fbpx
Revista Attalea Agronegócios
ARTIGOS Café

[Alessandra Vacari, Gustavo Pincerato e Enes Barbosa] – Pesquisas desenvolvidas na Universidade de Franca para o Manejo Integrado de Pragas em cafeeiro

Profª Drª ALESSANDRA MARIELI VACARI
docente e pesquisadora na Universidade de Franca
Me. e Engº Agrº GUSTAVO PINCERATO FIGUEIREDO
GPF Pesquisas e doutorando na Universidade de Franca
Engº Agrº ENES PEREIRA BARBOSA
Emater e Mestrando na Universidade de Franca

1. Introdução

Este artigo aborda as pesquisas desenvolvidas no Laboratório de Entomologia da Universidade de Franca no qual a responsável é a Profª Drª Alessandra Marieli Vacari. A professora é entomologista e especialista em Manejo Integrado de Pragas (MIP), principalmente na cultura do cafeeiro. Assim, este artigo apresenta a sua equipe, conceitos, linhas de pesquisa e recentes resultados obtidos. As pesquisas desenvolvidas são relacionadas a utilização de inseticidas botânicos, macrobiológicos, microbiológicos, seletividade, além de manejo de populações resistentes, sempre no âmbito do MIP buscando estratégias de controle sustentáveis.

A Profª Drª Alessandra Marieli Vacari atua no curso de graduação em Engenharia Agronômica e nos Programas de Pós-graduação em Ciência Animal e Ciências no qual orientada alunos de iniciação científica, mestrandos e doutorandos. Sua equipe é formada pelo Gustavo Pincerato Figueiredo que é doutorando, Josy A. Santos e Lucas Ubiali que são mestrandos pelo Programa de Pós-graduação (PPG) em Ciências; Enes P. Barbosa é mestrando pelo PPG Ciência Animal; Agda Braghini, Andriely B. Silva, Bruno G. Dami, Fabrícia C. Paula, Jonas M. R. Souza, Vinícius de Oliveira Lima e Wesley B. S. Paula, são graduandos do curso de Engenharia Agronômica e bolsistas Fapesp; Maria Clara C. F. Assis é aluna do Ensino Médio e bolsista PIBIC-EM do CNPQ.

As pesquisas são desenvolvidas em parceria com produtores da região e são fomentadas por instituições governamentais de auxílio à pesquisa como FAPESP, CAPES e CNPQ, além de empresas privadas no qual a professora possui parceria como Syngenta, Bayer, Sustenágil, Grupo Vittia, Ballagro, Usina São Martinho e também a Associação dos Produtores Mineiros de Algodão (AMIPA) e a Cooperativa das Agricultoras e Agricultores Familiares Orgânicos de Claraval e Região (COORGANICA). Os cafeicultores Alexandre Leonel, André Cunha e Enison Lopes, produtores da região, são colaboradores nas pesquisas desenvolvidas.

Figura 1 – Dia de avaliação de experimento em campo na Fazenda Bom Jardim, em Ribeirão Corrente (SP). Da esquerda para a direita: Camila Henrique (Fazenda Bom Jardim), Professora Alessandra Marieli Vacari, Bruno Dami (orientado de Iniciação Científica), Thiago David de Oliveira (Fazenda Bom Jardim), Jonas R. S. Mendes (orientado de iniciação científica) e Gustavo P. Figueiredo (orientado de doutorado). (Créditos: Alessandra Marieli)

2. Manejo Integrado de Pragas

Todas as pesquisas realizadas pela equipe são embasadas no Manejo Integrado de Pragas. Inicialmente a denominação era de Controle Integrado e posteriormente o conceito evolui para o termo “Manejo Integrado de Pragas” (MIP) para designar o controle de insetos com bases ecológicas e que envolve qualquer tipo de problema que limite a produção agrícola decorrente da competição interespecífica (patógenos, insetos, nematoides, plantas daninhas, etc). Assim, pode-se dizer que o manejo foi uma resposta da comunidade científica ao uso incorreto de produtos químicos.

Esse conceito é muito amplo, sendo um somatório de tecnologia (conhecimentos) em várias áreas (entomologia, fitotecnia, fisiologia vegetal, matemática, economia, ciência da computação etc.), formando um pacote tecnológico dinâmico, que prevê uma estrutura objetiva para as tomadas de decisões relacionadas com o emprego de novos métodos de controle. Essa estrutura, às vezes complexa, leva em consideração os efeitos negativos que cada método de controle pode ter na sociedade e no meio ambiente; procura utilizar ao máximo os agentes naturais de controle do meio (físico e biológico), inclusive manipulando-os, levando em consideração as características ecológicas e econômicas das culturas e das pragas.

