiático tem conduzido a uma crescente preferência pelo café, especialmente, entre os mais jovens residentes nos cinturões metropolitanos chineses. Segundo Li (2023), 

“o número de cafeterias na China atingiu 148.000, equivalente a 10,5 estabelecimentos para cada 100 mil pessoas. No último ano, foram inauguradas 53 mil novas lojas, o que representa um aumento líquido de 19.5001”.

O boom de cafeterias na China é um fenômeno que alcança também a outras nações asiáticas como Coréia2, Tailândia e Filipinas. Em alguma medida, a China percorre a mesma trajetória seguida pelo Japão ao tornar o café a bebida mais consumida em seu território, ainda que muito distante da nação do sol nascente ou de outros mercados consolidados, pois os chineses consomem em média apenas 4 a 5 xicaras de café ao ano, frente a 360 xícaras/per capita dos japoneses.

Na temporada 2022/23, a produção cafeeira na China atingiu 1,7 milhão de sacas, representando 1% da produção mundial3. Por sua vez, na temporada 2021/22, as importações de café chinesas totalizaram 4,0 milhões de sacas, demonstrando o impulso que o consumo doméstico tem oferecido a expansão desse mercado4. 

Os embarques de café brasileiro (grão verde, T&M e solúvel) para a China com exceção de 2018 para 2019 tiveram variação positiva de dois dígitos tanto para quantidades como para valores (Tabela 1).

Considerando que a demanda alcança 4,0 milhões de sacas, o Brasil, respondeu por pouco mais de 10% do consumo chinês em 2022. Todavia, 2023 mostra um desempenho muito promissor para os negócios com café brasileiro no mercado chinês. Entre janeiro e outubro do corrente ano os embarques somaram 947,4 mil sacas (Tabela 2).

Em 2018, a China, figurava na 30a colocação no ranking dos maiores clientes internacionais do café brasileiro. Transcorridos cinco anos, a posição ocupada saltou para o 10o lugar! Em toda a história do comércio exterior de café brasileiro, nenhum outro mercado exibiu tamanha evolução em tão curto espaço de tempo como o caso chinês. 

Considerando o ritmo acelerado tanto de urbanização como de abertura de novas cafeterias e, ainda, a estagnação da produção chinesa em patamar abaixo de 2,0 milhões de sacas, a expansão do consumo na terra do dragão traz oportunidades formidáveis para os Cafés do Brasil.

1 CHINA2BRASIL. Café na terra do chá leva a concorrência aquecida em mercado de cafeterias da China. Traduzido por Mei Zhen Li. Exame Agro (jun./23). Disponível em: https://exame.com/agro/cafe-na-terra-do-cha-leva-a-concorrencia-aquecida-em-mercado-de-cafeterias-da-china/ (acesso em 23/11/2023).

2 O posicionamento estratégico do café brasileiro na Ásia se fortalece pois, se constitui no maior fornecedor de café aos países com elevadíssima exigência de qualidade como Coreia do Sul e Japão. Essa referência na Ásia favorece o Brasil em se consolidar como grande exportador de café para os chineses nos próximos anos.

3 Ver: https://fas.usda.gov/data/production/commodity/0711100 (acesso em 23/11/2023).

4. Ver: https://apps.fas.usda.gov/newgainapi/api/Report/DownloadReportByFileName?fileName=Coffee%20Imports%20Show%20Strong%20Growth%20Potential_Beijing_China%20-%20People%27s%20Republic%20of_CH2022-0034 (acesso em 23/11/2023).

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