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Revista Attalea Agronegócios
Agricultura Natural

[Ana Maria Primavesi] – Usar composto é praticar agricultura orgânica? (a palha agrega mais o solo do que o composto)

ANA MARIA PRIMAVESI

Engenheira Agrônoma, nascida e formada na Áustria em 1920. Foi a primeira agrônoma a afirmar que o solo tem vida. Durante seu período de faculdade a Europa enfrentava a 2ª Guerra Mundial e ela persistiu em seus estudos, determinada a estudar o solo, sua grande paixão. Casou-se com Artur Primavesi ainda na Áustria e o casal imigrou para o Brasil, onde viveram em Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul. Ícone da Agricultura Ecológica, escreveu o livro que seria o divisor de águas na compreensão da prática natural da agricultura: “Manejo Ecológico do Solo”. Além desse, outros livros foram publicados e que foram relançados pela Editora Expressão Popular (https://www.expressaopopular.com.br/)

Contato: https://www.facebook.com/anamariaprimavesi

A agricultura orgânica tem suas normas e estas dizem que se precisa de composto. Então todos fazem composto. Os plantadores de cana-de-açúcar orgânica usam todo bagaço e torta de filtro para produzir composto, e alguns até instalam granjas de frangos para poder misturar cama-de-frango com seu bagaço.

Outros, que produzem laranjas orgânicas, até entram em guerra por causa do esterco de confinamentos bovinos e de frangos. Produtores de seriguela buscam folhas de carnaúba e esterco de frango até a 300 quilômetros de distância. Plantadores de verduras vasculham tudo para achar suficiente cama-de-frango para seu composto. Plantadores de café brigam pela casca do café e mantém granja de frangos.

Mas produzir composto é muito trabalhoso e caro. Como nutrir 6 bilhões de pessoas com produtos orgânicos quando 10 milhões já parecem o limite? Os adeptos da agricultura convencional já observaram maliciosamente que o composto constitui a limitação da agricultura orgânica e, portanto, somente alguns pequenos agricultores podem usar o método. Dessa forma, parece ser mais uma obsessão de alguns loucos do que uma atividade econômica que se possa levar a sério.

O composto é o pivô ao redor do qual tudo gira. Determina-se quanto esterco de granjas convencionais é permitido para não carregar o composto demais com anabolizantes, promotores de crescimento, geralmente antibióticos, organofosforados usados no controle de parasitas bovinos e outras substâncias indesejáveis.

Na Alemanha, principal importador de produtos orgânicos, permitem 20% de esterco de granjas convencionais. E se o esterco for misturado com bagaço de cana convencional, pergunta-se: o que exis-te nesse produto ainda sem venenos? É orgânico, porque não usam adubos químicos. Mas ninguém consegue explicar exatamente o que muda.

Além disso, os agricultores orgânicos acreditam que seus produtos nunca possam atingir o tamanho e a perfeição dos convencionais, porque, com 40 toneladas de composto, adicionam somente metade do NPK usado em seus cultivos convencionais. E não é fácil conseguir o preço diferenciado, por depender de certificadores que não cobram pouco, por pertencerem a firmas que também querem ganhar. Mas somente com o “selo de qualidade orgânica” se consegue o preço diferenciado. De modo que plantar organicamente não é tarefa fácil.

Porém, como a exportação esbarra nos dias de hoje em uma série de dificuldades, especialmente de tarifas alfandegárias, quotas e outras, bem como os adubos e defensivos estão cada vez mais caros, enquanto os preços dos produtos permanecem estáveis ou caem, os agricultores estão frente a um dilema: abandonar o campo e entregar suas terras ao agrobusiness ou, como se chama atualmente, ao agronegócio, ou tentar a agricultura orgânica, que justamente esbarra no composto. A situação parece desesperadora. Não tem saída mesmo se for mantida a visão compartimentada ou, como se chama, “temática”, trocando um fator químico por um orgânico, porém, continuando a ignorar as causas e a combater sintomas.

Mas quando se enfoca o todo, procurando as causas dos problemas, quando se procura a razão de aplicar composto, quando não se encalha simplesmente na norma, de aplicar composto, a solução não só se torna bem mais barata, mas também não há limite de tamanho da propriedade. Pergunte ao solo o que ele faz com o composto.

O que se quer não é nutrir a planta com NPK orgânico, mas fornecer alimento para a vida do solo, para que esta o agregue, criando poros por onde devem entrar ar e água. Em clima temperado, usa-se composto porque a decomposição do material orgânico é vagarosa.

No clima tropical, o efeito da matéria orgânica não decomposta é muito maior e muito melhor, pois ocorrem etapas no processo de decomposição que melhoram a estrutura do solo e que são “queimadas” durante a compostagem, que resulta num produto parcialmente estabilizado em termos biológicos. Aqui não existem confinamentos de gado que, na primavera, deixam os estábulos quase desaparecer debaixo de enormes pilhas de esterco e palha, que constitui a cama do gado, e que necessita de algum destino.

