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Revista Attalea Agronegócios
Abelhas ARTIGOS

[Bethania Sávia Oliveira] – Alimentação artificial para abelhas Apis mellifera L. africanizadas no período da entressafra

BETHANIA SÁVIA OLIVEIRA
Mestranda em Zootecnia, Instituto Federal Goiano –
Campus Rio Verde, (IF Goiano), Rio Verde, GO, Brasil.  

PATRICIA FAQUINELLO
Professora Doutora – Departamento de Zootecnia,
Instituto Federal Goiano – Campus Ceres, (IF Goiano), Ceres, GO, Brasil.

  Email:- betasavia@gmail.com

 

As abelhas necessitam de nutrientes como proteínas, carboidratos, sais minerais, vitaminas e lipídeos para seu crescimento e desenvolvimento. A ausência deles causa impactos desfavoráveis na manutenção, desenvolvimento e reprodução das colônias, além de facilitar o aparecimento de doenças (MORAES, 2017).

Além disso, as abelhas necessitam de água principalmente para suprir as necessidades fisiológicas como em todos os seres vivos, mas também é utilizada para manter a umidade e temperatura no interior da colônia, assim como para diluição do mel e preparo de alimentos para larvas (LENGLER, 1999).

As fontes nutricionais naturais disponíveis para as abelhas são o néctar e o pólen. O néctar fornece os carboidratos e servem como fonte de energia às abelhas, sendo utilizado para geração de calor, voo, produção de cera e do alimento larval, síntese de matéria orgânica, contração muscular, condução de impulsos nervosos, produção de aminoácidos, cera, entre outros (STANDIFER et al., 1977; GIROU, 2003). Já o pólen são fonte de proteínas, lipídeos, minerais e vitaminas essenciais ao metabolismo desses insetos (ROSA et al., 2015).

O estresse nutricional causado pela escassez de alimentos ou, a disponibilidade de alimentos de baixo valor nutricional, pode levar a uma redução na atividade metabólica das abelhas (WANG et al., 2016). Dessa forma, estabelece-se um desequilíbrio populacional que gera o enfraquecimento ou a morte da colônia, além da queda da produção e produtividade. Isso faz com que seja necessária a suplementação alimentar em períodos de pouco florada, evitando a perda de colônias e a diminuição da produtividade (COELHO et al., 2008).

As exigências nutricionais são diferentes entre crias e adultos. Elas são reguladas de acordo com a idade, função dos adultos na colônia, época do ano e taxa metabólica (PEREIRA et al., 2011). Assim, as colônias devem ser alimentadas tão logo seja identificado o enfraquecimento das mesmas, não existindo uma época certa para a alimentação, uma vez que este período varia de acordo com a região e o objetivo da criação.

Alguns fatores determinam a necessidade de fornecimento da alimentação artificial como a quantidade de cria, o estado geral da colônia, a quantidade e qualidade de néctar e pólen coletados pelas abelhas (STANDIFER, 1977). Diversos estudos demonstram o uso de alimentação artificial fornecido durante a realização de serviços de polinização, produção de cera, geleia real, própolis e para prevenir a mortalidade de crias causada pela coleta de pólen oriunda de plantas tóxicas.

Quando se trata em período de entressafra, ou escassez alimentar, os apicultores costumam fornecer alimentos alternativos para suas colônias. Esse manejo tem como base diminuir os efeitos negativos que as colônias de abelhas passam durante este período em que os recursos alimentares são drasticamente reduzidos, e garantindo assim a sobrevivência e bom desempenho da colônia (MANNING, 2018), independentemente do objetivo da criação.

Figura 1 – Apis mellifera L. na flor do Melão. (Créditos: Breno Freitas)

Alimentação Energética

Alimentação artificial energética, também conhecida como alimentação de subsistência, é utilizada em condições de laboratório ou de campo. Tem como o objetivo proporcionar as abelhas adultas uma maior longevidade e manter as colônias com uma elevada densidade populacional, aumentar a postura de ovos pela rainha, manter as colônias com uma elevada densidade populacional e auxiliar na termo regulação (PAULINO, 2004; ALCÁRCEL, 2011).