Figura 2 – Ovos de Crisopídeos em folha de cafeeiro. (Créditos: Alessandra Marieli)
Figura 3 – Injúria causada por Bicho-Mineiro. (Créditos: Alessandra Marieli)
Figura 4 – Larva do predador Crisopídeo próxima a mina de Bicho-Mineiro. (Créditos: Alessandra Marieli)

Em última análise, o manejo de pragas utiliza meios (técnicas) que visam manter as pragas abaixo do nível de dano econômico, técnicas estas representadas pelos diferentes métodos de controle fundamentados na taxonomia – identificação correta da espécie, amostragem (conhecimento do real nível e perdas ocasionadas) e que podem, inclusive, ser integrados com inseticidas, desde que essa integração seja feita de forma harmoniosa.

Com o avanço tecnológico, as plantas geneticamente modificadas, especialmente aquelas transformadas para expressar algumas toxinas de Bacillus thuringiensis, ou mesmo aquelas que contêm inibidores enzimáticos, podem ser enquadradas em qualquer programa de MIP dentro do método resistência de plantas.

Segundo Kogan (1998), o MIP é definido como: “sistema de decisão para uso de táticas de controle, isoladamente ou associadas harmoniosamente, numa estratégia de manejo baseada em análises de custo/benefício que levam em conta o interesse e/ou impacto nos produtores, sociedade e ambiente”. Deve-se estabelecer, ainda, que não é o uso de vários métodos de controle que caracteriza um sistema de manejo, mas sim a relação do método (ou métodos) dentro dos preceitos ecológicos, econômicos e sociais que são a base do manejo de pragas.

Figura 5 – Adulto de crisopídeo em cafeeiro. (Créditos: Alessandra Marieli)
Figura 6 – Crisopídeo (Chrysoperia externa) predando larva de Bicho-Mineiro (Leucoptera coffeella). (Créditos: Alessandra Marieli)

3. Inseticidas botânicos para o controle de Bicho-Mineiro

As pesquisas desenvolvidas no Laboratório de Entomologia são embasadas no conceito de MIP. Assim, um dos focos é voltado para o estudo de inseticidas botânicos obtidos a partir de extratos de plantas ou de substâncias isoladas. São conduzidos estudos utilizando óleo de laranja (Citrus sinensis), óleo de nim (Azadirachta indica), extratos de ipê-roxo (Handroanthus impetiginosus) e margaridão (Tithonia diversifolia).

A utilização de inseticidas botânicos, como os óleos de laranja e de nim, que possuem atividade inseticida contra várias espécies de lepidópteros pragas, podem ser promissoras e eficientes táticas de controle. Os óleos essenciais obtidos de plantas de citros podem provocar efeitos tanto de mortalidade quanto de repelência.

Azadiractina é o ingrediente ativo encontrado em extratos e óleos obtidos da planta Azadirachta indica, já conhecida por seu efeito inseticida em insetos da ordem Lepidoptera. Tal efeito inseticida foi registrado para várias pragas de grande importância econômica.

Na região da Alta Mogiana, alguns produtores orgânicos já utilizam óleo de nim e de laranja com o intuito de controlar o Bicho-Mineiro. No entanto, essa ação é empírica e não existem pesquisas que realmente comprovam a eficácia destes inseticidas botânicos sobre a praga. O grande desafio é tentar disponibilizar para os produtores, metodologias de controle sustentáveis utilizando inseticidas botânicos para o controle do bicho-mineiro em cafeeiro, principalmente em sistemas orgânicos onde químicos sintéticos não são permitidos.

Figura 7 – Montagem e avaliação de experimento em campo. Liberação de crisopídeo em área de café para o controle de Bicho-Mineiro (Leucoptera coffeella). (Créditos: Alessandra Marieli)
Figura 8 – Montagem e avaliação de experimento em campo. Liberação de crisopídeo em área de café para o controle de Bicho-Mineiro (Leucoptera coffeella). (Créditos: Alessandra Marieli)
Figura 9 – Montagem e avaliação de experimento em campo. Liberação de crisopídeo em área de café para o controle de Bicho-Mineiro (Leucoptera coffeella). (Créditos: Alessandra Marieli)

4. Microbiológicos para o controle de Bicho-Mineiro

A professora também conduz pesquisas sobre controle biológico aplicado com a utilização de agentes entomopatogênicos, como para o fungo Cordyceps fumosorosea (Wize)(anteriormente Isaria fumosorosea [Kepler et al., 2017]) e a bactéria Bacillus thurigiensis, que possuem atividade inseticida contra várias espécies de lepidópteros pragas, e que podem ser promissoras e eficientes táticas de controle para esses insetos. Existem muitas maneiras pelas quais uma bactéria ou um fungo entomopatogênico podem atuar sobre seu hospedeiro. O resultado final da interação patógeno-hospedeiro, influencia os processos de alimentação, crescimento, desenvolvimento e mortalidade de lagartas.