Distribuído na forma indecomposta nos campos, em clima temperado o esterco impediria o plantio. Então tiveram a feliz ideia de compostar, isto é, colocar matéria orgânica “semidigerida” no solo. E o esterco com a palha virou adubo, especialmente rico em nitrogênio, que acelerava o crescimento primaveril. E o solo, agregado pelo gelo, agora teria sua estrutura estabilizada pelas bactérias e fungos que vivem da matéria orgânica. Era genial.

E na região tropical? Na índia conseguem o milagre de nutrir um bilhão de pessoas numa área que não passa de 37% da área do Brasil e ainda exportam cereais. Há regiões onde vivem mais de mil habitantes por quilômetro quadrado, como em Bangladesh. Não existem animais para fornecer esterco suficiente. Boa parte dos agricultores é pobre demais para comprar adubo químico. E os defensivos já consomem grande parte da receita. O que eles fazem? De onde tiram o nitrogênio tão essencial para as plantas?

Não é possível plantar leguminosas como adubo verde, porque a terra nunca pode ficar “descansando”. E, segundo as contas feitas pela FAO, as leguminosas somente poderiam produzir 20% do nitrogênio necessário para toda a terra cultivada no mundo, que precisa produzir para nutrir tanta gente.

Descobriram um sistema simples e fácil. Deixam a palha da cultura no campo e aplicam 200 kg/ha de escória de Thomas, resíduo cálcio-fosfórico barato da produção de aço. Com isso, possibilitam a vida de bactérias que, na decomposição da palha, produzem açúcares ácidos, os ácidos poliurônicos, e que são a comida de outras bactérias, os Azotobacter, que fixam nitrogênio do ar. É o método Dhar, segundo o professor que o descobriu (Nil Ratan Dhar). Assim eles fazem o chamado “composto de área”. Não necessitam nem juntar a palha, nem empilhá-la, nem virar as pilhas em compostagem. Decompõem a palha diretamente no campo, à luz do sol, e recebem seu nitrogênio de graça. E de onde tiram o potássio? Da palha de milheto e de mamona. Tudo o que é preciso é uma rotação de culturas bem estabelecida.

E o solo se torna poroso, as raízes conseguem se expandir e explorar um grande volume de solo. Então as culturas ficam bem nutridas e produzem bem.

O composto, apesar das normas, não é a única, nem a melhor forma de tratar a terra na agricultura orgânica. PALHA AGREGA MAIS PORQUE AINDA EXISTEM TODAS AS ETAPAS DO PROCESSO DE DECOMPOSIÇÃO, especialmente as iniciais, em que atuam os organismos celulolíticos.

E os nutrientes que o composto adiciona ao solo?

Estes somente são um “brinde” que se recebe após a decomposição completa da matéria orgânica. Nenhuma planta come pedaços de outra planta, nem de esterco. Elas só se nutrem dos minerais solúveis liberados no final do processo de decomposição. Portanto, é um engano acreditar que composto seja adubo. Composto é alimento para a vida aeróbia do solo.

O nitrogênio que ele contém depende da excelência do processo de compostagem. E os outros nutrientes? Há pouca correlação. Por isso, composto aplicado na superfície, onde agrega o solo, faz muitíssimo mais efeito do que quando enterrado. As plantas tiram seus alimentos do solo, isto é, do grande volume de solo que exploram com suas raízes (“intestinos” das plantas) quando o solo estiver bem agregado e “solto”. E o esgotam? Não se houver biodiversidade, porque cada espécie e cada variedade possui potencial diferente de mobilização de nutrientes.

Portanto, o que o composto (melhor ainda a palhada com celulose) deve fazer é alimentar as bactérias que agregam o solo, criando poros na camada superficial, e evitar a formação de crostas e lajes duras.

Se quisermos adubar um pomar, em geral, basta plantar milheto e mamona, roçá-los e distribuir fosfato natural ou termofosfato por cima. O restante, as bactérias fazem. Se faltam micronutrientes, é preciso aplicar especialmente boro, que aumenta o tamanho das raízes e com isso a absorção das culturas.

Lembrando: as culturas não necessitam de composto, mas necessitam de:
1- um solo agregado e poroso (matéria orgânica – a melhor é palha – sempre deve ficar na camada superficial do solo e nunca pode ser enterrada) para facilitar a entrada de água e ar;
2- um sistema radicular amplo (boro);
3- suficiência em nutrientes, tanto de macro como de micro que, em sua maioria, se consegue de acordo com a adubação verde ou palha que se fornece;
4- da proteção da superfície do solo contra o impacto da chuva e o aquecimento. De solos quentes (acima de 32°C), as plantas não absorvem mais nada, nem água nem nutrientes. Em solos protegidos e frescos as plantas necessitam de menos nutrientes.

E tudo isso não se consegue através do composto, mas do manejo adequado do solo e das raízes. Por exemplo, composto enterrado tem um efeito catastrófico sobre as culturas, por ser submetido a uma decomposição anaeróbica, soltando gases tóxicos, como metano e gás sulfídrico, que podem matar as mudas; não melhora a porosidade do solo nem aumenta o sistema radicular.

Na Agroecologia não existem receitas como na agricultura convencional, mas há conceitos que cada um coloca em prática segundo suas condições, necessidades e possibilidades. (Este texto é parte do livro “Pergunte ao Solo e às Raízes: casos”, de Ana Primavesi e que está sendo preparado para ser relançado).

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