Quando há uma redução da disponibilidade de alimentos na natureza pode haver a necessidade de suplementação alimentar para manutenção ou estímulo à produção das colônias. Dessa forma o uso da alimentação energética torna-se a prática ideal, pois, pode ajudar na manutenção e produção de colônias (OLIVEIRA et al, 2021).

Assim durante as revisões periódicas no apiário o apicultor deve observar a entrada de néctar e a presença de mel estocado nas colmeias. Caso esses recursos não estejam disponíveis deve ser fornecida alimentação energética.

Diversos são os alimentos energéticos que podem ser usados no preparo da alimentação artificial para abelhas como: mel e açúcar, xarope de açúcar, xarope de açúcar invertido, xarope de milho, rapadura de cana-de-açúcar (fornecida em forma de pasta) e garapa de cana-de-açúcar. Sendo que o xarope de açúcar é o alimento energético mais utilizado na alimentação das abelhas (PAULINO, 2013). A proporção dos ingredientes pode ser adequado de acordo com a necessidade e custos do apicultor.

Figura 2 – Alimentação Energética Artificial no alimentador tipo Boardman. (Créditos: Thiago Lira)

Alimentação proteica

O pólen é essencial para que as abelhas nutrizes desenvolvam suas glândulas hipofaringeanas e mandibulares. Essas glândulas atuam diretamente na secreção de geleia real que é utilizada na nutrição de larvas, rainhas, abelhas adultas e zangões (PINTO et al., 2012). A falta de pólen compromete o desenvolvimento dessas glândulas, prejudicando a alimentação da rainha e das crias presentes nas colônias, de inibir o desenvolvimento das glândulas cerígenas que atuam na secreção de cera (BRODSCHNEIDER & CRAILSHEIM, 2010) e prejudicando o crescimento e desenvolvimento da colônia.

Um declínio na acessibilidade e o conteúdo de proteínas do pólen coletado pelas abelhas pode resultar em menor desenvolvimento das glândulas hipofaringeanas (DI PASQUALE et al., 2013). Como consequência poderá haver menor estímulo da postura da rainha, menor área de cria, menor longevidade, eventualmente implicando em uma diminuição da expectativa de vida das abelhas (KHOURY et al., 2011).

Sendo assim, é definido como substituto de pólen qualquer material que, quando fornecido às colônias de abelhas, supre as necessidades nutricionais do pólen por um curto período de tempo (HERBERT JR, 1979). Nenhuma mistura artificial substitui com precisão a composição da mistura de pólen natural entrando na colmeia, mas é possível utilizar métodos e produtos que se assemelhem ao efeito do pólen floral (SALOMÉ, 2020).

Vários materiais têm sido elaborados e pequisados por apicultores e pesquisadores com intuito de serem utilizados na produção de dietas proteicas artificiais para as abelhas como forma de evitar o enfraquecimento das colônias (CREMONEZ, 2001), sempre levando em consideração ao custo e disponibilidade desses ingredientes. Dentre eles podemos citar o uso do farelo ou farinha de soja, levedura de cana-de-açúcar, farelo de trigo, glutenose de milho, farelo de polpa de citros, entre outros (LENGLER, 2000).

Independente do tipo de alimento utilizado é importante a realização de estudos que mostrem a aceitação e consumo desses alimentos alternativos, sua ação no desempenho e desenvolvimento da colônia, além de fatores como longevidade das abelhas.

Além disso, a indicação do uso da alimentação energética ou proteica deve ser avaliada de forma individual para cada colônia. Devem ser fornecidas somente em necessidade particular, ou em períodos de escassez de alimento natural no campo, avaliando os recursos alimentares estocados na colônia. Da mesma forma o tipo de alimento a ser utilizado vai depender do custo dos ingredientes para que não comprometa o lucro final do apicultor.

Figura 3 – Alimentação Artificial Proteica

Considerações Finais

Os estudos mostram que o uso desses alimentos e a elaboração de suplementos nutricionais para as colônias beneficiam a criação de abelhas e promovem o desenvolvimento da apicultura.