Assim, pesquisas estão sendo conduzidas no Laboratório de Entomologia com o intuito de disponibilizar para os produtores, uma metodologia de controle biológico utilizando bioinseticidas para o controle do Bicho-Mineiro em cafeeiro.

Figura 10 – Larva de Chrysoperla externa consumindo pupa de Bicho-Mineiro. (Créditos: Alessandra Marieli)
Figura 11 – Larva de Chrysoperla externa consumindo larva de Bicho-Mineiro. (Créditos: Alessandra Marieli)

5. Controle biológico utilizando crisopídeos

Com o intuito de auxiliar futuros programas de controle biológico que utilizem crisopídeos (Neuroptera: Chrysopidae) como agente de controle, as pesquisas desenvolvidas pela Profa. Alessandra Marieli Vacari têm por objetivo conhecer a diversidade de espécies de Chrysopidae em cultivos de cafeeiro (Coffea arabica L.) na região de Franca (SP) e verificar quais espécies são potenciais agentes de controle biológico de Bicho-Mineiro (Leucoptera coffeella).

Os indivíduos de crisopídeos coletados na região durante o desenvolvimento das pesquisas foram identificados como as espécies Ceraeochrysa cincta, Ce. dislepis, Ce. everes, Ce. scapularis, Chrysoperla externa, Leucochrysa (Nodita) rodriguezi, and L. (Nodita) forciformis. A maior ocorrência de indivíduos de crisopídeos coletados em campo coincidiu com os meses de maior precipitação pluviométrica. Além disso, os resultados obtidos indicaram que as espécies de crisopídeos Chrysoperla externa, Ceraeochrysa cincta e Ceraeochrysa cornuta podem completar o desenvolvimento e se reproduzir com sucesso consumindo lagartas e pupas de bicho-mineiro.

Descobriu-se também que uma larva de crisopídeo pode consumir 7 a 8 lagartas ou pupas de bicho-mineiro por dia e que mesmo no interior da mina, as lagartas são predadas. Além disso, quando os predadores tiveram opção de escolha entre plantas infestadas com lagartas ou pupas de L. coffeella, não apresentaram preferência pela fase de desenvolvimento da praga, indicando que no campo seu potencial de controle pode ser para ambas as fases. As pesquisas em campo ainda são iniciais, mas resultados preliminares com liberações do predador C. externa permitiram a redução populacional de bicho-mineiro em até 56,3%. Os resultados obtidos abrem a possibilidade de utilização de crisopídeos no controle biológico do bicho-mineiro L. coffeella.

Figura 12 – Larvas de Ceraeochrysa cornuta. (Créditos: Alessandra Marieli)

Também faz parte da rotina do Laboratório de Entomologia estudos de seletividade de produtos fitossanitários utilizados na cultura cafeeira sobre os predadores crisopídeos. Tanto o inseticida químico sintético abamectina como alguns inseticidas botânicos testados, foram seletivos aos predadores, o que favorece a utilização desses produtos como táticas de controle no manejo integrado de pragas.

Figura 13 – Liberação de cartelas com ovos de Crisopídeos em campo. (Créditos: Alessandra Marieli)
Figura 14 – Ceraeochrysa cincta predando larva de Bicho-Mineiro (Leucoptera coffeella). (Créditos: Alessandra Marieli)
Figura 15 – Adulto de crisopídeo. (Créditos: Infoteca/CNPTIA/EMBRAPA)
Figura 16 – Ovos de crisopídeo em folha de cafeeiro. (Créditos: Alessandra Marieli)(Créditos: Fabrícia de Paula)

6. Considerações finais

Os cafeicultores não possuem uma metodologia eficiente de controle para bicho-mineiro que seja sustentável e que possa ser utilizada na agricultura orgânica. Devido ao alto valor agregado do café orgânico e também de cafés especiais, torna-se fundamental o desenvolvimento destas pesquisas, para que os cafeicultores possam controlar de forma eficiente e sustentável o Bicho-Mineiro, L. coffeella.

Por meio dos resultados obtidos, será possível estabelecer possíveis táticas de controle sustentáveis, contribuindo para a produção em sistemas cafeeiros de uma das principais pragas da cultura, no qual os cafeicultores ainda enfrentam uma grande dificuldade para seu controle.

Related posts

22ª Feira de Irrigação em Café do Brasil reúne grandes empresas do setor em Araguari (MG)

Revista Attalea Agronegócios

Inseticida reduz em 76% a incidência do Bicho-Mineiro no café

Revista Attalea Agronegócios

UPL lança nova tecnologia para manejo da Ferrugem-do-Café durante a FEMAGRI

Revista Attalea Agronegócios

1 Comentário

São Carlos abril 18, 2021 at 1:34 pm

Parabéns a todos os envolvidos!
Muito boa a iniciativa! Excelente!

Resposta

Deixe um comentário