Ainda assim é importante considerar que nenhum alimento alternativo substitui completamente os alimentos naturais oriundos da florada. Sendo neste caso importante ao apicultor, antes de tudo, realizar conjuntamente um controle e um calendário apícola da propriedade, utilizando a suplementação alimentar quando houver real necessidade.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALCÁRCEL, L. C. R. Avaliação de formulações alimentares no desenvolvimento de colônias de abelhas africanizadas (Apis mellifera Linnaeus, 1758) na savana amazônica de Roraima – Dissertação de Mestrado, 2011. 69 p.

ALTAYE, SZ, PIRK, CWW, CREWE, RM, & NICOLSON, SW (2010). Convergência da ingestão tendenciosa de carboidratos alvos em abelhas trabalhadoras enjauladas alimentadas com diferentes fontes de proteína. Journal of Experimental Biology, 213, 3311-3318. DOI: 10.1242 / jeb.046953

COELHO, M. S.; SILVA, J. H.; OLIVEIRA, J. H. V. (2008). Alimentos convencionais e alternativos para abelhas. Revista Caatinga, 21(1), 01-09.

CRAILSHEIM K. O balanço de proteínas da abelha operária. Apidologie. 1990; 21 (5): 417-29

CREMONEZ, T.M. Influencia da nutrição sobre aspectos da fisiologia e nutrição de abelhas Apis mellifera. Ribeirão Preto, 2001, 87p. Tese (Doutorado em Entomologia). Faculdade de Filosofia Ciência e Letras – Universidade de São Paulo

DI PASQUALE, G.; SALIGNON, M.; CONTE, Y.L. et al. Influence of pollen nutrition on honey bee health: do pollen quality and diversity matter? Plos One, v.8, p.e72016, 2013.

LENGLER, S. 2000. Alimentação artificial de abelhas. In: XIII CONGRESSO BRASILEIRO DE APICULTURA, Florianópolis, SC, 98-102

MANNING R. Alimentação artificial de abelhas com base no entendimento de princípios nutricionais. Amin Prod. Sci. 2018; 58 (4): 689-703.

MORAIS, M.M.; TURCATTO, A.P.; FRANCOY, T.M. et al. Evaluation of inexpensive pollen substitute diets through quantification of haemolymph proteins. Journal of Apicultural Research, v.52, p.119-121, 2013a.

ROSA, A. S.; FERNANDES, M. Z.; FERREIRA, D. L.; BLOCHTEIN, B.; PIRES, C. S. S.; Imperatriz Fonseca, V. L. (2015). Quantification of larval food and its pollen content in the diet of stingless bees – subsidies for toxicity bioassays studies. Brazillian Journal of Biology, 75(3), 771-772.

PAULINO, F.D.G. Alimentação em Apis mellifera L.: Exigências nutricionais e alimentos. Anais… 1° Simpósio de Nutrição e Alimentação Animal – XIII Semana Universitária da Universidade Estadual do Ceará – UECE, Ceará, p.56-70, 2013.

PEREIRA, F. M., FREITAS, B. M., NETO, J. M. V., LOPES, M. T. R., BARBOSA, A. L. &  CAMARGO, R.C.R. 2005. Desenvolvimento de colônias de abelhas com diferentes alimentos proteicos. Pesquisa Agropecuária Brasileira, 41: 1-7.

WANG Y, KAFTANOGLU O, BRENT CS, PAGE RE, AMDAM GV. Estresse de fome durante o desenvolvimento larval facilita uma resposta adaptativa em trabalhadoras adultas abelhas melíferas (Apis mellifera L.). J Exp Biol. Abril de 2016; 219 (Pt 7): 949-59.

OLIVEIRA , G.P ; KADRI , S.M; BENAGLIA, B.G.E; ORSI , R.O ; Suplementação energética para manutenção ou desenvolvimento de colônias de Apis mellifera L. J Venom Anim Toxins incl Trop Dis, 2020, 26: e 20200004  .

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1 Comentário

Esmeralda março 15, 2021 at 9:42 pm

Excelente artigo!
O desenvolvimento da apicultura está de mãos dadas com o desenvolvimento da agricultura.
Muito bom saber que existem alternativas alimentares para as A. mellifera. Isso deverá melhorar a produção dos dois lados.

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